sexta-feira, junho 05, 2009

O deputado higiênico.

Além de atender clientes privados, na nossa agência de publicidade também fazemos marketing político. O trabalho vai desde a criação de campanhas eleitorais até a comunicação de governo propriamente dita, já com o político eleito. Apesar de hoje em dia a palavra “político” causar arrepio na maioria das pessoas, existem caras corretos, bons de se trabalhar, pessoas realmente empenhadas em fazer um trabalho sério e mudar esse triste cenário de falta de responsabilidade com o dinheiro público e os anseios do povo.

Mas, um dos desafios que a gente imediatamente encontra quando um político nos contrata é que ele vê em toda e qualquer pessoa um eleitor. Isso significa que um dos diagnósticos mais importantes que precisamos ter em mãos, que são suas fraquezas e dificuldades diante do cenário político em que se insere, jamais é confessado facilmente por ele. Esse é um dos motivos que faz da pesquisa a melhor amiga de quem faz marketing político.

E foi num desses dias de campanha iniciada antes mesmo do período eleitoral que aconteceu esse caso. A gente tinha acabado de mudar a sede da agência para um novo lugar e a sala estava um pandemônio: reforma acontecendo, caixas de mudança pelo chão, banheiros desmontados, lâmpadas penduradas. Foi então que um deputado estadual que queria tentar a reeleição nos telefonou:

- [voz impostada] Alô, Pedro? Boa tarde. É aí que vocês fazem homem feio ficar bonito? Vi o que fizeram com a foto de campanha do deputado Fulano de Tal, também quero remoçar uns 15 anos e acender meus belos olhos azuis. Temos que agradar o eleitorado feminino, não é verdade?

Certos políticos carregam consigo uma pitada de bom humor que os deixa bastante agradáveis. Isso é ponto positivo. Respondi no mesmo clima:

- Pois é, Deputado... fazemos umas cirurgias aqui que não doem nem no bolso.

- Isso é importante. Como eu já vim bonito de fábrica, sei que vocês vão me dar um bom desconto. Posso passar aí rapidinho na agência de vocês?

- Deputado, eu prefiro encontrar o senhor em algum outro lugar. Não poderia ser na Assembléia Legislativa amanhã pela manhã? – perguntei enquanto olhava o caos estabelecido pela mudança que ainda acontecia.

- É que eu estou passando aqui na rua de vocês, é coisa rápida. – ele respondeu.

- Vamos deixar para amanhã? É que a gente acabou de se mudar e aqui está uma bagunça terrível. – eu insisti.

- Eu sei como são essas coisas. Mas não tem problema. Já me sinto de casa, nem vou reparar. – ele insistiu.

Não houve outro jeito senão assentir com a ilustre visita. Desliguei o telefone e então comuniquei a Danilo, meu sócio, a iminente chegada do deputado à Boanova. Ele não assimilou bem a notícia:

- Tá louco? Como é que vamos receber o deputado nesse pardieiro? Liga de volta e diz que a gente passa no gabinete dele amanhã.

- Foi o que eu tentei argumentar. Mas o cara foi inflexível, disse que já está aqui na rua. – respondi.

- Aqui na rua?! – perguntou Danilo ao tempo em que, no desespero, iniciava uma tentativa de maquiar a bagunça generalizada.

O corre-corre foi grande e foi em vão. Não dava tempo de melhorar o cenário de guerra. Parecia que um furacão tinha passado por lá, seguido de um terremoto e do Tazmania.

- Rapaz... e o banheiro? – lembrou Danilo com um semblante de espanto.

- Xi...! Tá sem sabonete, sem papel-toalha... – dei-me conta.

- Agora é rezar pro cara não querer ir ao banheiro. – concluiu Danilo.

Tocou o meu ramal. Anunciaram que o deputado já estava nos aguardando na recepção. Pedi que o deixassem entrar.

Foi então que o parlamentar, seguido de um séquito de assessores engravatados, entrou em nossa sala. Alto, postura ereta, ar triunfante, seu corpo no terno tinha certas restrições de movimento. Pela sua aura de confiança, eu diria que o pré-candidato já estava eleito. Olhos fitados em Danilo, aproximou-se lentamente dele, a mão erguida, pronta para um cumprimento. Com um firme aperto de mãos, sem desviar os olhos de meu sócio, o deputado falou com certa solenidade:

- Vocês são bons. [pequena pausa na voz, mas não no olhar] Por isso estou aqui. – e só então terminou o cumprimento.

Outra característica de muitos desses nossos clientes é a facilidade que eles têm de inflar o seu ego. Isso requer muito cuidado. Caso contrário, depois de tantos elogios, você acaba fazendo o trabalho de graça – e ainda vota no cara.

- Obrigado, Deputado! Sentem-se, por favor. Vamos ficar devendo a vocês um cafezinho: como podem ver, ainda não nos instalamos direito. – disse Danilo. E continuou – No que podemos ajudar?

Sem perder a inclinação do rosto para cima e o olhar voltado para baixo, sinal clássico de austeridade, o deputado traçou um rápido panorama de sua situação política nos municípios baianos que compunham suas bases, descreveu brevemente algumas de suas realizações ao longo do primeiro mandato, não falou de suas fragilidades – o que a gente já esperava -, cobriu-se com um manto de nobres qualidades e, antes de falar de suas necessidades de campanha, interrompeu o seu discurso fora do palanque:

- Onde fica o banheiro?

Imediatamente, eu e Danilo cruzamos olhares. Depois de quase pedir que o deputado segurasse qualquer que fosse a sua necessidade fisiológica, falei:

- Deputado, saindo desta sala, vira à esquerda e depois é a primeira porta à direita.

Na ausência do parlamentar, os assessores, empolgados cabos-eleitorais, exaltavam as qualidades do seu candidato e faziam inúmeras perguntas a nós dois. Não consegui prestar atenção a absolutamente nada do que estava sendo dito. Só imaginava como o deputado estaria se virando dentro daquilo que ainda não passava de um projeto de banheiro.

Foi então que o inusitado aconteceu. Retornou o deputado à sala, com toda sua pose, seu andar de desfile de grife masculina, um olhar de estadista que mirava o horizonte e o rosto cheio de pequenas bolinhas de papel higiênico grudadas. Segurar o riso foi a maior prova de auto-controle que eu já imprimi a mim. Na falta do papel toalha, o pomposo senhor enxugou o rosto com o que havia disponível. Como também ainda não havia espelho, nosso cliente não teve a chance de ver o resultado da sua aventura no banheiro.

Ele sentou-se novamente diante de nós e continuou sua retórica. Jamais irei esquecer a cara de Danilo, misto de riso preso com tentativa de prestar atenção no que era dito. Os assessores, por sua vez, também não tiveram a iniciativa de comunicar ao deputado que ele parecia ter caído de cara na neve. Aliás, no Neve – salvo engano é a marca de papel higiênico oficial da Boanova.

Ao comentar empolgado um grande feito político seu, o deputado fez um gesto brusco com os braços que fez cair uma das bolinhas presas no seu rosto. O pequeno floco branco aterrissou em seu colo. O parlamentar, sem interromper sua bela fala, pegou a bolinha, friccionou-a com os dois dedos como quem dá forma a uma meleca e olhou para o teto buscando a origem daquela aparição. Deve ter pensado: “este lugar está realmente necessitando de uma reforma”.

Ao fim da reunião, marcada por um esforço sobre-humano de mantermos o foco nas explanações do deputado, nos comprometemos a enviar um orçamento ao seu gabinete. O elegante membro do legislativo baiano levantou-se da cadeira, nos cumprimentou cheio de papel higiênico na cara, voltou-se para as janelas que dão para a criação e, buscando vencer os vidros que o separavam dos nossos profissionais, disse gritando:

- OLÁ, PESSOAL! TUDO BOM COM VOCÊS?

O detalhe é que, por conta da reforma ainda não ter sido concluída, os vidros ainda não haviam sido colocados. Resultado: com o berro do deputado no pé do ouvido deles, todos se assustaram. E se assustaram ainda mais quando viraram para trás e viram um sujeito enfurnado num terno preto com a cara toda pinicada de papel higiênico acenando para eles.

- SÃO VOCÊS QUE VÃO FAZER NOSSA CAMPANHA, NÃO É? OS ARTISTAS! FICAM AÍ VIAJANDO E DEPOIS COMEÇAM A TER IDÉIAS MIRABOLANTES! PARABÉNS PELO TRABALHO, VIU? PARABÉNS! – o deputado continuou sua gritaria enquanto o pessoal da criação olhava atônito pra ele, sem entender quem era o louco.

Despediu-se de nós e saiu escoltado por seus assessores. Orgulhoso, disse que iria direto ao Palácio de Ondina encontrar o governador. Segurei a risada de novo. Será que dessa vez o pessoal do seu gabinete iria avisá-lo para que ele fosse poupado de constrangimento maior? Ou o deixariam passar algumas de suas bolinhas de papel para o rosto da primeira-dama quando o deputado a cumprimentasse? Mas, anotem aí: enxugar o rosto com o papel que limpa o bumbum às vésperas da campanha dá sorte, já virou simpatia. O deputado higiênico foi reeleito.

19 comentários:

Caroline Yussa disse...

hahahahahah
Pedro, seus posts são surreais!
Viajo exatamente para as cenas.
Mil vezes, sensacional!

bj

Dani disse...

Adorei!!! hahahaha
Não conhecia, apesar de Bernardo dizer que já ouviu várias vezes.

Gabriel disse...

essa de fato ja ouvi mil vezes euheuheuhe mtoo boa de fato...

Gabriel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel disse...

vou iniciar uma campanha aqui... "PEDRO ESCREVE UM LIVRO!!!"...

Laís disse...

Peu, qual foi o comentário eliminado?? rsrsrs

rueda disse...

PQP! hahuahua

essa eu não conhecia! Mto boa!

hahahahah

O renato já trabalhava ai?

grande abraçoo

Dedinhos Nervosos disse...

hahahahahaha MUITO BOM! hahaha Tô me matando de rir aqui. Como vc conseguiu??? Olha, se fosse comigo... não sei, não. rs
Beijos!

Elen disse...

Olá Pedro!
Adoooro demais seu blog! Já acompanho seus textos há um bom tempo, acho que já li quase tudo e tenho sempre ótimas crises de riso!
Vc tinha que ser publicitário! heheheh...
Continue postando!
Beijo.

Anónimo disse...

Que bom que só faltava o papel-toalha e o sabonete, poderia ter sido bem pior sem o papel higiênico...
Bjos

Eliane disse...

rsrsrs, não tem como não imaginar as cenas... hehe!! agora o que vai ter de candidato saindo por ai c/ papel higiênico na crada pra dar sorte.....

Eliane disse...

* na cara

Roberta disse...

Como tb já atendi esse "ilustre" deputado, imagino bem a pose dele (com um rei na barriga)... Hahahaha Só que comigo era diferente, porque além de tentar pegar meu voto ainda deu um de galã de novela das 8! hahahahahahahahahaha... Afinal sou mulher...
Adorei a história!
Bjos

Pati Silveira disse...

Pedro,

Muitooo bommmmmmm! A cena do Deputado "figura" retornando do banheiro foi hilária. :)
Eu acho que não aguentaria segurar o riso ao ver o rosto dele cheio de bolinhas de papel higiênico, e na sequência diria o motivo com bom humor...rs
A D O R E I as bolinhas...rsrsrs
Beijo enorme,
Pati

Dedinhos Nervosos disse...

Sumidãooooooooooooo :o(

Evandro Varella disse...

Pedro,
Essa foi de matar... se cair nas mãos de um desses cronistas políticos, tua história vai virar lenda, kkkk
Abração

Anónimo disse...

Hilario kkkkkkkkkk

Pedro disse...

Carol: que bom que gostou. Cuidado para, ao se transportar às cenas, não cair num banheiro sem papel toalha.

Beijo!

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Dani: achei que tinha te contado essa num desses almoços de família.

Beijo!

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Gabriel: ah, essa você ouviu num desses almoços de família....

Abraço!

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Lai: o comentário eliminado foi o de Gabriel. Ele escreveu duas vezes a mesma coisa. Sabe o personagem de Bruno Gagliasso na novela das 8? Foi inspirado nele.

Beijo!

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Rueda: não, Renato não trabalhava ainda. Infelizmente, nem você. Queria ter visto a sua cara se você estivesse por lá.

Abraço!

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Dedinhos: pois é, se fosse você acho que dificilmente teria segurado a risada, to certo? Tem vezes que eu agradeço aos céus por ter feito um bom tempo de yoga nessa vida.

Beijo!

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Elen: fico feliz de você ler sempre e mais ainda de você ter resolvido deixar um oi. E quanto a ser publicitário, pois é... não estudei direito pra medicina e deu nisso. Apareça!

Beijo!

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Anônimo: discordo de você. Pense bem: se ele precisasse usar o papel higiênico e só tivesse o papel toalha, apesar de toda a pompa do parlamentar, ele poderia se virar com o papel toalha e então nem a gente e nem o governador iríamos saber que ele havia passado por esse perrengue. Depois era só usar um hipoglós e tava tudo certo.

Abraço!

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Eliane: pois é, a gente inclusive já incluiu no kit político para campanhas. Além de jingle, santinho, praguinha, adesivo, minidoor e cartaz, a gente também ta entregando rolos de papel higiênico com a marca do candidato. Aí é só colar na cara e preparar o discurso para a posse.

Beijo!

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Ró: pois é! Lembro disso. Olha como são as coisas: se ele tivesse obtido o mesmo sucesso com você que obteve nas urnas, hoje eu seria tio do deputado. Imagine ele no altar com você cheio de papel higiênico na cara dizendo “sim”.

Beijo!

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Pati: eu gostei do seu raciocínio. Mas, conhecendo o ego desses caras como eu já conheço, a chance da gente não fazer a campanha seria grande. Já se eu fosse o governador, diria: “- Você é louco, deputado? Por que tá cheio de papel higiênico na cara?”. Mas, como sou só um publicitário...

Beijo!

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Dedinhos: ó eu de volta!

Beijo!

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Evandro: se ainda fosse o Dudu que aprontasse essa, hein? Mas um deputado...

Abraço!

Caroline Yussa disse...

hahaha. Nem tanto! bjs