segunda-feira, setembro 15, 2008

Tio fulano e meu teste de HIV.


Assumo, sou um cara extremamente hipocondríaco. Cheguei a cultivar o sonho de ser médico, mas me convenci que jamais daria certo: a cada doença que eu estudasse, fatalmente sentiria os seus sintomas. Hoje, quando eu começo a ler alguma coisa e vejo que tem a ver com doença, pulo para outra matéria. Se eu estiver assistindo TV e o assunto também for doença, eu dou mute ou então começo a cantarolar alto. O negócio é não saber do que se trata, senão já era. Sou tão hipocondríaco que já tenho até o epitáfio para minha lápide: “Viu que eu estava doente?!”.

Bom, eu tenho um grande amigo de infância que é médico. Uma figura espetacular. Só tem um defeito: adora falar de doenças. Há uns 12 anos, quando havíamos acabado de entrar na faculdade, ele era até pior. Empolgado, vivia comentando de tudo que aprendia. Cada doença mais escabrosa que a outra. Ele contando e eu sentindo os sintomas.

Um belo dia, ele resolveu falar tudo o que havia aprendido sobre HIV. Eu entrei em pânico. E o pior, sem motivo algum. Mas o fato é que naquela época ainda não existia o coquetel que hoje faz os doentes conviverem relativamente bem com a doença. Era uma cruel sentença de morte. Enquanto ele falava sobre a AIDS como quem fala sobre a Disneylândia, eu me olhava no espelho do quarto e já estava me achando mais magro. Lembrei também que eu havia tido uma dor de barriga há mais ou menos duas semanas. Sem contar que eu estava sentindo um pouco de enjôo ouvindo tudo aquilo. Pronto. Eu estava com AIDS.

Não tive outro jeito a não ser apelar para Tio Fulano (vide post “- Dona Terezinha, Pedro não pode ser contrariado”). Fui até sua casa, precisava urgentemente de uma requisição de exame para HIV. Mas tinha um problema: por conhecer demais a mim e a minha hipocondria crônica, ele nunca me levava a sério. Cheguei lá e procurei disfarçar o nervosismo:

- Tio Fulano, tem muito tempo que eu não faço um exame de sangue, você pode me passar uma requisição?

Ele pegou seu receituário, rabiscou algumas coisas e me entregou. Consegui ler um monte de coisa, menos algo que falasse em HIV, AIDS ou ELISA e Western Blot (sim, eu já tinha pesquisado na internet tudo sobre a doença e seus exames diagnósticos). Aí perguntei a ele meio sem jeito:

- Tio Fulano, não tá faltando nenhum exame aqui não?

- Não, Pedro. Você não tem nada. – respondeu Tio Fulano com sua habitual falta de paciência diante de minha hipocondria.

Tive então que ser claro. Expliquei a ele que eu estava sentindo isso e aquilo, estava mais magro, dor de barriga, enjôo e todos os demais sintomas da AIDS. Ele perguntou se eu usava camisinha. Respondi que, como bom hipocondríaco, usava duas para garantir. O que falta a ele de paciência, muitas vezes também falta de tato:

- Isso é que não pode. Usar duas camisinhas aumenta o risco. Com o atrito entre elas, o látex pode fissurar...

Eu sabia. Tinha alguma coisa errada comigo. Eu estava com AIDS. Supliquei:

- Meu tio, me ajude, me dê logo essa requisição de exame.

Tio Fulano mandou eu ir ao hospital onde ele trabalha. Lá, iria agilizar as coisas no laboratório. Não dormi. Amanheci no posto de coleta de sangue. Após o exame, perguntei a ele:

- Fica pronto hoje?

Tio Fulano sorriu um sorriso irônico e respondeu:

- Uma semana, no mínimo.

Uma semana sem dormir. Nesse meio tempo, fiquei intrigado com uma coisa. Quando um exame desse tipo dá positivo, simplesmente entregam o resultado ao paciente? Não podia ser assim, ia ter um monte de gente cometendo loucuras diante de um envelope aberto. Sem agüentar as intermináveis perguntas e aproveitando a última gota de paciência que lhe restava, Tio Fulano respondeu:

- Funciona assim: caso dê positivo, o laboratório entra em contato com o paciente e diz que o sangue coagulou e que é necessário coletar outra amostra. Com esta segunda amostra, faz-se o teste confirmatório e, dando positivo de novo, o resultado é dado com acompanhamento psicológico.

Morrendo de medo do laboratório me ligar, todos os dias eu enchia a paciência de Tio Fulano perguntando a cada 10 minutos se o exame já estava pronto. Enfim, um dia liguei para seu celular e ele disse apressado:

- Tô no meio de uma cirurgia, seu exame está pronto e eu já mandei buscar no laboratório. Tchau.

Fui para a casa dele e descobri que 30 minutos podem demorar mais para passar do que 3 meses. Ele chegou e eu devo ter feito uma cara apavorada de “e aí?!?”. Ele fez um gesto de mão como quem diz: quem já esperou uma semana, espera eu chegar direito em casa. Fomos pro seu gabinete, eu suava frio. Pedi que não ligasse o ar-condicionado. Tio Fulano, de maneira inédita, andava a passos lentos, gesticulava de forma lenta. Parecia que tinha passado a tarde fazendo ioga.

- Sim, meu tio... – balbuciei, buscando acabar com o suplício.

- Só um minuto, vou ao banheiro. – disse ele, quase um monge.

Deve ter sido o xixi mais longo de toda a história. Ele retornou. Sentou diante de mim em sua enorme cadeira presidente. Nem forças para perguntar mais uma vez eu tinha. Silêncio. Olhando para mim, ele disse:

- “Meu tio”, você vai ter que voltar lá comigo amanhã... seu sangue coagulou.

Não lembro de muita coisa depois disso. Apenas de começar a ver tudo ficar preto. Tio Fulano conta que, com feições de fantasma, eu chorava, me apegava a Deus e Nossa Senhora e falava sem parar:

- Eu sabia que eu estava com AIDS! Meu tio, eu sabia! Por que eu??

Com um semblante de surpresa e preocupação, ele segurou em meu braço gelado e dizia entre gargalhadas estrondosas:

- “Meu tio”, é brincadeira! Deu negativo!

- Não, eu sei que eu tô doente! Eu vou morrer. Você só tá falando isso pra me confortar... – dizia, querendo me conformar com meu calvário.

Devo ter tomado uns dois tapas na cara pra voltar à realidade. E, depois desse dia, jamais tornei a pedir a Tio Fulano uma requisição de exame.

13 comentários:

Gabriel disse...

show de bola muderno euheuheuheuhe

Gabriel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rueda disse...

PQP! ahuhauhuahuahua

q sem noção maluco! ahuahuahuahu

caralho pedro, VC EH DOENTE!

Dani disse...

imagino sua cara de desespero... huahuahua... besta

David Franco disse...

Moreno, eu passei por algo parecido quando pedi a minha mãe para fazer um eletroencefalograma. Eu achava que morreria de derrame ao 12 anos de idade. Imagine. Isso me deixou tão atormentado q não estudava direito com medo de ficar maluco. hehehe Quase perco de ano.

Abraços

Dedinhos Nervosos disse...

ahahahah òtimo! Seu tio é ótEmo! hahahaha

Lembrei de 1 epísódio de Sex and the City, onde a Samantha (a promíscua) fez um exame de HIV e falaram com ela, que quando uma pessoa tinha a doença, a enfermeira chamava numa salinha, onde tinha um piscólogo atendendo. Na hora que ela foi buscar, a enfermeira já mandou ela ir pra salinha, ela foi ficando + nervosa e desmaiou! É que o lugar estava sendo reformado e só a salinha estava sendo usada rsrs
Bjos!

geraferraro disse...

Esse é o Valente quye eu conheço... medrooossooo. Rsss, e o tio Fulanel eu tb conheço, hahahaha.
Grande histório Peu. Vlw

Moreno disse...

Moreno..essa historia é daquela epoca que voce aprontava nos eventos de pagode??? Posso entender seu medo...

Paula Dantas disse...

Vim parar aqui por causa do "Embrulhos no Estômago" e de cara já me identifiquei demais com esse post.
É que eu tbm sou a maior medrosa qdo o assunto é doença e num passado não tão distante eu tbm escasquetei que tinha AIDS. Fui fazer exame, fiquei sem dormir, conversei com uma amiga e ela disse que eu estava louca...
Qdo fui pegar o resultado encontrei por acaso uma grande amiga no laboratório e pensei "Deus mandou ela aqui pra me consolar..." kkkkkk Maior viagem!!!
O exame demorou, eu quase enfartei, pedi a minha amiga que abrisse pra mim e nós duas, a essa altura uma mais nervosa que a outra, conferimos o resultado: NEGATIVO! Ufa...
Nunca mais vou esquecer!

Gostei do seu blog!

Beijos

Lilian Devlin disse...

Poxa, pelo visto, quase todo mundo já passou por um susto desse. Inclusive EU!
Grávida e como de praxe, o médico me pediu um exame de HIV( "é pro forma, obrigatório, vc entende", etc e tal). Fui ao laboratório, fiz a coleta e uns dias depois, não me lembro quantos, me ligam do laboratório pedindo que voltasse lá para repetir. Fui, com o coração aos pulos e, óbvio, temendo o pior.
Chegando lá, tomei coragem e perguntei : porque vou ter que repetir o exame? No que a enfermeira me diz: ah, por nada! o coletor tropeçou na maletinha, os vidrinhos quebraram e vamos ter que colher amostras de todos novamente!Ah se esse coletor aparece na minha frente nesse dia!!
Bjs e tô adorando seus casos!!

Fábio disse...

É!
Quem tem pííí!!!! tem medo...

aeronauta disse...

Realmente, você é muito bom! Textos perfeitos!

Anónimo disse...

meu deus to apavorada, tenho 22 anos e sou hipocondríaca tbém o ano mal começou e ja fui ao medico 3 vezes atras de exame de tudo que vc imaginar, terça feira vou coletar sangue fazer um chek up completo inclusive o de hiv estou apavoradíssima. :(