sexta-feira, abril 29, 2011

Ainda bem que Kate e William não convidaram Bob

19:45. O casamento começava às 20 horas. Eu era padrinho e ainda nem tinha saído de casa. Lutava bravamente com a gravata que, àquela altura, vencia a batalha com folga. Sim, ora com folga, ora com aperto. Na realidade, o problema não era bem o nó, isso eu já havia resolvido; a questão era o comprimento da gravata que, ou ficava muito grande, ou ficava ridiculamente pequena.

Para aumentar meu desespero, Letícia, no auge do nosso atraso, insistia em retocar a maquiagem. Tentei ignorar o insistente toque do meu celular. Não consegui: era Bob, que, pelo número de tentativas, dava indícios de tratar-se de assunto importante. Do outro lado da linha, uma voz ofegante:

- Fio, você sabe dar nó de gravata?

- Depende. De que tipo? – respondi apressado.

- Daquele maior. Já fiz e desfiz mil vezes e ele sempre fica pequeno. Vou acabar chegando atrasado!

- E eu que sou padrinho, Bob? Vou chegar depois da noiva. Vamos fazer assim: pelo telefone não vai dar pra resolver nada... vá com o seu nó do jeito que está e quando chegar lá a gente tenta dar um jeito.

Paletó arremessado no banco de trás, entramos no carro apressadamente. Acelerei de forma que, em poucos instantes, Letícia desistiu de retocar a maquiagem pelo espelhinho do para-sol. Cheguei na igreja de Santo Antônio da Barra ao mesmo tempo que Bob. Fiquei surpreso ao vê-lo - não pelo terno bem cortado, seus reluzentes sapatos de bico fino, cabelo empastado, enfim, seu layout italiano, mas pelo nó de sua gravata. Sim, ele havia me dito que o nó estava pequeno, mas eu não imaginava que o objeto da preocupação de Bob havia ficado mais discreto do que um nó de cadarço de tênis. Na gola, um vazio tão grande, mas tão grande, que, em termos psiquiátricos, seria uma depressão profunda. Sério, o nó conseguia ser menor do que o botão que fechava a camisa.

A gargalhada conseguiu manter-se contida exclusivamente pelo fato do ponteiro pequeno do relógio ter estacionado no 8. Correria escada acima e a fiel promessa de, ao fim da cerimônia, tentar ajustar aquilo que, com muita boa vontade, podia ser chamado de nó de gravata.

De cima do altar, a atenção que eu dispensava às piadas e extroversões do padre eram divididas com a visão de um sujeito alto no fundo da igreja, realizando movimentos frenéticos à altura do peito e da cabeça, destoando dos corpos estáticos dos convidados, voltados todos eles para os noivos. De início, imaginei ser um beato a se benzer diante das palavras do ministro de Deus. Mas, não: era Bob, mais preocupado com o laço do que com o enlace.

Ainda no rito de saída dos padrinhos da igreja, aquela escolta de passos vagarosos feita aos noivos, fui abordado por Bob que, quebrando o protocolo, meteu-se no meio da fila, segurou firme no meu braço e murmurou pausadamente:

- Não esqueça da minha gravata.

Seguimos todos para a festa. Lá, os noivos aguardavam pais e padrinhos para um brinde. Bob, inquieto, rondava a cena com sua gravata excêntrica. Durante as fotos, mesmo estando fora da cena, Bob levava a mão ao pescoço buscando esconder sua fragilidade. Após formalidades, nova interceptação e súplica:

- Vamos ali comigo no banheiro! Não dá pra ficar na festa assim.

Compadecido com a situação do meu amigo e diante de uma gravata que desaparecia diante da gola completamente abotoada e vazia - lembrando um crente -, avisei a Letícia que iria com ele ao banheiro. Com Bob já adiante, movido a passos rápidos rumo ao local de sua suposta salvação, eis que chega um cliente do trabalho. Sem notar minha parada brusca, seguiu Bob aos trancos em meio aos convidados. O cliente me travou naquele ponto e eu não via possibilidade de deixá-lo falando sozinho e seguir atrás de meu amigo. E nem precisou. Bob retornou e pediu um aparte:

- Você é escroto, é? Minha gravata!

Pedi licença e continuei a procissão rumo ao banheiro. Dessa vez, chegamos no destino. O cenário: um monte de marmanjos lutando com seus ternos e órgãos genitais a fim de não se sujarem de xixi. Fiquei preocupado com aquele povo todo no recinto. Afinal, um homem ajudando outro com a gravata dentro de um banheiro não seria das visões mais másculas.

Para fugir dos olhares curiosos, só vi uma solução: tentar resolver o problema do nó da gravata de Bob dentro de um dos boxes. Primeiro entrou um. Depois, após constatar que ninguém observava, entrou o outro. Tom de vozes baixo, quase sussuros, iniciou-se o diálogo:

- Por que ficou tão pequeno assim?

- Sei lá, eu tentei várias vezes e nada. Será que você consegue deixar ele maior? – Bob retrucou um pouco mais alto.

Percebi que as conversas que vinham dos mictórios emudeceram de repente. Baixei novamente o tom de voz:

- Vou tentar...

Manobrei a gravata em busca de um nó mais decente. Bob não colaborou com a discrição e praticamente deu um grito:

- Peraí, porra, agora tá grande demais!

Mais silêncio ainda no banheiro. Ouvia-se apenas o som do xixi alheio batendo nas bolinhas de naftalina. Fiz sinal pra Bob falar mais baixo. Tentei novo nó. Bob não respeitava o volume dos comentários, muito menos os trocadilhos:

- Ficou pequeno de novo, tá vendo? Se você não virar assim pro lado ele fica pequeno...

Querendo terminar logo com aquele constrangimento no banheiro, fiz sinal para que ele tirasse a gravata, assim, eu tentaria dar o nó em mim mesmo e depois passaria a gravata para ele.

- Você quer que eu tire? Eu tiro... – infelizmente, disse Bob.

Fazendo verdadeiro origami com a gravata, cheguei a um resultado que me parecia satisfatório. Retirei a peça do pescoço e passei para ele. Irritadiço, Bob respondeu:

- Tá muito apertado, Pedro. Assim não vai passar da cabeça!

Ouvi risos maliciosos do lado de fora do box. Alarguei o maldito nó e lhe devolvi novamente a gravata. Não satisfeito com o papelão, Bob, feliz com o resultado, soltou aprovativo:

- Ahhhh!

Tudo o que eu mais queria e não queria ao mesmo tempo era sair daquele minúsculo lugar. Eu e Bob, um cara de seus 1,90 de altura, dentro de um box de banheiro, era, no mínimo, complicado de explicar.
Sem pudor algum, Bob fez menção de abrir a porta. Eu o pedi que aguardasse. Seria melhor esperar o banheiro esvaziar um pouco mais para sairmos. Bob não concordava: estava completamente suado e ansioso para aproveitar a festa, coisa que seu nó de gravata não havia permitido até aquele momento. Após ainda fazer algum barulho dentro do cubículo, concordou. Combinamos então de sair um após o outro.

O som ambiente no recinto, enfim, diminuiu. Girei cuidadosamente a maçaneta e saí. No mictório, corpo curvado para mim, estava o novo namorado da melhor amiga de Letícia, sujeito que eu havia conhecido naquele mesmo dia.

- Cerimônia longa, não? – ele puxou papo.

- Nem me fale – sorri um sorriso amarelo.

Então, bem diante do cara, sai Bob de dentro do mesmo box que eu havia acabado de sair. Suado feito um cuscuz, segue sem cerimônia para o espelho, ajeita o cabelo, joga água no rosto e deixa o banheiro.

- Te espero lá fora – disse enquanto passava pela porta.

O barulho do xixi do cara subitamente interrompeu. Travou seu esfíncter. Ele desviou o olhar de mim e mirou o infinito nos azulejos diante de si. Silêncio sepulcral, daqueles que dá para ouvir o barulho dos grilos do lado de fora. Também mudo, me retirei.

Fui caminhando lentamente pela festa, a cabeça maquinando as interpretações do cara. As interpretações, não. “A” interpretação - não havia outra. Quando vou me aproximando do grupo onde estava Letícia e a melhor amiga, Bob surge com uma taça de prosseco na mão ao tempo em que o sujeito do banheiro também resolve aparecer.

As meninas perguntam:

- Que demora foi essa, hein?

Imediatamente, de bate pronto, eximindo-se de qualquer culpa, a suposta testemunha responde em voz e cabeça baixas:

- Eu estava fazendo xixi...

9 comentários:

Anónimo disse...

Depois de 1 ano ele voltou!!

MARIA KRUSCHEWSKY disse...

UM GËNIO!!!

Lú Alban disse...

gente, to sabendo dessa por aqui... agora entendo porque o novo namorado da amiga de lele teve uma primeira impressão ruim de vc! kkkkkkkkkkkkkk brincadeira Peu! bjs

Anónimo disse...

bala, peu...michelle me ligou pra eu curtir....lemos juntos.....massa....vou comecar a acompanhar....parabens, moreno,
chokito

Lucas Cohin disse...

HahAa!! Sempre mto bom!! Valeu a campanha Dani!!

PriscilaReis disse...

Peu, acabei de ter uma crise de risos!! A ultima vez q tinha entrado no seu blog foi pra ler aquele texto sobre minha avó... Voltarei!!! Bjs Pri

Leo Pirão disse...

Tranquilo, Bobby. Tranquilo.

Laís disse...

Aêeeeeeee! Finalmente voltou!!!

n2c disse...

olá, Pedro! acessei o seu blog, com orientação de Rogério e não me arrependi! Muito bacana! Continue atualizando!

Um grande abraço,
Carlos Baumgarten