sexta-feira, abril 23, 2010

O porteiro, o “estrupador” e o sofá.

Que o ofício de porteiro de prédio é de tremenda importância em nossas vidas, ninguém pode negar. São eles que zelam pelo nosso patrimônio, que decidem quem entra e quem sai, que barram ex-namorados inconformados, que amenizam a carência das empregadas domésticas, que resolvem o que o síndico jamais resolve, que distribuem Playboy entre as crianças, que te sacaneiam quando seu time perde, que sabem quem é viado e quem não é. Enfim, que são verdadeiros guardiões de segredos comprometedores dos condôminos - e, talvez por isso, os chamamos de “zelador”.

Mas, também são esses sujeitos os responsáveis por informações truncadas através do interfone.
Uma vez, por exemplo, eu estava fazendo trabalho de grupo de faculdade quando Antônio, porteiro de alcunha “Tonho”, interfonou para meu apartamento anunciando que “Seu Bilixo” estava subindo. Eu respondi que não era possível, já que não tinha nenhum amigo com esse nome e nem mesmo acreditava que existisse um pai capaz de batizar seu filho de Bilixo. Ele insistiu:

- É Bilixo mesmo, perguntei pra ele já. Ói, vou perguntar de novo. [Assovio] Ei, qual o nome do senhor mesmo? Ói, deu pra ouvir daí? Bilixo.

- Ô Tonho, se é Bilixo o nome dessa criatura, não tá vindo aqui pra casa. Deve ser engano ou você está ouvindo errado. Não tá vendo que ninguém pode se chamar Bilixo? – respondi.

Tonho respondeu impaciente, atropelando palavras:

- Mas homem, eu nãotôdoidonão! Já perguntei pra mais de cinco vezes, o moço já tá chateado, e é seu amigo, pode acreditar, porque eu já vi ele chegar com você outro dia, o carro dele tá atrapalhando aqui a passagem, dona Lucinha tá querendo sair e Doutor Marques tá querendo entrar, faço o quê, posso liberar o rapaz?

- Tonho, por favor, peça a ele pra encostar o carro e ir até o interfone – tentei acabar com o mistério de Bilixo de forma segura.

Após alguns instantes, uma voz do outro lado do interfone mostrava irritação:

- Ô velho, você vai me deixar aqui do lado de fora do prédio, é?

- Quem tá falando?

- Sou eu, rapaz, já disse mil vezes pra seu porteiro! Vinícius.

Mas, essa história não é sobre Tonho, Vinícius ou Bilixo. É sobre outro porteiro que deixou sua marca no Parque das Árvores: Gidevaldo. É sobre Gidevaldo, o “estrupador” e o sofá.

Numa bela tarde qualquer, em um dia de meio de semana qualquer, tocou o interfone do 701. A empregada atendeu:

- Ana, ói, é pra avisar aí a Dona Sandra que o “estrupador” tá subindo, viu?

- Quem tá subindo, Gidevaldo?! – perguntou Ana, apreensiva.

– O “estrupador” - e desligou o interfone.

Ana, empregada antiga da casa, crente, saiu correndo esbaforida pelos cômodos, gritando:

- Dona Sandra! Ô, Dona Sandra! Acode aqui, por Jesus... ligaram lá de baixo dizendo que o “estrupador” tá subindo.

- Quem tá subindo, Ana?! – perguntou Dona Sandra, assustada.

- O “estrupador” – respondeu Ana, as pernas tremendo e a voz falhando.

Dona Sandra correu para o interfone, o dedo, ávido, metralhava o 20, o número da portaria. Ocupado. Tentou de novo, ocupado.

- Ana, passa a tranca na porta, rápido! – gritou.

E continuou tentando. 20. 20. 20. Ocupado.

- Ana, corre pra porta da frente! Passa a tranca lá também.

Dona Sandra pensou em ligar para o marido. Chegou à conclusão de que não adiantaria: o estuprador já estava no prédio, já havia passado pela portaria. Àquela altura estava no elevador, talvez já desembarcando no 7º andar. O interfone sempre ocupado seria um sinal de que o malfeitor havia cortado a linha, imaginou ela. Ana entoava preces em voz baixa, trêmula, enquanto empunhava uma vassoura de madeira para se defender.

Tocou a campainha da porta de serviço. Dona Sandra e Ana gelaram, seus pelos se arrepiaram. O fim para elas parecia estar próximo. Por conta do desespero, as duas se abraçaram. Ana deixou cair a vassoura.

- Vá embora! Vou chamar a polícia! – gritou Dona Sandra.

A campainha tocou novamente. Dessa vez, um pouco mais demorada.

- Vá embora, maldito – murmurou Ana.

Após uma pequena e eterna pausa, o som seco de três batidas na porta de madeira provocou novo alvoroço e gritaria:

- Socorro! – Dona Sandra implorava por ajuda.

- Meu Jesus, me dê uma boa hora! – Ana suplicava por redenção.

Após insistentes batidas e pedidos de salvação, o suposto criminoso se manifestou:

- Dona Sandra, calma, Dona Sandra... só vim trazer a capa do sofá da senhora. Sou eu, Raimundo, o estofador.

domingo, abril 04, 2010

Fim de semana prolongado e ovos de chocolate à parte...

“Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à sua direita e outra à sua esquerda.

E Jesus dizia:

- Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.

Eles dividiram as suas vestes e as sortearam. A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo:

- Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!

Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

- Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: “Este é o rei dos judeus”. Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele:

- Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

Mas o outro o repreendeu:

- Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. – e acrescentou – Jesus, lembra-te de mim quando tiveres entrado no teu Reino!

Jesus respondeu-lhe:

- Em verdade, te digo: hoje estarás comigo no paraíso.”

Lucas 23, 33-47.

Se nunca é tarde demais para se arrepender, buscar o perdão e ser perdoado, também não deve ser tarde demais para desejar uma feliz páscoa. Um forte abraço a todos.

quarta-feira, março 17, 2010

O Rei que, ao que tudo indica, queria roubar a coroa dos outros.


Há algum tempo atrás, um grande amigo me disse que estava tendo problemas com sua namorada. Sentamos pra conversar. Ele, aflito, disse que certo dia... aliás, pior, certa madrugada, o telefone de sua amada havia tocado enquanto os dois dormiam. Ela não acordou com o toque, mas ele acordou. Quando olhou no display do celular, meu amigo leu: Rei. Achou estranho, mas passava das 3 da matina e tudo o que ele não queria aquela hora era levantar da cama para discutir relação. Voltou a dormir.

No dia seguinte, nem o café da manhã fez descer a pergunta presa na garganta. Entre um gole de suco e outro, escapuliu:

- Quem é Rei?

- Rei?

- Sim, Rei. Ligou pra você essa madrugada. – Nestor perguntou enquanto cortava o pão.

- Ah, sim. É Rei, aquele músico do Chiclete com Banana. – respondeu a namorada calmamente.

- E o que ele queria com você às 3 da madrugada? – perguntou Nestor segurando a faca com um pouco mais de força.

- Nós somos amigos, conheço ele há uns dois anos. Gente boa. Mas, sinceramente, não sei o que ele queria comigo às 3 da manhã.

- É? Ah, é? Sabe o que eu vou fazer? – Nestor, com as mãos, transformou o pão em farelo.

Foi então que, apreensivo, eu interrompi a narração da sua história:

- Ai, ai, ai, o que você fez, Nestor?

Pedindo paciência com a palma da mão apontada pra mim, buscando as minúcias da história, Nestor continuou:

- Falei pra ela: me dá seu celular agora que vou ligar pra esse tal de Rei.

- Amor, que é isso? Você vai falar o quê? Olha a confusão...

- Me dá o celular!

Tomado pela raiva, insistindo em ligar, Nestor conseguiu o que tanto queria. Pegou o celular da namorada, chegou na letra “R” e procurou pelo monarca do axé music. Discou pro sujeito. Do outro lado, o suposto Don Juan atendeu com certa doçura:

- Oi Sabrina!

Com a voz talhada de quem está com o sangue ácido, Nestor respondeu:

- Sabrina uma @#$%&*!!!!! Quem tá falando aqui é o namorado dela, seu @#$%^&*!

Surpreso, o cara respondeu:

- Calma, amigo, calma...

- Calma uma @#$%^&*!!!! – urrou Nestor com os olhos revirando.

- Peraí, rapaz, sou eu... Rei... Rei do Chiclete.

Fiz nova interrupção na história:

- Ah, sim... porque ele é “Rei do Chiclete” pode ligar pra sua namorada de madrugada? Você disse o quê?!

Foi então que Nestor interpretou de maneira teatral uma resposta fantástica. Quase entrando em convulsão de raiva, ele disparou:

- Escute aqui... você pode ser Rei do Chiclete, pode ser príncipe da bala de goma, conde da pastilha Adams, duque da jujuba... não me interessa! Nunca mais ligue pra minha namorada, seu @#$%&*!!!

Depois de me embolar de rir com a espirituosidade irritada de meu amigo, perguntei a ele:

- E o cara voltou a ligar?

- Ele não é doido...

- Sinceramente, achei que você foi radical demais. Dava pra resolver na diplomacia... carnaval tá chegando, você podia negociar uns abadás... – não resisti.

Foi então que, em contrapartida, eu acabei sendo coroado com adjetivos e palavras doces reservados apenas à realeza.


PS: quero mandar um abraço aos leitores de Portugal que, de uns dias pra cá, aumentaram bastante sua participação nos números de acessos do blog. Obrigado aos amigos de Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra, São João da Madeira, Vila Nova de Gaia, Estoril, Evora e Viana do Castelo. São sempre bem-vindos.

sexta-feira, março 12, 2010

Meu irmão Dudu em três pequenas passagens.


Quebra-molas de madeira.

E eu já não aguentava mais rodar pelas estradas do CIA, cheias de longas retas, uma rótula atrás da outra, trechos desertos, verdadeiro paraíso da desova de carros e de gente. Tudo isso para chegar em Caboto, povoado de Candeias, interior da Bahia, encontrar meu irmão que encontrava-se ilhado.

Completamente perdido, passando por preocupantes sombras de sinal de celular, colecionando quilômetros, sem viva-alma para dar uma pista do caminho, eis que surge um tracinho no celular indicando que valia a pena tentar fazer uma ligação. Telefonei correndo para Dudu, que conhecia bem aquele caminho:

- Duda, vou desistir. Não aguento mais girar em rotatórias...

Com uma certa falta de paciência, ele me respondeu:

- Meu filho, você já passou pelo quebra-molas de madeira?

- Eu já perdi a conta de quantos quebra-molas passei, Dudu! Mas todos de asfalto.

- &$%#*@! Madeira é o nome do povoado!

Uns 2 quilômetros à frente, a confirmação: Posto de Saúde de Madeira. E as paredes do lugar, curiosamente, eram de tijolos.

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Um Táxi no carnaval e uma incrível coincidência.

As mágicas – para muitos - cortinas do carnaval estavam prestes a se fechar. A terça-feira, último dia da folia, despedia-se dando espaço ao misto de euforia que causam os últimos acordes e a melancolia da quarta de cinzas. Em cima do camarote, chegou um momento em que Dudu não mais se governava, era totalmente submisso a um sujeito de apenas 8 anos, um tal de Johnnie Walker. Eu, bom irmão que sou, em minhas plenas faculdades mentais, ia no bar e lhe trazia água. Porém, a cada gole d’água, seguiam-se quatro de whisky, o que não ajudava muito na sua recuperação.

Após ficar inofensivamente chato com uma porcaria de um martelinho inflável, destes de propaganda que jogam do trio-elétrico e que ele insistia em golpear os presentes, resolvemos esperar o Voa Voa passar para irmos embora.

Descemos todos: eu, Dudu, Nadja, minha cunhada, Bia, minha sobrinha e um casal amigo. Abrindo caminho entre cambaleantes pierrôs e colombinas de fim de festa, ia eu dando direção à turma, sempre tratando de olhar para trás para conferir se não tinha ficado ninguém perdido no meio da confusão. Num desses momentos, me surpreendi com uma cena inusitada: vinha Dudu andando, um sorriso de canto de boca, olhos semicerrados, as pernas cruzando ao caminhar, um verdadeiro top model na passarela.
Em momentos assim, onde misturam-se multidão e álcool, pequenos percursos viram verdadeiras procissões. Mesmo a gente explicando que já estávamos chegando ao ponto de táxi, Dudu insistia em entrar num banheiro químico pra fazer xixi. Se você tem alguma curiosidade para conhecer o inferno, sugiro que entre num cubículo destes de terça para quarta de cinzas. A gente pediu, argumentou, implorou, mas não teve jeito: ele abriu a porta e sumiu no escuro daquela podridão.

Após alguns minutos, ficamos preocupados dele ter ficado off-line justo dentro do banheiro químico e eu acabei indo lá conferir. Nunca na minha vida desejei tanto ter o poder de mover objetos para poder abrir aquela porta sem colocar a mão na maçaneta. Ao puxar a porta, Dudu de costas para mim e de frente para o vaso - ou seja lá como se chama aquilo -, paralisado. Imagino que aquele cheiro (do qual, inclusive, jamais vou esquecer) tenha o deixado em choque. Apenas me respondeu sussurando:

- Já vou...

Aguardamos mais uns dois minutos, tempo suficiente para nos escorarmos na balaustrada que separa a avenida da praia, e eis que sai Dudu, trançando pernas e um sorriso no rosto, nem parecia que tinha saído daquela tristeza de lugar. Ah, o fantástico lado bom da amnésia alcoólica.

Chegamos ao ponto e lá, apenas um táxi. Heber e Sílvia, nosso casal amigo, vendo o estado de Dudu, gentilmente nos cedeu o veículo. Mas, considerando aquela sua última corrida do carnaval, o taxista se achou no direito de optar por passageiros que não morassem nos arredores, procurando assim por uma corrida mais longa. Ok, justo. Eu, Heber e Nadja tentávamos convencê-lo de nos levar enquanto Dudu, ao nosso lado, estático, parecia ouvir a conversa:

- Amigo, faça essa corrida, a gente precisa chegar em casa... – dizia um de nós ao taxista.

- O horto não é tão perto assim – completava outro.

- Pra que lugar do horto vocês vão? – perguntou o taxista.

- Rua Waldemar Falcão.

Não muito satisfeito, o taxista concordou e entrou no carro. Nesse momento, Dudu resolveu se manifestar, colocou a cabeça dentro da janela do carro e perguntou para o motorista:

- Peraí amigo, você tá indo pra onde?

- Horto... – respondeu o taxista já sem paciência.

Com uma cara de surpresa, disse Dudu:

- Porra, que coincidência. A gente também. – e entrou no táxi com a empolgação de quem tinha encontrado uma grande oportunidade.

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El fabuloso creme de choclo.

Olha, foi simplesmente fantástico esquiar em família no meio do ano passado. Eu até escrevi um post sobre esta viagem há tempos atrás. É, e também fiquei de escrever a continuação da história, eu sei, desculpem. Mas é aquela coisa, a gente vai lembrando de outras histórias e acaba correndo para escrever e não esquecer. Um dia escrevo a sequência, prometo.

Bom, o fato é que, viajando pela América Latina, há sempre uma tentação em acharmos que falamos espanhol. Como dizia um sujeito num fantástico comercial de TV, “hablar ‘erpañol’ es ‘ácil’... ‘hasta’ hablar con la boca abierta, sin cerra-la un só ‘momiento’”. Esse artifício idiomático tem um efeito colateral: não demora e você logo começa a babar.

Eu sou cara de pau, assumo, me arrisco num portunhol cheio de propriedade. Acabo entendendo e sendo entendido. Mas, quando não faço ideia de como é a palavra que quero dizer em espanhol, a pronuncio em português mesmo. Assim, corro menos riscos.

Já Dudu, não. Dudu simplesmente formulava frases completas em espanhol. Em certos momentos, era tamanha a sua segurança que eu chegava a acreditar que ele sabia o que estava dizendo. 

No nosso último dia em Santiago, resolvemos nos despedir da cidade numa churrascaria bacana de lá. Depois de explorarmos o cardápio, acabamos pedindo sugestões de pratos de carne ao garçom que, gentilmente, foi explicando um a um. Após escolher seu prato, Dudu resolveu arriscar um acompanhamento que não estava no cardápio:

- Por favor, yo quiero como “acompanhamiento” un “creme de mijo”.

- Señor, creo que no puedo traer una crema de mijo para usted. – respondeu o garçom, constrangido.

- Pedro, diga a ele que eu quero um creme de milho... – disse Dudu, como se eu tivesse vocabulário em espanhol para resolver a situação.

Entendendo a solicitação, o garçom corrigiu:

- Crema de choclo!

- No, gracias, “sobremesa” ahora no... quiero creme de mijo!

Nesse momento, lembrei que, em um dos dias no café da manhã, tinha ouvido algum garçom se referir a milho como choclo. Foi então que, em meio a uma crise de riso, eu levantei o polegar para o garçom e disse:

- Crema de choclo!

Irritado, Dudu dizia:

- Ô animal, eu não quero doce agora! Peça o maldito creme de milho!

Eu não conseguia parar de rir, apenas olhava para o garçom e dizia:

- Sí, choclo!

Após servir o creme de choclo a Dudu, espirituoso, o garçom esperou que ele provasse o prato e em seguida disparou:

- Entonces, señor... mejor que una crema de mijo, no?

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Jardim dos Namorados.

Ah, bons tempos aqueles em que não existia a SET, Transalvador, ou seja lá como se chama esse suposto órgão que só serve para atrapalhar ainda mais o trânsito caótico da minha cidade. Além do tráfego fluir bem melhor, a inexistência desses acéfalos me permitiu uma grande regalia: dirigir a partir dos quinze anos.

Tá bom, tá bom, eu sei que não é politicamente correto, mas eu dirigia melhor do que a grande maioria dos baianos (o que não é lá muito difícil) e, se eu não pegasse no volante precocemente, não teria essa história para contar a vocês.

O ano era 1994 e eu iria completar 16 anos. No colégio, começou a circular uma história de que o Jardim dos Namorados, um espaço meio sem utilidade na orla de Salvador, com cara de estacionamento amplo em frente ao mar, abrigava durante a noite uma grande quantidade de casais em seus carros economizando no motel.

Sabem como é: adolescentes e idosos só sabem o que é sexo na teoria. Aliás, retiro o que disse. Hoje, graças à falta de pulso dos pais e de tantas facilidades, a pouca vergonha nunca começou tão cedo e, graças ao Viagra, nunca terminou tão tarde. Bom, o fato é que na minha época as coisas não eram tão fáceis assim. Portanto, saber que o povo testava os amortecedores dos carros no Jardim dos Namorados atiçava a curiosidade da gente.

Naqueles tempos, o carro lá de casa era um Ômega Suprema. Para quem não chegou a conhecer, o modelo mais parecia um carro funerário. Era grande, feio, comprido e tinha uma mala que cabia uns cinco caixões. Eu era coligado dos porteiros do meu prédio e, de vez em quando, esperava minha mãe dormir e “pegava o carro emprestado”.

E todo mundo sabe que dirigir é um poder incrível para um aspirante a homem. A gente se sente capaz de qualquer coisa. Eu mesmo achava mágico chegar no colégio aos sábados de manhã para fazer prova no Ômega Suprema. E olha que o carro era um Frankstein: horrível e instável. Tão instável que uma vez entrei mais rápido do que devia numa curva, perdi o controle da direção e quase caí com ele no Dique do Tororó. Pelo menos já estava dentro do carro funerário.

Enfim, estávamos na sala de aula, numa rodinha de meninos, comentando dessa tal história esquisita de motel sobre rodas. Eis que surgiu o plano:

- E se a gente fosse lá conferir esse negócio de perto? – sugeriu Firpo, um gordinho baixinho, sujeito gente boa, amigo nosso.

- Como, Firpo? A gente chega lá andando, um bando de homens, para na frente dos carros e fica assistindo? – manifestou-se Juninho.

- Claro que não. Pedro não vive pegando o carro? A gente vai nele... – Firpo tratou de colocar o Ômega Suprema no bolo.

- Ok, Firpo... eu não tenho mulher, você não tem mulher, Juninho não tem mulher, Pedro não tem mulher. Eu não vou virar seu par só para assistir o rala e rola dos outros no meio da rua. – impaciente, respondeu Cabrote.

Firpo, sem se dar por vencido, insistia:

- Calma. Ouvi dizer que muitos casais prendem um jornal na janela do carro para ter mais privacidade. Como se fossem cortinas, sabe? É só a gente chegar lá cheio de folhas de jornal que ninguém vai saber que só tem homem dentro do carro.

A turma, que antes não estava dando muita bola para o que parecia ser mera maluquice de adolescente tarado, começou a levar a ideia de Firpo a sério.

- Que dia você consegue pegar o carro? – Juninho me perguntou.

- É mais provável que eu consiga no sábado – respondi.

- Ótimo. É o dia do nosso jogo de futebol. De lá, seguimos para o Jardim dos Namorados. A propósito, não esqueça de levar a bola, Firpo – disse Cabrote.

- Deixa comigo. Vou levar também os jornais.

O som estridente da sirene do colégio anunciava que mais uma cansativa manhã de aulas no Anchieta havia terminado. Com pesadas mochilas mal acomodadas nas costas, o bando se dispersou.

Chegou o sábado. Diante da expectativa do grande acontecimento de logo mais à noite, o baba seguiu ainda mais displicente do que o usual. Após algumas caneladas e lances que superariam qualquer “Bola Murcha”, seguimos para o Jardim dos Namorados. No carro, apenas eu, Juninho, Cabrote, Firpo e folhas e mais folhas de jornais.

Ao nos aproximarmos do lugar, ficamos impressionados com a quantidade de carros apontados para a praia, como se um monte de gente estivesse ali apreciando o negrume do mar à noite, ou quem sabe até a lua debruçada no horizonte. Mas, muito menos romântico que isso, o espaço não passava de “transódromo municipal”. Os carros pareciam ter vida própria: cada um balançava num ritmo diferente do outro. Como o nosso não iria balançar, fiquei com medo de desconfiarem de nós. Pensamos até em ficar pulando no banco do carro para disfarçar.

- Vai, coloca logo os jornais nas janelas! – ordenou Juninho.

Firpo separava rapidamente as folhas e, afoito, as entregava para nós. Cada um tratou de baixar o vidro da sua janela para, logo em seguida, subi-lo prendendo o jornal.

Encontrar uma vaga foi tão fácil quanto estacionar no shopping em véspera de natal. Quase a ponto de desistir, conseguimos parar o carro entre uma caminhonete e um Fiat 147 - sim, um proprietário de um Fiat 147 tinha o mesmo direito de se divertir que um dono de um 4X4. O Jardim dos Namorados era, antes de qualquer coisa, democrático.

Depois da tensão inicial e com o carro totalmente vedado por páginas policiais, crônicas políticas, colunas sociais, classificados e até notas de falecimento, nos sentimos eufóricos ao vermos que a nossa ideia estava dando certo. Uma tentativa de comemoração mais exaltada foi rapidamente reprimida diante do medo de sermos descobertos. No mínimo, iam achar que se tratava de uma animada suruba homossexual – e dentro de um carro, para completar.

- E agora, como fazemos para ver o que está acontecendo lá fora? – perguntou Cabrote.

- É só fazer um furo bem pequeno no jornal de sua janela e olhar, animal. – prático e gentil, respondeu Juninho.

Rasgando poucos milímetros do papel com as pontas das unhas, inaugurei o meu observatório. Ao meu lado, no banco do carona, com extremo cuidado, Juninho fez o mesmo. Para mim, descortinou-se a cena de amor – se é que era esse o real sentimento – do casal da caminhonete. Para Juninho, ficou a empolgação que fazia o interior do Fiat 147 parecer ainda menor.

Para nós era simplesmente inacreditável que a suposta insanidade de Firpo estivesse dando certo. Estávamos ali, os quatro, testemunhando a cópula dos outros sem que eles nem desconfiassem. Eu só imaginava a resenha que faríamos depois no colégio - que acabou nos dando uma fama de mentirosos que durou até o vestibular.

Mas, o fato é que estava saindo tudo certo: cada um em uma janela, cada um com seu show particular. Foi então que, de repente, a mulher da caminhonete foi parando de se movimentar em cima do sujeito, ao tempo que olhava para o nosso carro com um semblante que combinava curiosidade e preocupação.

- Pessoal, acho que descobriram a gente... – murmurei apreensivo.

- Calma, não tem como, tá tudo vedado. – respondeu Juninho.

- Junior, você não está entendendo. A mulher parou de transar e está olhando pra cá. – respondi.

Eis que, diante da tensão e do início de agitação causados pela possibilidade de termos sido desmascarados, eu e Juninho olhamos para trás e, surpresa: Firpo havia feito em seu jornal dois grandes círculos para enxergar a cena. Ou seja, ao invés dos pequenos furos que nós fizemos, ele recortou duas bolas imensas no lugar dos olhos, como se fosse uma máscara de carnaval. Só faltou colocar também o nariz e a boca. Por milésimos de segundo, imaginei o corta-clima que foi para a mulher olhar para nosso carro e ver, através de dois buracos descomunais num jornal, um par de olhos esbugalhados fitando ela.

A mulher deu um pinote de cima do cara e, protegendo com uma das mãos suas vergonhas, com a outra, apontou aflita para a janela de Firpo. Seu companheiro, que parecia visitar uma outra dimensão, voltou a si abruptamente como um hipnotizado que recebe um estalo no ouvido para sair do transe. Com o semblante de relaxamento dando lugar a uma cara de poucos amigos, o sujeito achou os olhos de Firpo que, insistente, não os tirava de dentro dos buracos enormes da folha de jornal.

Foi então que o caos se instaurou dentro do ômega suprema.

- Vai, liga o carro! Liga o carro! – gritava Cabrote.

O parceiro da mulher, nervoso, ensaiava uma saída de dentro da caminhonete. Para nossa sorte, suas calças à meia perna não permitiam tamanho movimento. Àquela altura, Juninho unia-se a Cabrote nos tapas em minhas costas e nos sucessivos gritos de “vai!”. Apenas Firpo continuava imóvel, catatônico, com os olhos colados na janela.

Movido pelo desespero, consegui ligar a chave. O carro, engrenado, deu um pulo pra frente e morreu. “Vai! Vai!”. Consegui pisar o pé na embreagem e o motor ligou. Engatei a ré às pressas e acelerei sem me dar ao luxo de ver se vinha algum carro atrás. Por sorte, não vinha. Ao deixarmos a vaga, tenho quase certeza de que Firpo, através do seu jornal, ainda conseguiu ver o sujeito se embolando com sua própria calça ao sair da caminhonete.

Quando eu lembro desta verdadeira odisséia que tivemos que passar para ver uma, digamos assim, manifestação sexual leve, me convenço de que a minha geração adolescente foi a última felizarda a ter que usar a criatividade para ter acesso a este fantástico mundo proibido. E tiveram períodos ainda piores. Como diz Tio Fulano, “na minha época, a gente se excitava vendo tornozelos. O resto do enredo tínhamos que criar todo na cabeça”. Hoje, esses meninos amarelos de computador já não exercitam mais a imaginação – apertam um simples botão e... puf! Pornografia. Sinto muito por eles: jamais vão ter a oportunidade de testemunhar um Firpo em estado pré-autista pelo simples fato de conseguir ver, ainda que de longe, um peito pela primeira vez.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

O homem mais rico do mundo.

Dona Nielsen é avó de Dan Tech e, desde pequeno, tenho o grande prazer de conviver com esta sábia senhora. Dona Nielsen sempre foi uma mulher bem à frente de seu tempo: na casa de seus oitenta anos, sua relação com a vida ainda é intensa e sua visão de mundo transcende em muito a barreira do material. Autora de orações poderosas que tocam o coração de quem as ouve, Dona Nielsen me ensinou uma grande lição ainda muito cedo.

Eu devia ter uns 10, talvez 11 anos. Era época de férias e nós, os meninos do Parque das Árvores, estávamos naquela clássica falta do que fazer do recesso escolar de verão. Foi então que Dona Nielsen apareceu no playground do prédio e nos fez um convite intrigante:

- Estou indo visitar o avô de Dan no hospital. Vocês querem ir comigo conhecer o homem mais rico do mundo?

Estranhei de súbito a pergunta, mas, como eu sabia que seu esposo estava internado no Sarah Kubitschek, um hospital que é referência mundial em reabilitação, imaginei que não seria tão absurdo o homem mais rico do mundo ter ido para lá se tratar. Quando me dei conta, minha curiosidade já havia me transportado para dentro do carro de Dona Nielsen junto com Dan.

No caminho para o hospital, minha cabeça era um poço de interrogações. Quem seria o tal homem mais rico do mundo? Bill Gates estaria internado no Sarah em Salvador, Bahia? Não devia ser, a televisão teria alardeado. Seria algum sheik árabe? Um cara desses provavelmente teria dinheiro para construir um Sarah particular dentro de casa. De vez em quando, pedia dicas a Dona Nielsen para tentar descobrir quem era o tal afortunado.

- Aguarde, você irá conhecer logo, logo. – respondia ela, pacientemente.

Entramos no hospital. A arquitetura diferente já me chamou atenção - eu nunca havia entrado no Sarah. Parecia de fato um lugar indicado para um homem tão rico estar, não lembrava um ambiente hospitalar comum. Lá dentro, o cheiro de éter aguçava ainda mais a minha curiosidade, ao tempo em que sentia uma profunda tristeza ao ver as macas indo de um lado a outro com pacientes paraplégicos, tetraplégicos e paralíticos cerebrais.

Andamos por um longo corredor até chegar a uma enorme varanda. Lá, dezenas de pacientes, jovens, idosos, crianças, alguns com respiradores artificiais presos ao corpo, outros com sonda para alimentação, uns movimentavam apenas a cabeça, poucos eram paralisados “apenas” nas pernas. Mas, apesar do meu coração ter apertado naquele instante, a cena não era de lamentos. Aquela era a hora do banho de sol dos pacientes, um momento alegre para aquelas pessoas que viviam tantas e tantas restrições. Muitos trocavam sorrisos entre si e suas faces estampavam um sincero agradecimento aos enfermeiros por aqueles minutos de bem-estar.

Puxando discretamente a barra da saia de Dona Nielsen, perguntei baixinho:

- Cadê o homem mais rico do mundo?

- Ainda não encontrou? – Dona Nielsen respondeu sem tirar os olhos dos pacientes.

- Não...

Dona Nielsen olhou para mim e respondeu serenamente:

- Pois o homem mais rico do mundo é você, meu filho.

Desde aquele dia até hoje, toda vez que a vida coloca uma pedra no meu caminho, eu procuro lembrar daquela manhã e das palavras cheias de sabedoria da avó de Dan. Quantas vezes nos queixamos por tão pouco? Quantas vezes somos tão intolerantes a um problema? Quantas vezes o mundo parece ruir diante de nós por coisas tão pequenas? A vida pode ser tão simples e, por isso mesmo, ser tão fantástica.

Hoje eu sei que sou o homem mais rico do mundo. E, diferente de um magnata capitalista, não me incomodo com a concorrência. Portanto, convido você também a se tornar a mulher e o homem mais ricos do mundo. Desejo de coração que este grande presente que é a vida também seja celebrado por você não só hoje, no dia em que nasce o Menino Salvador, mas todos os dias do ano que se inicia.

Feliz Natal, meus amigos.

terça-feira, novembro 10, 2009

Motel Safari: perfeito para quem está duro.

Alguém aí conhece Billy? Alguns de vocês provavelmente conhecem. Billy é um sujeito de primeira, aquele cara que todo mundo curte ter ao redor, coração grande, está sempre pronto para ajudar. Para mim e outros muitos, é um irmão por eleição.

Sob a ameaça de ser processado, eu tinha prometido a Billy que não ia contar essa história no blog. Há umas duas semanas, insisti tanto para que ele contasse o caso numa mesa de bar que acabei vencendo a parada. No dia seguinte, ele ficou transtornado e ameaçou cortar relações. Pois é, Billy The Kid, não consigo me segurar: já estou escrevendo sua história aqui. Nos vemos no tribunal.

Bom, Billy é hoje um empresário de sucesso. Junto com Misael, seu sócio, fundou e dirige a Norte – Ideias Planejadas, uma empresa de pesquisa e planejamento de comunicação que tem dado uma mexida no mercado. (Dei uma puxada de saco para ver se consigo um atenuante). Mas, por incrível que pareça, Billy já foi liso. Duro. Desfavorecido. Fugitivo de cigano. Negociador de juros do cartão C&A. Sem verba. Subsolo da pirâmide. Mais quebrado do que arroz de terceira.

Vamos à história.

Na época, nosso protagonista trabalhava em uma agência de Salvador no bairro de Ondina. Seu cargo: uma humilde cadeira na assistência de planejamento. Era o início da sua carreira na área, portanto, o salário não surpreendia. Apesar de muita empolgação, amor por seu ofício, garra e vontade de crescer, naquele momento, Billy era apenas mais um trabalhador brasileiro com quase nada no bolso e muita criatividade na cabeça.

E quando eu digo “quase nada”, acreditem: é “quase nada” mesmo. 23 reais para ser mais exato. Era fim de expediente e estava Billy na agência, quase desligando o computador, quando sobe a janela do MSN com a foto de uma figurinha repetida. A famosa marmita – assim eu chamaria, se fosse um cafajeste. Boas perspectivas para quem ia terminar um cansativo dia de meio de semana no zero a zero.

Papo vai, papo vem, marcaram no Caranguejo de Ondina. Confesso que programa mais romântico que esse eu não conheço. Desesperado, Billy saiu à caça de algum colega que pudesse lhe emprestar mais uns dois micos-leões-dourados ou quem sabe até uma onça. Frustração: todos já haviam saído. O único que ficou foi o segurança, mas este só tinha o vale-transporte de volta. Se tivesse também o de ida, Billy certamente o pediria emprestado.

Seguiu seu rumo, a pé, ele e seus trocados. Foi maquinando no caminho como faria para pagar a conta do bar e do leito redondo onde provavelmente encerraria sua noite. Chegou ao local e logo suou frio: sua companheira já o esperava com uma cerveja na mesa. Seria aquela a primeira garrafa? Teria ela pedido algo para comer? E se não houvesse jantado em casa? Naquele dia, Billy precisava tirar alguns coelhos da cartola.

Sentou-se. Ele se serviu da cerveja e notou que na garrafa sobrara, se muito, o suficiente para encher meio copo. Azar: o copo dela encontrava-se vazio.

- Garçom, outra – a voz sumia em meio ao pedido.

A conversa seguia, mas, nos porões da mente, Billy fazia contas: R$ 3,50 a cerveja. 3,50 de uma + 3,50 de outra = R$ 7,00. Restam 16 reais. Então, o que meu amigo mais temia, aconteceu: a garota anunciou estar com fome. Pediram – trilha romântica para marcar o momento – pititinga frita com farofa, R$ 8,50. Na carteira, agora, míseros R$ 7,50.

Billy já pensava numa forma de encerrar prematuramente aquela conta de bar quando ela, má intencionada que estava, finalizou a segunda cerveja com certa velocidade. Desta vez, a amiga colorida nem esperou pelo cavalheiro. Animada, ordenou:

- Garçom, por favor, mais uma.

Agora já não era mais prioridade fechar a conta. Era necessidade. O consumo chegava a preocupantes 19 reais. Billy, num impulso inconsciente e desesperado, levou a mão à cabeça quando lembrou dos 10% do garçom - são nos momentos de grande dificuldade que os homens mostram sua retidão.

Total da farra: R$ 20,90.

- Fulana, eu larguei um arquivo na agência renderizando, preciso voltar lá urgente – disse Billy enquanto lançava repetitivos sinais para o garçom trazer a conta.

Saldo quitado. No bolso, uma nota de 2 reais e uma moeda de 10 centavos.

Foram até a agência. A pé. Como desculpa para a andança, ele havia dito que a lua – minguante, aquele dia – estava bonita demais, que era preciso apreciá-la. Chegou lá, entrou na agência, fingiu que fez alguma coisa e saiu novamente. A bebida inflamara a sua libido e Billy só conseguia pensar em uma coisa: como resolver a questão com 2 reais e 10 centavos na carteira?

A pé mais uma vez, foram para a praia de Ondina. Como morador do bairro, Billy conhecia algumas barracas de coco que, diante de necessidades como esta, serviam como ninho de amor aos desprovidos ou agoniados - Billy, naquela noite, era os dois. Chegando ao local, o clima esquentou ainda mais: estica daqui, puxa de lá e, de repente, a permanência deles ficou inviável em local público.

- Vamos pra algum lugar mais reservado? – perguntou Billy.

Com o consentimento da garota (que ainda parecia ter um pingo de juízo), partiram os dois para o ponto de ônibus. Sim, para o ponto de ônibus. Abro um parêntese para confessar a vocês que, se fosse eu, logo no início dessa odisséia, já teria desistido. Haja vontade. Mas, Billy é brasileiro e não desiste nunca.

Era início de madrugada e os dois embaixo da marquise, sentados no banco, um ao lado do outro, esperando a condução. Diferente da praia, agora estavam comportados. O ônibus chegou. Os dois entraram e, por conta das circunstâncias, Billy esqueceu por alguns instantes o cavalheirismo e passou na catraca empunhando apenas uma nota de 2 reais. Afinal, em seu bolso agora repousavam apenas 10 centavos. A sorte é que a garota tinha SmartCard e bancou sua passagem.

Pois se o dinheiro não estava dando para a passagem de ônibus, quanto mais para a conta do motel. Foi aí que, como se nada mais de negativo pudesse acontecer, o ônibus parou. “Não é possível, só falta ter quebrado” – pensou nosso herói. Mas, era algo ainda pior: uma blitz.

- Os homens pra fora, as mulheres permanecem sentadas – bradou um desses educados policiais ao subir no coletivo.

Junto com mais meia dúzia de gatos pingados, desceu Billy. Foi convidado a encostar as duas mãos na lateral do veículo e separar as pernas. Foi revistado, tomou o baculejo e qual não foi a surpresa do policial quando verificou que os únicos pertences do meu amigo eram um pente, um celular e 10 centavos. O lado bom é que, diante de tanta fartura, ninguém levantou suspeitas de que ele fosse um ladrão. Mas, o que eu achei mais bonito de tudo foi que Billy, após tantas adversidades, ainda encontrou dentro de si dignidade e romantismo para levantar os olhos para a janela do ônibus e, após um sorriso sublime, soltar um beijo para a moça. Ele com os braços para cima e as pernas abertas.

Viu? Pensem bem antes de reclamar da vida.

De volta ao ônibus, os dois seguiram abraçados, trocando inocentes carícias, até um ponto qualquer do Rio Vermelho. Saltaram e seguiram na direção do Motel Safári, uma espelunca de três andares, um motel vertical, emoldurado por um neon azul, bem em frente ao acarajé da Dinha. Ela, coberta de romantismo, feliz com seu príncipe encantado; ele, com seus 10 centavos no bolso, porém, pensando em deixar para resolver este problema no dia seguinte.

Pegaram um quarto. Amaram-se numa confortável cama de 10 parcelas de R$ 19,90 da Insinuante. No dia seguinte, bem cedo, Billy acordou e noticiou a sua falta de verba. Perguntou se ela tinha cartão e se ele poderia fazer um depósito na sua conta naquela semana. Sem problema. Então, despediram-se. Ela pegou um ônibus e ele foi andando para casa embaixo do sol escaldante. Do Rio Vermelho até a Ondina.

Sexta-feira passada, Billy me liga às 4:30 de uma tarde típica de verão baiano:

- Peter, estou aqui no restaurante do Yacht. Venha pra cá.

Respondi:

- Tá doido? Tô trabalhando. E você, por que não está fazendo o mesmo?

Billy, com a voz arrastada, num tom debochado, esclareceu:

- Empresário que é empresário não trabalha sexta à tarde...

Um dia ainda sigo os passos de meu amigo Billy. Refiro-me à folga numa sexta de sol; não a uma extensa noite no Motel Safári com 10 centavos no bolso.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Prematura morte de um nacionalista.

Eu não sei vocês, mas eu cansei. Cansei de vestir verde e amarelo na copa, cansei de acordar cedo no domingo pra tentar ver uma bandeira brasileira flamulando no alto de um pódio, cansei de me emocionar ouvindo o hino nacional. Cansei de pensar orgulhoso que somos um povo privilegiado, seja na geografia, na música, na alegria, na criatividade, na tão celebrada diversidade que encanta o mundo. Cansei de tentar me enganar com essa história mofada de país do futuro.

Não somos, não.

Primeiro que, para sermos um país de fato, precisaríamos construí-lo com certas qualidades desconhecidas por aqueles que capitaneiam nosso Estado. Definitivamente, aqui não se constrói, mas, diariamente, se dilapida. A célebre frase de Kennedy - “não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país” – só é conhecida aqui do avesso. Talvez nossos nobres Kennedys, todos os dias, acordem pensando: “o que é que eu posso tirar daqui hoje?”. Somos a mesma paradisíaca colônia de exploração de 1500. Só que, desta vez, ironicamente, explorados por nós mesmos.

Quem foi abençoado por ter nascido nesta terra adorada, rapidamente encontra o seu propósito de vida: pagar impostos. Nascemos, vivemos e morremos sendo açoitados por uma carga de impostos que luta incessantemente contra o sucesso pessoal de cada brasileiro. Quando eu decidi abrir uma agência de publicidade, ninguém me avisou que, compulsoriamente, eu teria um sócio: o governo. Foi só depois do primeiro DARF que eu comecei a desconfiar que este meu “parceiro” levava a maior parte do que faturávamos.

Eu, você e mais alguns milhões de ingênuos alimentamos diariamente a fornalha desta grande locomotiva que deveria andar em ritmo de trem-bala. Ralamos, pagamos nossos impostos e pensamos: “tudo bem, estou sendo penalizado – e esta é a palavra – com tanto a contribuir, mas estou ajudando a construir um país”. Então, vêm as ratazanas de Brasília e, insaciáveis, engolem com voracidade o fruto do nosso suor. E, disso, eu cansei de verdade.

Eu cansei de bater no peito por conta desse delirante e injustificado orgulho de ser brasileiro. Qual seria mesmo o motivo para isso? Nossas belezas naturais? As mulatas? Ah, talvez seja porque sabemos tocar pandeiro e somos craques de bola. Pois eu, sem pestanejar, trocaria todas as 5 estrelas que carregamos no lado esquerdo do padrão verde e amarelo por um punhado de homens honrados, políticos que fossem compromissados com o bem comum e não com a sua eterna manutenção no poder.

Hoje eu sei por que nosso país não tem tufões, furacões, terremotos, tissunamis e afins: porque Deus é justo. Imagine o furor que as empreiteiras, congressistas, prefeitos e governadores não ficariam toda vez que um destes desastres naturais acontecesse e o país precisasse de reconstrução. A propósito, será que alguém tem algum palpite para explicar por que o nosso projeto para as Olimpíadas de 2016 foi o mais caro das quatro nações candidatas?

Pois é. Tem gente que insiste em dizer que somos um país pobre. Nós temos petróleo que não acaba mais e continuamos descobrindo novos, gigantescos e caudalosos poços. Somos quase um continente inteiro de terras férteis onde se plantando, tudo dá. Em nosso subsolo, temos ouro, diamantes, minério de ferro, pedras semi-preciosas e um sem-número de outras riquezas. Temos a Amazônia. A Amazônia! Vale lembrar que isso tudo não é mérito nosso, é bênção, veio no pacote. São riquezas que o mundo inteiro inveja.

Agora, junte toda esta fartura que a terra nos dá com os impostos que 180 milhões de brasileiros pagam todos os dias. Vamos aos resultados desta fabulosa soma de recursos: insuficientes hospitais públicos sem médicos, sem equipamentos, sem remédios - verdadeiros corredores da morte. Escolas públicas sucateadas, sem merenda escolar para os alunos, sem ensino de qualidade, onde professores mal recebem salário, que dirá qualificação profissional. Estradas e ruas completamente esburacadas, onde apenas um centímetro de espessura de asfalto repousa frágil na terra porque o resto dele foi parar no bolso de algum político que assinou a autorização da obra. Milhões de bairros em milhares de cidades brasileiras com esgoto a céu aberto. Cultura e lazer? Assistência social? Bom, é melhor parar por aqui para que a vergonha, ao invés de ser colossal, seja apenas gigantesca.

Vivemos o triste paradoxo de sermos, ao mesmo tempo, incrivelmente ricos e lamentavelmente paupérrimos.

Cansei de, como povo, ser apenas o meio e não o fim. Desde sempre e até hoje, somos só uma ponte para que os parasitas se instalem nas entranhas dos cofres públicos e de lá não saiam mais. Assim como também cansei de financiar o congresso nacional e ele funcionar apenas como um balcão de negócios de quinta categoria onde mercam-se cargos e benesses pessoais. São milhões e milhões de reais por ano para que estes senhores mantenham-se em seus gabinetes com regalias monárquicas e, além de não legislar em prol do país e sua gente, ainda emperram a máquina, só votando a favor de alguma lei ou projeto caso ganhem algo em troca. (O “algo” pode ser preenchido com o mais largo espectro de coisas).

Eu simplesmente cansei de ver o meu dinheiro tratado como se ele não tivesse dono. Ele tem.

A grana que um homem público passou a mão é um trabalhador, pai de família, contribuinte, que morreu na fila de um hospital porque lá não tinha médico para atendê-lo. O cargo que um senador dá ao namorado de sua neta é o presente de Natal que uma mãe não conseguiu dar a seu filho porque, mês a mês, estava financiando a boa vida de um vagabundo. O suado e sagrado imposto de uma pequena empresa que foi mais uma vez profanado é, simplesmente, mais um jovem brasileiro semi-analfabeto que sai formado da escola pública sem conhecimento, sem perspectiva.

Onde está a beleza de ser brasileiro? Cadê a poesia?

Se você está disposto a procurar, boa sorte. Eu cansei, joguei a toalha. Portanto, fica aqui o registro: eu, Pedro Andrade Valente, RG 05744756-05, um ex-brasileiro, procuro uma pátria sem mestre-sala nem porta-bandeira, sem tamborim, talvez até sem praia, provavelmente sem mata atlântica virgem, um país ruim de bola, mas que, em alguma língua não tão bonita quanto a nossa, dê sentido a duas palavras que, retumbantes, ecoam em minha cabeça: ordem e progresso.

Perdoem-me a falta de humor. Eu queria escrever algo engraçado hoje. Juro que tentei. Mas, há algum tempo, a maior piada com que tenho me deparado todos os dias é, infelizmente, o meu país.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Conte comigo para soprar velinhas, cisco no olho, ferida com merthiolate. Só não me peça para soprar bafômetro.

Desculpem. Eu sei que a próxima história deveria ser o segundo capítulo da viagem ao Chile, mas preciso contar algo que aconteceu comigo há algumas semanas antes que eu esqueça de alguns detalhes. Até porque, um episódio como esse, tem mais é que ser esquecido.

Era dia de Bahia Recall, o maior prêmio da propaganda baiana. A Boanova era finalista pelo terceiro ano consecutivo na categoria rádio. As duas peças anteriores bateram na trave e não entraram. Dessa vez, confesso que estava confiante. Resultado: não levamos o caneco. Vá lá, somos a única agência de pequeno porte que tem estado sempre entre os finalistas, mas não deixei de ficar frustrado. E ainda: esse foi o primeiro ano que, após o prêmio, eles não ofereceram uma festinha. Um absurdo.

Após sairmos de lá de mãos vazias, fomos todos para um barzinho de propaganda que tem aqui, o 30 Segundos. Chegando ao lugar, cercado de muitos amigos do mercado – sem dúvida o maior prêmio que a propaganda já me deu até hoje -, resolvi beber um pouco (um pouco de eufemismo não faz mal a ninguém). Whisky com Red Bull. Mas manerei no energético: apenas o suficiente para me manter acordado sem dar parada cardíaca.

Depois de algumas doses, lembrei da pauta de criação e dos prazos estourados que me esperavam no dia seguinte - lampejo suficiente para me fazer voltar pra casa. Me despedi do pessoal e fui embora.

No carro, ia eu bem devagar, atentamente mirando as linhas que delimitavam o meio da pista, bêbado prudente, na velocidade que meus reflexos permitiam. Após uma curva na avenida ACM, eis que me vejo no clássico corredor de cones de uma blitz. Terça-feira! O que esses caras querem numa madrugada de terça-feira? – me perguntei. Enquanto ia passando lentamente pelos cones, pensei em parar o carro no meio da rua, passar pro banco do carona e, quando algum policial chegasse, eu diria que o motorista havia fugido, me largando lá. Acabei encarando a blitz.

Ao chegar no recuo da rua onde os agentes da SET estavam instalados, já havia um deles no meio da pista fazendo sinal para que eu encostasse. A descarga de adrenalina rapidamente tratou de cortar um pouco o efeito do álcool. Parei o carro, abri o vidro. O agente falou com aquele tom de voz característico de “otoridade”:

- Documentos do carro e habilitação.

Já meio puto por imaginar que ao invés do prêmio eu havia ganhado uma multa de mil reais, também fiz questão de não ser simpático com o sujeito e tratei de procurar os documentos. Pior é que eu procurava, procurava e não encontrava. Meus movimentos eram meio lentos e eu deixava as coisas caírem das minhas mãos no assoalho do carro. A verdade é que nem precisava de teste do bafômetro.

Depois de uns 5 minutos procurando o documento com o cara ao meu lado aguardando, encontrei o bendito papel. Entreguei ele junto com a habilitação. O agente deu aquela clássica examinada de expert em papéis cheios de números, deixando no ar aquele silêncio que eles devem imaginar que dão o maior medo na gente.

- O senhor fez uso de alguma substância alcoólica? – ele perguntou.

- Se eu bebi? – aproveitei pra tirar um sarro da erudita linguagem policial.

- Positivo.

- Um copo. – omiti alguns mililitros.

- Por favor, sopre aqui este bafômetro. – disse o agente enquanto retirava um negócio parecido com uma língua de sogra de dentro de um saquinho.

Minha mente de alcoolizado, por algum motivo, concluiu que aquilo era imperativo demais, um certo abuso de poder. Resmunguei chateado:

- Não vou soprar nada não.

- Ah, o senhor não vai soprar? – perguntou, enfático, a autoridade máxima daquele metro quadrado de avenida de Salvador.

- Não.

- Então o senhor se recusa? – o agente insistiu.

- Me recuso.

- Neste caso, a multa pode chegar a 950 reais. – ele me olhou com uma cara que, salvo engano que a bebida pode ter me gerado, poderia interpretar como: “que tal pagar agora com desconto?”.

Devolvi a ele um olhar com ranger de dentes de “não deixo em sua mão nem um centavo”. Afirmei:

- É a lei...

- Por favor, me acompanhe.

Fui parar numa mesa branca de plástico, parecendo mesa de boteco, onde um segundo agente preenchia fichas de outros supostos infratores da lei. Se eu estivesse de bom humor, levantaria o braço e chamaria um garçom. Mas, eu só pensava nos mil reais que eu estava jogando fora naquele fim de madrugada. Calado estava, calado fiquei. Ainda ocupado com devaneios e lamentações, fui surpreendido ao ver como o trabalho desses caras é divertido.

Primeiro, uma senhora foi parada pelo mesmo sujeito que me parou. Eram umas 3:30 da manhã e ela estava com um vestido de festa. Não havia mais sinal algum do belo penteado que aquela mulher devia ter feito no salão - a maioria dos fios apontava o céu. Imaginei o terror que aquela tiazona tocou na pista de dança.

- Documentos, por favor. – disse o algoz dos alcoolizados.

A mulher, prontamente saiu do carro, deu uma cambaleada e, enquanto seu carro seguia em frente por falta de freio de mão, foi logo falando:

- Meu filho, eu estava num velório! – disse a senhora enquanto alguns policiais da guarda municipal corriam atrás do seu veículo.

- A senhora fez uso de alguma substância alcoólica?

- Não, meu filho, eu estava no cemitério dando apoio a uma família que...

O agente, provavelmente bastante acostumado com as desculpas esfarrapadas que ouve todas as noites, interrompeu a mulher:

- Por favor, sopre aqui este bafômetro.

- Soprar aí? – perguntou, receosa, a anciã.

- Sim, senhora.

- Tá bom... – após uma pequena pausa de insegurança, a mulher completou – aliás, não, obrigado.

“Obrigado”. Acho que ela imaginou que estavam oferecendo a ela um drink. Depois de um “siga-me, por favor” do agente, a senhora juntou-se a mim na mesa branca. Mesmo com minha cara-de-acabei-de-perder-mil-contos nada convidativa, a tia resolveu puxar papo comigo. Inclinando-se em minha direção, sussurrou ela:

- Você bebeu, meu filho?

- Um copo.

Com um sorriso, misto de orgulho e ingenuidade, a senhora me confidenciou:

- Eu bebi mais...

Quase pergunto quem era o pobre coitado cuja morte ela estava comemorando. Continuei calado. Nisso, mais um carro é parado. Dessa vez, uma jovem. Suas roupas também denunciavam que a sua procedência era festiva. Girei o corpo na cadeira para poder assistir a mais um show de mentiras. Mas, a reação da moçoila foi inesperada.

- A senhora consumiu álcool?

- Consumi. – respondeu a menina, rápida e sincera.

- Então, por favor, sopre aqui.

- Meu amigo, a esta altura eu não acerto mais soprar, não... só consigo chupar.

A velha olhou pra mim como quem diz: “cada um suborna com a sua moeda”. A menina saiu do carro e a mesa branca ganhou mais um integrante. Diante de nós, a garota reclamava revoltada, falava alto, gesticulava, dizia que mil reais era um roubo, que aquilo tudo era um assalto. Comecei a torcer pra ela ser presa. Afinal, a mesa já estava ficando apertada e tudo o que a gente não precisava era desse tipo de bêbado que gosta de tumultuar. Os bêbados ali presentes, até então, eram do bem.

Nesse meio tempo, chegou um rapaz pra lá de Bagdá que mais parecia Tarso, o garoto esquizofrênico da novela. Em pé, diante da mesa branca, ele repetia sem parar:

- Eu tô sem habilitação, não vou mentir... não vou mentir que eu tô sem habilitação...

Demonstrando impaciência, o agente que preenchia as fichas apenas levantou lentamente os olhos para ele. O rapaz continuava a atropelar palavras:

- Eu moro em São Paulo... eu sou daqui, mas moro em São Paulo... minha habilitação ficou lá.

Depois de um demorado suspiro, sinônimo de cansaço, o agente perguntou com certa indignação:

- O senhor se nega a soprar o bafômetro e ainda dirige sem habilitação?

- Eu não vou mentir pro senhor, eu tô sem habilitação... eu tô sem habilitação, não vou mentir...

Que bom que ele não mentiu. Só não entendi até agora como é que o sujeito pretendia mentir diante do fato de não estar com a habilitação. Será que ele achava possível falsificar uma ali, no meio da blitz? Enfim.

Tarso esquizo ainda ruminava palavras quando mais uma bêbada chegou. Também recusou-se a soprar o dito cujo e foi parar na mesa. Ali, eu assisti de camarote como o álcool pode ser seu aliado até mesmo numa blitz de lei seca. Enquanto eu estava emburrado, a velha, muda, a menina, revoltada e o rapaz, tan-tan do juízo, a nova integrante da turma chegou com aquele astral de quem tomou umas a mais.

- Moço, como é seu nome?? – perguntava a garota ao agente, num movimento de corpo que sugeria uma dança.

[silêncio]

- Moço, me diz, vai, qual seu nome? – ela insistia com um simpático sorriso no rosto.

- Agente Ferreira. – balbuciou o homem.

- Mentira! Ferreira? É o sobrenome de minha melhor amiga! Se for gente boa que nem ela... ah, moço, já gostei de você! – e, inacreditavelmente, deu um abraço no carinha.

Os outros sujeitos da SET riram e o sisudo agente Ferreira desanuviou o semblante.

- Sargento Ferreira, trabalhar a essa hora da madrugada é horrível, né?... Tenente Ferreira, jure que você não vai me multar... – enquanto fazia graça, a garota espertamente ia aumentando a patente do cara.

- Capitão Ferreira, se eu fugir com meu carro agora, você finge que não vê?

Enquanto todo mundo ria, inclusive o agente Ferreira, eu notava que ninguém fichava a garota na tal mesa branca. Só via a minha ficha, a da senhora, a da revoltada e a de Tarso sendo preenchidas.

- Major Ferreira, não me dê multa não! Eu tô querendo casar e preciso economizar dinheiro. Só não achei o noivo ainda...

Parecia stand up comedy no meio da rua às 4 da matina.

- ... e olha que nessa festa de hoje eu procurei, viu!

Maldita, pensei. Mas, também, não ia pegar bem eu abraçando o agente Ferreira naquele fim de madrugada.

- Coronel Ferreira, você me consegue uma folha de papel e caneta? – perguntou a candidata a comediante.

Com o que havia pedido em mãos, a garota começou a escrever e a ler sua obra em voz alta:

- Pro-me-to nun-ca mais be-ber e di-ri-gir. Pro-me-to nun-ca mais be-ber e di-ri-gir. Pro-me-to nun-ca mais be-ber e di-ri-gir. Se eu escrever mil vezes essa frase aqui no papel, você me libera da multa, General Ferreira?

Após algum tempo, para me tirar dali, chegou Livinha, minha irmã. Veio sorrateiramente por trás de mim e cochichou:

- Tenho 100 dólares aqui na carteira. Quer tentar?

Daria uns 5 dólares pra cada agente. Mas, pelo que eu percebi, a moeda da noite não era cifrada. Agradeci a oferta e já ia perguntar a Livinha se ela sabia sapatear, fazer mímica ou algum número de mágica. Só que, naquele fatídico resquício de noite, junto com minha habilitação, meu humor também tinha ido para as cucuias.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Viagem ao Chile – capítulo I: a primeira diarréia da história que deixou alguém nas nuvens.

Recentemente, passei uma semana fantástica no Chile. Fui com meu irmão, Nadja, a mulher dele, e meus sobrinhos. Nosso destino na terra de Pinochet era Portillo, um lugar inóspito com um hotel-estação de esqui no meio dos Andes. Uma semana de muita neve, diversão em família e algumas histórias interessantes.

Bom, ainda em solo baiano e em tempos de amendoins e barrinhas de cereais a bordo, resolvemos almoçar no aeroporto antes do embarque para São Paulo. No meio daquela confusão de “eu quero Bob´s”, “eu quero Subway” e sucessivas olhadas no relógio, sentamos todos para comer. Diante de um cheeseburger duplo brilhando de gordura e batatas fritas suando óleo saturado, lembrei de uma fatídica história que vivi dentro de um avião e resolvi compartilhá-la com os presentes:

- Já contei pra vocês o perrengue que eu passei uma vez com dor de barriga no avião?

Disseram que não e eu continuei. Como vocês também não devem ter ouvido, contarei aqui. Qualquer semelhança com o texto apócrifo de Luis Fernando Veríssimo é mera coincidência.

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Bom, a história é mais ou menos assim: eu estava indo para São Paulo. O vôo era umas 19 horas e eu estava completamente atrasado, preso no trânsito caótico da Avenida Paralela. A certeza de que iria perder o avião resultou numa certa descarga de adrenalina. E creio que foi ela que acabou provocando o piriri.

Quando eu cheguei na fila do check-in, começou, digamos assim, o desconforto intestinal. Mas eu estava atrasado demais, preocupado em perder o avião e acabei subestimando aquele que parecia ser um parto prematuro. Respirei fundo e tratei de despachar minha bagagem, ainda que a vontade fosse de despachar outra coisa. A mulher do guichê me deu um conselho: “corra”. Eu não sabia se ria ou pedia a ela uma fralda.

Corri. Se bem que não sei se posso chamar aquilo de corrida. Passos rápidos e curtos, pernas juntas, o corpo todo contraído. Quem viu aquela cena e o meu semblante de extrema concentração, no mínimo deve ter achado que eu era um ex-paralítico dando seus primeiros passos. Nunca havia percebido como o corredor que leva aos portões de embarque do nosso aeroporto era tão longo.

Quando eu achei que não ia conseguir segurar o tranco e sem a perspectiva de um banheiro próximo - ainda que ele me custasse o embarque -, eis que o milagre do intervalo entre as contrações aliviou meu calvário. Essa trégua que as tripas em guerra costumam dar é, sem dúvida, coisa de Deus. É como se Ele dissesse: “Filho Meu, eis alguns sagrados segundos para que procurai a dignidade de um vaso sanitário”. Pude descolar as pernas uma da outra e corri sem medo. Em pé, a aeromoça me aguardava para fechar a porta do avião. Ao entrar na aeronave, os outros passageiros, já sentados e de cintos afivelados, me fuzilavam com os olhos. Pensei que podia ser pior: eu podia ter enfrentado essa situação com a cueca condenada.

Mal sentei na cadeira e o avião começou a taxiar na pista. Eu me sentia bem, sabia que logo após a decolagem poderia ir ao banheiro e voltaria a ser outra vez um homem feliz. Ainda me regozijava deste pensamento quando uma terrível pontada na barriga interrompeu a paz. A coisa foi tão violenta que dei graças a Deus por ainda não ter colocado o cinto. Levantei e saí como um louco pelo corredor em direção ao banheiro. Segurando a máscara de oxigênio, a aeromoça interrompeu as instruções de segurança e disse:

- Senhor, por favor, volte para o seu lugar!

Driblei ela e respondi sem olhar para trás:

- Não dá.

Tranquei a porta. Agora era eu, o cubículo e aquele vaso sanitário estranho. O avião continuava a andar lentamente. Imaginei: “ainda tem pista. Eu já estou quase me vendo livre de todo o mal que me aflige e poderei voltar pro meu lugar antes de decolarmos”. Tal qual um rei no seu trono, ouvi o piloto no alto-falante:

- Tripulação: portas em automático.

“Ok, comandante. Eu não estava pensando em fugir do avião mesmo. Vai dar tempo, vai dar. Ê pista longa da peste...”, comemorei. Quando imaginei que a torneira havia fechado, um calafrio anunciou: a dor de barriga não tinha chegado ao fim. Relaxei e deixei a natureza agir. Até diarréia obedece seu ciclo, há de se respeitar.

- Tripulação: preparar para a decolagem. – o piloto me provou que a pista não era tão longa quanto eu pensava.

O barulho do motor foi aumentando e o avião começou a ganhar velocidade. A fuselagem chacoalhava toda. As luzes do banheiro piscavam, um monte de barulhos estranhos não ligados ao meu evento fisiológico tomavam conta do minúsculo ambiente. Me segurei nas paredes, a tampa do vaso chicoteava minhas costas. E, pra piorar a situação, eu não conseguia terminar o trabalho.

Foi então que vivi uma sensação inusitada: o avião decolou comigo em pleno ato. O vaso inclinou pro lado, eu inclinei junto, precisei de mais força contra a parede para conseguir me manter sentado. Me perguntei se eu havia feito algo de errado naqueles tempos - aquilo só podia ser castigo. Descobri que a parte mais frágil de uma aeronave é o banheiro e que a gente deve sempre respeitar quando as luzes de afivelar os cintos estiverem acesas.

Como o balanço só aumentava, cheguei a cogitar a hipótese do avião estar com algum problema. Realmente, só faltava aquele negócio cair comigo no banheiro. Imaginei a grande interrogação que os peritos teriam pela frente ao encontrar o corpo de um passageiro com a calça arriada. Alguém lançaria uma piada de mau gosto: “esse quando viu que ia morrer se cagou todo”.

O fax foi passado. A inclinação do vaso diminuiu. A turbulência melhorou. O avião não caiu. Não sei por que, mas, ao fim do processo, senti uma ponta de orgulho de mim mesmo. Talvez eu tenha sido um pioneiro. Jamais ouvi falar de alguém que tenha feito isso antes. Abandonei aquele casulo e voltei triunfante ao meu assento. O avião ainda estava em processo de subida e era como se eu estivesse descendo uma ladeira no corredor. Tomei outra bronca da aeromoça que fez questão de mostrar o aviso de cintos afivelados aceso. Sugeri a ela que a companhia instalasse cintos de segurança nos vasos ou então, junto com os saquinhos de vômito, distribuíssem também penicos descartáveis.

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História contada e diante de tantas lembranças sobre coisas que eu não gostaria de passar novamente, não tive coragem de terminar o sanduíche do Bob´s, muito menos a batata frita preparada com o óleo que presumo estar sendo usado desde que o 14 Bis inaugurou a navegação nos céus.

Nosso vôo foi anunciado pelo alto-falante e partimos para o embarque. O avião estava lotado, não havia um assento vago sequer. Acomodamos as bagagens de mão e sentamos. Algum tempo depois, vimos a aeromoça olhando para um lugar vazio logo na frente da aeronave. Ela perguntou em voz alta:

- Tem alguém aqui?

Bia, minha sobrinha, levantou da cadeira e gritou:

- Meu pai!

Um homem que estava no assento ao lado do de meu irmão falou:

- Eu o vi andando em direção à porta do avião falando no celular. Acho que ele saiu.

Bia gritou assustada para a aeromoça:

- Meu pai tá lá fora!

Quando a aeromoça foi andando em direção ao finger, eis que Dudu abre a porta do banheiro e surge diante de todos que, àquela altura, acompanhavam apreensivos o desfecho da história do cara que teria saído do avião para falar no celular. Todos os olhares se voltaram então para meu irmão, sem graça, saindo de dentro do reservado. Para quebrar aquele clima tenso, puxei uma sonora salva de palmas. Meus sobrinhos me acompanharam e alguns gaiatos também.

Completamente ruborizado, ele tratou de sentar rápido no seu assento. Desembarcando em São Paulo, ele virou pra mim e revelou:

- Acho que aquela sua história mexeu com meu intestino...

* O objetivo era escrever as melhores histórias da viagem em apenas um post. Porém, acho que não sou um sujeito dos mais objetivos. Portanto, dividirei os casos em capítulos. Nos vemos no próximo.

domingo, agosto 02, 2009

Good luck, Mr Gorsky.

Sinceramente, não acredito que o homem pisou na lua. Não, não é absurda essa minha conclusão. Não sou – com o perdão do trocadilho – um lunático. Pense comigo. Em plena guerra fria, duas potências lutavam para ver quem é que mandava no mundo: União Soviética e Estados Unidos. Detentores de uma quantidade de armas nucleares acima do razoável, eles simplesmente não podiam se enfrentar belicamente senão o mundo acabava. Então, os dois países disputavam a supremacia mundial no esporte, nas artes e, sobretudo, na ciência.

A corrida espacial tornou-se obsessão destes arquiinimigos. Primeiro, trabalharam duro pra ver quem colocava o primeiro satélite artificial na órbita da Terra. Ponto para os soviéticos que lançaram o Sputnik. O próximo desafio era ver quem colocava o primeiro animal de estrutura complexa no espaço. 2 x 0 para os soviéticos que fizeram Laika entrar para a história, ainda que a pobre cadela só tenha ganhado a passagem de ida. Na ordem da mega-gincana que esses caras resolveram disputar, o passo seguinte era colocar o primeiro homem no espaço. Adivinha quem ganhou? Os soviéticos fizeram Yuri Gagarin dar um giro completo em torno de nosso planeta e ainda voltar pra contar que “a Terra é azul”.

Os americanos não paravam de levar chumbo dos soviéticos. Os tais comunistas estavam tomando conta do espaço e deixando os yankees lá embaixo. Literalmente. Então, os caras que hoje vivem correndo atrás dos terroristas, tinham que correr atrás do prejuízo. Precisavam de um feito espetacular, algo realmente fabuloso que pusesse fim à disputa e que derrotasse de vez a União Soviética. Sobrou pra lua.

Agora, diz uma coisa: você acredita mesmo que em 1969, há exatos 40 anos, quando os computadores ainda eram pré-históricos, o homem foi capaz de chegar na lua, fazer um complexo pouso em sua superfície, andar em sono lunar, fincar bandeira e depois ainda conseguir decolar de lá e voltar são e salvo pra Terra? Fala sério, claro que isso não aconteceu! Outro dia li que qualquer calculadora dessas que o povo vende em sinaleira é duas vezes mais potente que o computador de bordo da Apolo 11.

Fraude. Foi tudo uma fraude que os espertinhos dos americanos habilmente montaram para se safar dessa dispendiosa disputa que estava quase comprometendo a economia do país e mesmo assim não conseguiam arrancar uma vitória sequer dos russos. Cadê essa tal bandeira que os caras largaram lá? Ninguém nunca viu.

Enfim. Existe uma teoria (www.afraudedoseculo.com.br) que afirma que a Apollo 11 apenas deu algumas voltas em torno da Terra para enganar a galera e depois entrou de novo na atmosfera. Todo o resto foi produzido em estúdios de cinema e dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick. Esse foi o último capítulo da corrida espacial e consolidou os Estados Unidos como grande potência científica mundial, lugar que ocupa até hoje. A armação do Presidente Nixon faz todo o sentido quando ela é vista como meio para alcançar uma vitória definitiva do capitalismo contra o comunismo.

Mas, não escrevi esse post para entrar no mérito se, além de imperialistas, invasores de países alheios, aculturados e ladrões de petróleo, os americanos também seriam mentirosos. Quero contar para vocês a história do grande mistério em torno de uma frase que Armstrong, o suposto primeiro homem a pisar na lua, teria dito. Por causa dos 40 anos desta conquista, esse caso anda rondando meu e-mail direto. Eu já tinha ouvido ele numa rodinha de cachaça e me arrepiei quando contaram.

Vamos lá. Reza a lenda que em 20 de junho de 1969, às 20:17 horário mundial, após tocar os pés no solo lunar e escrever seu nome na história com a célebre frase “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”, logo na sequência, Neil Armstrong teria proferido uma outra frase, bastante enigmática, que não estava no script e que não fazia sentido algum para a base de Houston, muito menos para os milhões de telespectadores que assistiam ao vivo o grande feito:

- [chiado de rádio] ... good luck, Mr Gorsky. (boa sorte, senhor Gorsky)

Ao retornarem à Terra, durante a coletiva de imprensa, perguntaram a Armstrong o que ele queria dizer com a misteriosa colocação. O astronauta respondeu com um silencioso sorriso. Logo de início, especulou-se que se tratava de um recado irônico, uma espécie de provocação a algum cosmonauta soviético. Mas, após checarem, verificaram que nunca houve um Gorsky no programa espacial russo. Ao longo de décadas, essa pergunta era sempre recorrente durante as entrevistas a Armstrong. Ele sempre sorria, mas nunca respondia.

Até que em 5 de junho de 1995, ao final de uma conferência da qual participava em Tampa, na Flórida, Armstrong foi mais uma vez indagado sobre a fatídica frase por um jornalista. Dessa vez, finalmente, o desbravador da lua aceitou responder:

- Aos 10 anos de idade, numa certa manhã de verão na minha cidade natal, eu estava jogando baseball com alguns amigos quando a bola caiu no quintal do vizinho. Era a casa do senhor e da senhora Gorsky. Ao pular a cerca que dava acesso ao jardim do casal, pude ouvir a senhora Gorsky falando alto: “não! De jeito nenhum! Não!”. Levado pelo espírito curioso que costumam ter as crianças, aproximei o ouvido da janela e ouvi o senhor Gorsky insistir: “por favor, amor. Só dessa vez”. A senhora Gorsky continuava irredutível: “nem pensar. Eu não vou fazer e pronto!”. O senhor Gorsky era um homem persistente e não se dava por vencido: “meu benzinho, eu nunca te peço nada...”. Foi quando a senhora Gorsky setenciou: “Bill, quer saber quando eu vou fazer sexo anal com você? No dia em que o filho do vizinho caminhar na lua”.

Moral da história: tem vizinho que nasceu pra ferrar com a vida da gente.

domingo, julho 19, 2009

O dia em que Michael Jackson me colocou pra dormir no sofá. (E eu nem tive a chance de processá-lo).

Maldito seja quem inventou esse negócio de fantasma. Não foi Deus, tenho certeza. Deus inventou o paraíso e o inferno, administra com mão de ferro o primeiro e deixou o capeta tomando conta do segundo. Se a gente morre e vai ou para um lugar ou para o outro, por que tem espírito de porco que ainda fica por aqui bestando? Vai tocar harpa lá em cima ou tocar fogo lá embaixo! Só me deixem dormir em paz.

Lá na agência, a nova mania é ficar pesquisando no Youtube vídeos de eventos paranormais, como o fenômeno poltersgeist, materializações de objetos, aparições de fantasmas e afins. As meninas de lá ficam apavoradas, os caras dão risada, fazem piada, gozam das colegas. Mas duvido que quando chegam em casa e colocam a cabeça no travesseiro, não ficam no pânico, enrolados no lençol, observando e torcendo para que um vulto ectoplasmático não passe na frente da cama. Eu assumo, tenho medo desses desencarnados desocupados.

Repare: quando há muito movimento na casa, pessoas circulando, nada de anormal acontece. Imagino que se surgisse uma aparição diante de um grande grupo, todo mundo se abraçaria, as pernas tremeriam um pouco, mas o medo iria embora. Só que fantasma é raça-ruim, ele espera um pobre-coitado qualquer ficar sozinho para fazer barulhos estranhos pela casa, entortar quadros, fazer cachorros latirem, bater portas.

E foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Tem umas duas semanas ou mais que minha mãe foi pra São Paulo visitar minhas irmãs e eu estou sozinho em casa. Tudo bem, é legal porque rola festinha aqui até altas horas, mas na hora de dormir há uma certa apreensão. Mas, já pesquisei um monte de coisas sobre fantasmas e sei que eles não se dão bem com fontes de luz (por isso que a maioria das aparições que a gente vê no Youtube é captada no modo “nightvision” de câmera).

Eram quase 3 da manhã e eu, sem sono, resolvi procurar um vídeo na internet do suposto fantasma de Michael Jackson em Neverland, seu estimado e célebre rancho. Como nada hoje está tão em voga na grande rede quanto esse episódio fúnebre que fez sumir do dia pra noite o rei do pop e salvou a pele de Sarney, não tive dificuldade em encontrar o link. Cliquei, esperei o vídeo carregar e... “meu Deus! É o fantasma de Michael ali atrás, passando pelo corredor. Incrível...”

Enquanto um calafrio percorria minha espinha, pensei comigo: esse cara foi tão excêntrico em vida, tão esquisito, que até justifica ter virado fantasma. Inclusive porque, desde thriller que ele já treinava pra isso. E até que apareceu como um fantasma comum, nem parecia Michael Jackson, nem estava de luva prata em uma das mãos ou mesmo fez o fabuloso moonwalker. Mas, pra você ver como é um super-astro: mal bateu as botas e já deu um jeito de aparecer na mídia de novo.

Enquanto eu via, revia e via de novo o vídeo, cada vez mais surpreso, eis que o inesperado acontece: faltou energia. Puf! Apagou o computador, apagaram-se as luzes, o silêncio e o breu absoluto tomaram conta da casa. Gelei e todos os meus fios de cabelo arrepiaram-se. É Michael... pensei. Tanta gente importante pra esse cara aparecer e ele resolve aparecer logo em minha casa.

Tateei a mesa do computador e consegui encontrar meu celular. Liguei o flash da câmera. Imaginei que se houvesse algum fantasma materializando-se, ele iria sumir com a luz forte. “Pra que eu fui ficar acordado até essa hora?”, me lamentei. Eu estava ali sozinho, movimentando rapidamente um celular para todos os lados do cômodo numa espécie de esgrima e lembrando da regra do sobrenatural que diz que os fantasmas só aparecem quando estamos sozinhos. Pensando nisso, chamei os dois gatos que moram aqui. (Eu sei que foi uma solução ridícula, mas tenho certeza que, no desespero, você faria o mesmo). Eles vieram, peguei os dois no colo, um em cada braço e saí andando lentamente pela casa, equilibrando os gatos e o celular.

Pronto. Agora eu tinha uma fonte de luz e já não estava mais sozinho. Porém, eu não tinha coragem de ir para o meu quarto. Já tive provas que o corredor daqui é mal-assombrado, mais de uma vez aconteceu da luz dele acender sozinha e, do jeito que o mundo anda estranho, era capaz disso acontecer até sem energia. Fiquei parado no meio da sala segurando os gatos que, àquela altura, me arranhavam tentando voltar pro chão. O celular iluminava o teto.

Por um instante, passou pela minha cabeça a idéia de ir para o playground do prédio. Mas, logo lembrei que o elevador estava parado e só um louco pegaria a escada naquela escuridão. Se o caçula dos Jacksons Five estava em meu ap, na escada eu corria o risco de topar com Elvis e Dercy Gonçalves fazendo alguma sacanagem. Então, resolvi que ia dormir ali mesmo, no meio da sala.

Tinham três sofás para eu escolher. Um era de dois lugares e eu só caberia se encolhesse bastante as pernas. O segundo tinha almofadas muito altas, do tipo que a gente afunda e mói a coluna. Ah, o terceiro sim era retinho e espaçoso. Mas quando fui caminhando até ele, vi na sua cabeceira dois porta-retratos: um com meu bisavô, outro com minha bisavó. E, naquele momento, tudo o que eu menos precisava era da ajuda da família. Corri pro sofá que afunda.

Tirei o máximo de almofadas que pude, deixei uma delas para servir de travesseiro. Acomodei o celular em cima de uma bancada com a luz acesa – quanto tempo ainda duraria aquela bateria? Segurei os dois gatos no sofá e fiquei deitado, o corpo imóvel. O cachorro da casa vizinha latia sem parar e todo mundo sabe que cachorro vê fantasma. O vento balançava os toldos da varanda com mais força que o de costume. Insistentes, os gatos miavam querendo sair e eu ganhava novos e ardidos arranhões. Percebi que o resquício de noite seria longo.

Foi então que eu acordei suando em bicas com o sol bronzeando meu rosto às 6 da matina. Nada de gato por perto, o celular com a bateria esgotada. Nada de fantasma. Sobrevivi. Michael tinha ido embora, possivelmente partiu para o Japão, onde a noite começava e outro infeliz sofreria com a sua falta do que fazer pós-morte. Fui para o meu quarto e, dando muito valor a uma cama, dei prosseguimento ao meu sono que teve que ser cumprido em doses homeopáticas aquela noite.

Tenho tantas histórias misteriosas que aconteceram comigo que dariam para escrever Ghost, do Outro Lado da Vida – parte 2. Não sei dizer se sou médium ou sou apenas sugestionável. Só sei que sou assim. Mas, hoje, só vou escrever essa história mesmo. Melhor não arriscar. Vai que falta luz de novo?

Descanse em paz, Michael. Mas colabore: deixe eu descansar também.