terça-feira, outubro 07, 2008

O claustrofóbico, o alérgico e o cara-de-pau.


Eu tenho um primo que também é cheio de histórias pra contar. Tudo de estranho e pitoresco acontece com ele. Às vezes, chego a pensar que isso é genético. Entre muitos dos seus casos, um dos meus preferidos é sobre a noite quase inteira que ele teve que passar embaixo da cama com mais dois marmanjos. Apresento-lhes Milton Filho.

Milton tinha um amigo, Paulão, dono de uma charmosa cobertura no não menos charmoso bairro do Rio Vermelho. O lugar era pequeno, é verdade, mas de muito bom gosto. Bem decorado, um terraço agradável com uma piscininha aconchegante, cadeiras em volta de uma bela mesa no deck e um telão. Falo com propriedade porque depois que ouvi essa história, fiz meu primo me levar até lá para que eu pudesse visualizar melhor as cenas que ali se passaram.

Paulão, um cara de seus 35 anos, era noivo. A mulher que ele estava prestes a se casar, segundo meu primo, tinha seu peso medido em arrobas. E, o que ela tinha em excesso corpóreo, também tinha de personalidade forte. Foi diante de um cenário cataclísmico como esse, com um apê bem legal e uma noiva pra lá de rabujenta, que o sujeito resolveu fazer uma festinha com os amigos e algumas meninas de família.

Estavam Paulão, Milton Filho – orgulho da família -, mais dois amigos e uma horda de mulheres de aluguel. Sonzinho rolando, bebida socializando e muita descontração. Milton jura que não havia passado disso (eu acredito, e você?). Então, de repente, toca o celular de Paulão.

- Pssss! Desliga o som aí, ninguém fala nada, ninguém fala nada... – advertiu o anfitrião atendendo o telefone em seguida – Alô... oi amor! Tudo bem?

- Tudo bem, e você? Tá na fazenda? – arteira, respondeu a noiva Margarete.

- Tô sim, amor... e morrendo de saudade de você. – respondeu o ardiloso Paulão.

- Ué, e quem está no seu apartamento? As luzes estão todas acesas...

Paulão engoliu a seco e respondeu:

- É que... eu emprestei o apartamento pra Flávio. É ele quem está lá.

- Ah é? Então liga pra seu amigo agora e pede pra ele abrir a porta porque eu já estou aqui no hall de entrada...

Trim! Tocou a campainha e saiu Paulão tropeçando em tudo, correndo pela casa, empurrando os outros três amigos em direção ao seu quarto. Trim, trim, trimmmmm! A impaciente Margarete castigava a pobre buzina com seu dedo gordo. Tocou de novo o celular do rapaz.

- Calma, amor! Calma! Eu tô ligando pra ele mas está dando caixa... ele vai abrir a porta, calma... – disse Paulão em meio ao desespero, enquanto levantava o lastro de madeira da cama e apontava insistentemente para o seu interior.

Milton Filho viu aquela estreita cama de viúva que não é nem de solteiro, nem de casal, cheia de sujeira e alguns cacarecos dentro e achou que o dono da casa estava mandando que ele jogasse ali o seu copo de plástico, talvez para se livrar de alguma prova. Como Paulão não desligava o celular e também não conseguia se fazer entender, meu primo arremessou seu copo para debaixo da cama. Segurando o estrado com uma mão e o celular com a outra, o noivo de Margarete balançou a cabeça de forma negativa e impaciente. Apontou para os dois amigos, para si próprio e, em seguida, para dentro da cama. Ah, é para entrar aí? Milton Filho não via possibilidade alguma de caberem naquela caixa de madeira, ele, Paulão e seus quase dois metros e o outro amigo. Desligando o celular, o dono do pedaço foi muito claro:

- Entrem logo aí dentro senão vocês vão acabar com meu noivado.

Sem terem chance de argumentação, os dois se ajeitaram no cubículo, cruzaram os braços sobre o peito para ganharem espaço e então Paulão se esgueirou entre eles e, antes de baixar o estrado, falou para Flávio:

- Atenda a porta e leve ela lá pra cima.

O único amigo que fora poupado do caixão coletivo fez cara de “deixa comigo, está tudo sob controle”. Dentro da cama, aos cochichos, iniciou-se um diálogo entre os três:

- Eu tenho claustrofobia, não vou conseguir ficar muito tempo aqui. – sussurrou Milton Filho.

- E eu tenho alergia, Paulão... meu nariz já está coçando. – disse o amigo.

- Calem a boca vocês dois! Quando ela subir para a cobertura a gente sai daqui de dentro e corre pra fora do apartamento. Por enquanto fiquem quietos, vai ser rápido. – respondeu Paulão tentando afastar os riscos.

Ouviram então a porta da casa se abrir. Margarete adentrou a sala arfando:

- Cadê o f.d.p. do Paulo?!

- Calma Margarete, o que é isso? Pelo que eu sei, Paulão está na fazenda. Aqui ele não está. – disse Flávio, simulando ar de espanto.

- Você acha que eu sou idiota, Flávio? Vamos! Cadê ele? – a noiva parecia rosnar.

- Se você não acredita, fique à vontade, pode procurar. Por que não olha lá em cima?

Milton Filho lembra de ter ouvido os passos de Margarete subindo as escadas como se buscassem furar os degraus. E, de dentro da cama, ainda ouviram mais:

- Ah, quanta pu** junta! Onde tem pu**, Paulão está, com certeza! – gritava Margarete vendo aquele mundo de meninas na cobertura de seu noivo.

Nesse momento, Flávio desceu discretamente e encontrou os três quase do lado de fora da cama. Quando ia ajudá-los a sair, ouviu a estraga-prazeres (literalmente) aos berros:

- Eu vou descer, aquele &%$@# deve estar lá embaixo!

Foi só o tempo de voltar todo mundo para o caixote e Flávio colocar o colchão por cima da cama. Ainda ouviu a voz abafada de Paulão vinda de dentro:

- Tranque a porta por fora e leve a chave! Rápido!

Com a porta trancada, os três saíram suados de dentro da cama, vestidos com um ridículo figurino composto por sunga e tênis. Retiravam as teias de aranha grudadas em seus cabelos. Quando acharam que iriam respirar um pouco, eis que Margarete gira a maçaneta da porta do quarto. Todo mundo de volta ao cárcere às pressas.

- Ei!! Quem trancou essa @#&*% deste quarto?? Abre aí! Abre! – a besta-fera esmurrava a porta incessantemente. E cada vez mais forte, cada vez demonstrava mais descontrole.

Após um tempo, as pancadas na madeira e a voz estridente de Margarete cessaram. Paulão sussurrou:

- Pronto, ela deve ter ido embora.

Meio segundo depois desta frase, um estrondo enorme acusou o arrombamento da porta. A maçaneta voou longe.

- Cadê aquele safado, desgraçado, miserável??

De dentro da cama, os três só ouviam o som de porta-retratos, CDs e objetos decorativos se espatifando contra a parede. Paulão soltou um lamento quase inaudível:

- Minha casa...

Depois do quarto em ruínas, a mulher sentou na cama. Com o peso, o estrado encostou no nariz de Milton Filho. Ele virou o rosto em direção a Paulão e disse:

- Eu vou sair. Não estou agüentando mais, me desculpe.

Disse o outro:

- Eu também vou. Não consigo respirar.

- Calma. Não estraguem tudo. Ela vai cansar e vai embora. – implorou Paulão.

Tentando fazê-la desistir de esperar, Flávio interveio:

- Margarete, você não está vendo que Paulão não está aqui? Por favor, deixe eu continuar com minha festa.

- O seu brega terminou, Flávio! Só saio daqui quando Paulo aparecer.

Ao perceber que a noiva de seu amigo não pretendia deixar o recinto tão cedo, Milton Filho tentou relaxar, controlar a sua claustrofobia e quem sabe até cochilar um pouco. Fechou os olhos. Então, percebeu que daquele jeito o lugar ficava menos insuportável. Foi aí que o escuro deu lugar a um grande clarão. Meu primo abriu os olhos e deu de cara com a visão do inferno: Margarete.

- Ahááááááááááááá!!! Eu sabia!!! – gritou a mulher enquanto segurava o estrado.

Paulão levantou o corpo em direção a ela e, sentado, abriu os braços e disse sem jeito:

- Surpresa...!

Levou um tapa de mão cheia na cara, desses que ficam desenhados o contorno dos dedos. Desses que a cabeça parece girar sobre o pescoço.

Diante da cena, Milton Filho e o alérgico pularam da cama e saíram correndo desesperados pela escada do prédio. Margarete advertiu:

- Não adiantam correr, Milton Filho e Fulano de Tal! Já vi vocês e vou contar tudo para as suas namoradas!

Na garagem do edifício, trajando suas respectivas sungas e tênis, cada um correu para o seu carro. Margarete saiu do elevador, estava desfigurada, parecia um monstro de seriado japonês. Tentou se jogar na frente do carro de meu primo, tentando fazê-lo parar. Enquanto ele aguardava ansiosamente o portão do prédio se abrir, viu a síndica, uma mulher jovem, perguntando ao porteiro que reboliço era aquele. Ao fugir acelerando daquele pesadelo, Milton Filho ainda pôde ouvir um exclamativo comentário da (ex-)noiva de seu amigo quando olhou a administradora na portaria:

- Êta que ainda chega pu** na festa!

15 comentários:

Anónimo disse...

Peu, muito bom seu blog e as histórias. Vai guardando elas que logo logo vira um livro de contos. Um abraço. Lucas

Rueda disse...

CARALHO PEDRAO! AAHAHAYGAYAHAUHAUHAUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUHAUAHUAHAU!

TA DE SACANAGEM! AHHAHAHAH


SENSACIONAL! HUhAHUAhuAHUAHUAHUAHUAHU

SURPRESAAAA! UAHUHAUAHUAHUAHUAHA

claudia.uzeda disse...

Eu creio a acreditar que essas histórias são verdadeiras, rsrsrs. Muito bom chegar em casa cansadérrima e relaxar de tanto rir, rsrs. Bjs

Paula disse...

Menino, fui lendo e pensando se o cara tinha continuado o relacionamento... Sinceramente, eu achava que personalidade forte era outra coisa... hahahahaha

Muito bom o post.

beijos

Personagem Principal disse...

Rapaz, se essas histórias forem criações suas, vc é ainda melhor do que eu imagino.

E tô morrendo de rir com as msgs que vc deixou lá no blog. Respondo uma a uma depois. Bjs.

Fábio disse...

Surpresa!
Hahahaha
Com é que conseguiu ter tanta história assim e só agora ter começado a escrever?
Continue mandando brasa!

Luciana disse...

Ficou massa Peu! Só tb não concordo com a história da personalidade forte, acho bem o contrário.

O livro sai quando??

Bjos!

Mari Cassis disse...

Que noiva desagradável...

Pedro disse...

Lucas: obrigado! Se virar um livro um exemplar já é seu.
Abraço.

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Rueda: CARALHO RUEDA! OBRIGADO!!!

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Claudia: essa ficou um pouco longa, mas a noite deles foi realmente longa. Fico feliz que tenha gostado. Bjo!

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Paula: procurei saber e eles continuaram juntos depois disso. O apartamente teve que sofrer uma pequena reforma, mas deu tudo certo. Bjo!

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Vivz: quando você me elogia eu fico todo me achando. Mas não sou tão bom quanto você imagina. As histórias são todas verídicas. Acredite! Bjo.

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Fabão: e o pior é que tem muito mais. Nada melhor do que ter amigos figuras... aliás, como você também.

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Lu: a gente sempre discordou sobre essa história de personalidade forte. Reformulando: personalidade difícil. Tá bom assim? Vou mandar dois exemplares do livro pra Irlanda. Bjo!

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Mari: também acho. Bem que ela podia ter concordado com a festinha do noivo dela, né?

Lilian Devlin disse...

Pedro, Pedro, que figuras hein?
E o pior foi saber, pelas respostas que vc deu, que esse noivado continuou...Caramba, não conviveria com uma pessoa dessas jamais! Eita!
E como sempre, mais um ótimo post! me divirto demais com eles!
Beijos procê!

Anónimo disse...

Aí Pedrão!! Como vc está meu velho? Blza? Quanto tempo héin velho?

Rapaz, de vez em quando dou um saque aqui em seu blog, pra dar umas risadas... Hehehehe...

Essa história foi muito boa!!! Abraços meu velho.

Flávio Diniz

Pedro disse...

Lilian: pois é moça, tem doido pra tudo. O casamento deveria ser realizado num ringue, não acha? Fico feliz que tenha gostado do post! Bjo.

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Diniz: Diniz, meu rei! Cadê você? Outro dia um amigo meu me perguntou "cadê aquele cantor daquela sua banda Nox -1?" rsrsrs. A gente precisa marcar de se ver. Você tem orkut?
Abraço!

Dedinhos Nervosos disse...

Gente, não acredito que passei o carnaval em Salvador (registrado no blog hehe) este ano e só fui te conhecer agora! Seria ótEmo sentar num boteco e me matar de rir com as suas histórias! hahahahaha

Bjos!

Pedro disse...

Dedinhos: poxa, que pena mesmo que não nos conhecemos antes. O jeito é você passar carnaval ano que vem aqui. Fica pré-marcado o barzinho! Rs.

Bjo!

Anónimo disse...

Между прочим, не зря блогоньюс называется местом для сбора всего самого увлекательного. [URL=http://blogonews.net]Интересные новости[/URL] - безусловно правильное название для этого блога.