terça-feira, janeiro 20, 2009

Teco-teco. A forma mais eficiente de se chegar ao céu.


Há tempos atrás, escrevi “A fantástica história da mala de cocô” e publiquei aqui no blog. Comecei falando da beleza que era Boipeba, indiquei como um destino especial para uma viagem a dois e contei a saga que nosso piloto certa vez enfrentou por conta de uma dor de barriga em pleno vôo. Mas, eu não havia contado os detalhes desta viagem, o desafio que foi até chegar àquele paraíso, o fatídico retorno a Salvador, a sensação de morte iminente e a minha certeza absoluta e incontestável de jamais voltar a embarcar em um teco-teco enquanto for vivente.

Vamos lá. Um cliente meu, dono de um táxi aéreo, solicitou à nossa agência a criação e acompanhamento de produção para um documentário sobre Boipeba. O material seria distribuído em agências de viagem que venderiam pacotes turísticos do destino e, com isso, esperávamos aumentar o número de vôos da empresa para o lugar. Até aí, tudo bem. Mas Adrian, meu cliente, me veio com uma exigência inegociável:

- Além da criação do roteiro, quero que você acompanhe pessoalmente a produção do VT. Decolamos na próxima quinta às 7 da manhã.

Eu nunca quis voar em avião pequeno. Quantas vezes já ouvimos William Bonner e sua esposa noticiando no Jornal Nacional: “monomotor cai na região tal e mata o piloto e dois passageiros”? Só dá isso na televisão: dólar subindo e aviãozinho caindo. Cada vez que a bolsa cai, mais uns dois desses acompanham. De estalo, lembrei que minha jornada na Terra tinha apenas começado, que eu ainda tinha muito o que viver:

- Adrian, sinto muito, de monomotor eu não vou.

Adrian, um inglês irrequieto, empresário de muitos negócios, me respondeu com seu jeito ansioso e usual tom de voz alto:

- Pedrinho, meu querido, a gente vai de bi-motor. Não tem com o que se preocupar.

Fiquei um pouco mais tranqüilo. Sempre ouvi dizer que quando um dos motores de um bi-motor pára, o outro segura o avião no ar. Procurei puxar da memória o histórico de tragédias com pequenas aeronaves e lembrei que pouco ouvi falar sobre quedas de bi-motores. É, o problema era realmente com os monomotores.

O dia da filmagem chegou. Acordei bem cedo, levantei da cama, olhei a imagem de Santo Antônio na estante, pedi a ele que mantivesse voando qualquer pedaço de aço que cruzasse o firmamento aquele dia, fiz o sinal da cruz e me mandei para o aeroporto. Chegando lá, encontrei o cinegrafista, o diretor de cena e uma produtora. Após uma pequena espera, chegou Adrian, o mentor da empreitada.

- Pessoal, desculpem o atraso, vamos embarcar. – disse meu cliente com a objetividade de sempre.

Os rápidos passos de Adrian pelo hangar foram seguidos por mim e pelo pessoal da produção. No caminho, mirei um avião robusto, parecia um jatinho. Pensei: tranqüilo, dá pra encarar numa boa. Mas, meu cliente passou por ele e continuou caminhando em ritmo acelerado. Após este, tinha um menor, suas rodinhas eram pequenas, mas ainda assim contei cerca de 4 janelas, o que indicaria uma capacidade mínima de 8 passageiros. Pra mim ainda estava bom. Mas Adrian mais uma vez passou batido pela aeronave.

A próxima (e única) aeronave na nossa direção era um aviãozinho bem pequeno. Sem exagero: vendo de longe, achei que se tratava de um aeromodelo, um avião de controle remoto. A impressão que se tinha é que se eu abrisse os dois braços, alcançava a mesma envergadura de suas asas. Os passos de Adrian apontavam na direção daquilo que parecia ser um Fusca alado. Não era possível, ele disse que a gente ia de bi-motor e não de caixa de fósforo. Mais alguns passos e meu cliente, como quem sobe num degrau baixo, pisou na asa e abriu a pequena porta lateral do avião. Nunca tinha visto aquilo! Pra subir no avião tinha que pisar na asa.

- Adrian, esse é um monomotor... – disse eu, parando de andar, quase dando passos pra trás.

- O bi-motor teve que fazer uma viagem, vamos nesse mesmo. – disse Adrian, naturalmente, de cima da asa e com a mão na porta aberta.

Antes que eu pudesse dizer algo, a equipe de filmagem, acostumada a voar em qualquer coisa, entrou no aviãozinho. Só sobrou eu do lado de fora e Adrian segurando a porta.

- Vamos, pise aqui e suba! – disse o intrépido empresário.

Estranhamente, a vergonha de correr foi maior que o medo de morrer. Mesmo achando que ali dentro não cabia mais ninguém, entrei no avião.

Dentro, dois assentos virados para dois outros assentos. Na frente, o piloto e Adrian. Parecia um carro realmente, um carro bem pequeno. Não havia qualquer separação entre passageiros e tripulação: esticando a mão dava para tocar a cabeça do comandante. Além do medo daquilo cair, eu ainda tive que enfrentar minha claustrofobia. E, tudo isso, sem poder demonstrar pânico.

Foi então que Adrian resolveu piorar consideravelmente a situação:

- Eu vou comandando. – disse ele, taxativo.

- Não, doutor Adrian. O senhor ainda está aprendendo a pilotar, deixe que eu comando. – respondeu, cauteloso, o piloto.

- Eu comando e pronto. – disse o dono do avião. Com propriedade.

Pensei em fugir. Era o desespero vencendo a vergonha. Mirei a porta, mas, nem como abrir aquilo eu sabia. Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, Adrian ligou o avião e, ao som de um motor super acelerado, a aeronave arrancou em alta velocidade pra frente. Um funcionário do hangar que estava manobrando o avião aos empurrões, dobrou a coluna toda pra trás e a asa passou por cima dele num movimento que me fez lembrar a antiga dança da cordinha do Gera Samba.

- Adrian, deixe o cara pilotar... – balbuciei.

Não houve resposta.

- Você devia ter me avisado que o avião estava acelerado. – disse meu cliente fitando o piloto com olhos de reprovação.

- Doutor Adrian, deixe eu...

Adrian interrompeu o piloto:

- Peça permissão à torre para decolarmos.

O avião foi taxiando lentamente. Lembro de como ele já balançava, ainda em solo, por conta do vento suave que passeava pela pista. Daqui a alguns segundos, se sairmos do chão, vou me sentir dentro de uma batedeira. – pensei.

- PT-JKA: decolagem autorizada. Boa viagem. – respondeu a torre através do rádio.

Deu vontade de pedir para o maldito controlador de vôo definir o que era uma boa viagem.

O avião enfim ficou de frente para a pista. O motor voltou a acelerar, dessa vez, de maneira proposital. À medida em que íamos ganhando velocidade, a fuselagem tremia mais e mais, metais estalavam.

- Puxa o manche! Puxa o manche! – ordenou o piloto ao aprendiz de piloto.

Através da visão que me permitia a minúscula janela e do frio que percorria minha espinha, dei-me conta de que o teco-teco estava ganhando altura. Já não havia mais o que fazer. Apenas tentar manter a calma e torcer para chegarmos logo ao destino. Ou, simplesmente, chegarmos.

- Vamos fazer em 40 minutos... – avisou Adrian, curvando a cabeça sobre o assento do piloto.

Pois acredite: dentro de um monomotor não existe ar condicionado. Pelo menos, neste não existia. O sol de Salvador, para variar um pouco, estava de fazer derreter. E, querendo ou não, voando, estávamos ainda mais perto do astro-rei. O barulho do motor era insuportável, não dava para conversarmos absolutamente nada.

Logo, já não sobrevoávamos mais Salvador: abaixo de nós, apenas a magnífica visão das águas da Baía de Todos os Santos, suas ilhas e vastos coqueirais. Confesso que, diante desta cena única, esqueci por alguns instantes que eu estava dentro de um monomotor pilotado por alguém que supostamente não sabia pilotar. Porém, os vácuos que em aviões maiores são motivos de discretas turbulências, no nosso teco-teco causavam sensação de queda livre e faziam-me voltar à dura realidade.

Começamos a sobrevoar Morro de São Paulo. Ao passarmos próximos ao farol, um dos pontos turísticos do lugar, Adrian virou a aeronave toda de lado e começou a circular a enorme torre sem parar.

- Filma o farol, olha que bonito. – disse Adrian à equipe.

Parecia que, a cada volta, o avião passava mais perto daquela enorme estrutura. Uma asa do avião mirava o chão, a outra, o céu. Segurei-me na parede para não cair para o lado. Diante da proximidade e do risco real que estávamos passando, não agüentei:

- Adrian, o pessoal já filmou. O pessoal já filmou!

O teco-teco foi endireitado e novamente voltou a voar em linha reta. Um pouco mais à frente, estava Boipeba. De cima, o lugar era realmente fantástico.

- Xi, a pista está cheia de bois. – constatou Adrian.

Parecia mentira, mas era verdade. Colocaram um rebanho inteiro para pastar em cima da pista de pouso. Não havia ninguém por perto, nem um vaqueiro sequer que pudesse tanger os bichos para fora dali. O piloto se manifestou:

- Doutor Adrian, só há um jeito: vou dar um rasante na pista para espantar os animais. Por favor, me passe o manche.

Nada mais nesse vôo me surpreendia. A sorte foi que o dono do avião desta vez obedeceu. Com o trem de pouso quase batendo nos chifres dos animais, o piloto conseguiu afugentar a boiada que corria desesperada. Eram os bois e eu, todos morrendo de medo. Com a pista livre, fizemos meia-volta e pousamos. Demorou para eu acreditar que estávamos em terra firme. Ao descer do avião, só conseguia imaginar que horas partiria o próximo ônibus Boipeba-Salvador.

O negócio é o seguinte: agora, terminando de contar apenas a ida, me dei conta de que o texto ficou denso. Não tenho culpa. Se fosse um momento de paixão, casos de rodinhas de amigos, um dia na praia, teria passado rapidinho. Mas, pra quem está no terror, o relógio é cruel, os ponteiros andam com o freio de mão puxado. Sendo assim, vou guardar a volta para o próximo post. Nele teremos a câmera de 25 mil reais sendo naufragada, o aviãozinho versus o coqueiral seguido de um quase-looping, o momento em que eu perdi a compostura e quase perco o cliente e o pouso estilo bola perereca. Aguardem.

22 comentários:

Mari Cassis disse...

Quero saber o resto da história...rsrsrsrs...

Dedinhos Nervosos disse...

ahahhahaha

Paulo, isso é o que eu chamo de um cliente de morte, heim? Deus que me livre de entrar num teco-teco. Numa viagem que fiz a Curitiba, a conexão de SP me colocou num avião menor, daqueles que tem 2 poltronas de 1 lado e 1 do outro, sabe? Eu quase morri de medo! Imagina 1 desses!

Não demora a escrever a volta, heim! Já tô em cólicas de curiosidade! ahahha

Bjos! Bjos! Bjos!

Rueda disse...

mesmo já conhecendo a história eu fiquei me segurando pra não rir aqui no trabalho!

auhahuahuauh!

mto bom!

grande abraço pedrao

Gabriel disse...

so n vai demorar 3 meses pra escrever sobre a volta... TO BE CONTINUED!!!

Gabriel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Laís disse...

Conta logo!!!! E antes que o advogado que divide sala comigo volte de férias e eu não possa ficar dando risada aqui no escritório!

Beijos!!!

Roberta disse...

Peu, não pode demorar de contar o resto... porque a parte da câmera.... é sensacional, quero só ver você descrevendo esta cena..
Hahahaha...
Bjos!

Valéria disse...

Assim não vale Pedro. Me contaram que estava excelente...deixei tudo e fiquei lendo e rindo aqui sem parar e o pior, do lado de fora da sala uma legião de alunos e pais de alunos me esperando pra conversar...mas está maravilhosa e concordo com os demais...escreve logo a volta.
Beijos.

Anónimo disse...

Você é assim pessoalmente? Consegue contar as histórias com toda essa eficiência, misturando o real e o imaginário, aumentando mas não inventando os fatos, deixando sempre um gostinho de quero mais no final? Se a resposta é positiva, estou perdendo tempo aqui lendo seu blogger, seria muito mais gostoso e excitante ter a sua companhia... Onde você mora mesmo?! Bjos

*Larissa* disse...

cenas do proximo capitulo! rs

eu nao voaria num aviaozinho desses nem a pau... moooorro de medo de aviao! os grandes eu encaro, mas os pequenos instáveis... nananinanão!

to curiosa pra saber o resto da história!

beijao

Luciana disse...

Isso aqui tá dando o que falar, hein?

Quero, como todo mundo acima, saber o resto logo.

Meu post está correndo o sério risco de fazer aniversário de 3 meses Peu...mas vamos ver!

Beijão!

DAVID FRANCO disse...

Tá vendo aí, moreno? Não foi tão ruim assim. Vc não foi noticiado por nenhum telejornal.

Fico aguardando a sequência dessa magnífica história: Teco-teco, The Return. hehehe

Abraços

Renata disse...

Peu, impressionamente como parece que os casos mais mirabolantes só acontecem com vc!! E ainda escreveu de uma maneira tão trágica que, em certos momentos, fiquei até na dúvida se vc sobreviveu mesmo ou se virou comida pros peixes da Baía de Todos os Santos!!! rs

Como todos acima, aguardo ansiosamente a segunda parte da história: Teco-teco. A forma mais eficiente de se chegar à terra!!!

Beijos, Gon

Dedinhos Nervosos disse...

Gente, te chamei de Paulo! hahaha
Pedrooooooooooooooo! Pedro! Pedro! Desculpa! É que tme um funcionário aqui chamado Paulo e eu tava imprimindo 1 documento pra ele. Droga! :o(
Bjos, PEDRO! :o)

Anónimo disse...

Assim como todo mundo que aqui, estou mega curiosa para ler a segunda parte. Publica logo!!!!!!!

Anónimo disse...

Realmente as coisas mais mirabolantes so acontecem com vc!!
sensasional como sempre!!!
ESCREVE LOGO O RESTO!!!
Bj Flávia Noya

Pedro disse...

Mari: paciência, Maricota. Logo, logo, publico aqui. Mas tenho uma boa notícia: como você pode perceber, o avião não caiu.
Beijo!

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Anna: pois é, mocinha. Aqui agora só tá faltando uma funerária como cliente. E, se você me chamar de Paulo de novo, te coloco dentro do primeiro teco-teco que eu encontrar.
Beijo!

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Rueda: pois é, você trabalhava aqui quando tudo isso aconteceu e sabe que quase foi privado definitivamente de minha convivência. Por pouco você não está de luto até hoje.
Abraço!

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Gabriel: não vou demorar. A qualquer momento estarei postando. Obrigado pela paciência de sempre. (Botão da ironia ligado no nível máximo).

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Laís: deixe de drama que você é chefe! Pode rir à vontade. Aliás, chefe ri à toa. Rs.
Beijo!

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Ró: não fale assim não. Se o pessoal da produtora ler isso processam nós dois. R$ 25 mil reais indo por água abaixo, literalmente. Foi basicamente um carro sendo naufragado, é mole?
Beijo!

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Val: olha só, se havia uma legião de alunos do lado de fora da sua sala é porque alguém deve estar fazendo campanhas publicitárias de sucesso para a sua faculdade. Rs. Que bom que você gostou da história. Logo, logo, vou publicar a segunda parte.
Beijo!

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Anônimo: é a primeira vez que recebo uma cantada pelo blog e confesso que fiquei desconcertado. Moro em Salvador. Aguardo convite para jantar.
Beijo!

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Larissa: não diga isso. Eu também dizia que jamais voaria num desses e paguei a língua. Aguarde, a segunda parte está saindo do forno.
Beijo!

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Lu: pois é, passou da hora de atualizar o seu blog. Espero que esteja tudo bem por aí!
Beijo.

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David: dei sorte, você e Leandro fizeram a macumba mas o avião não caiu. No fim, ninguém ouviu a vinheta do Plantão da Globo.
Abraço!

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Gon: voar de teco-teco é mesmo aterrorizante. Mas uma coisa eu garanto: sobrevivi. Mas não estou e nem estarei pronto para outra.
Beijo!

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Marta: ô, desculpa, Anna. :P
Beijo!

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Anônimo: já vai, já vai... :)
Beijo!

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Noya: essas coisas sempre aconteciam com a gente. Mas você sumiu e agora só acontecem comigo. Que tal voltar a divide comigo essa sina?
Beijo!

Anónimo disse...

E A CARGA???

Dedinhos Nervosos disse...

Vem cá, essa Marta sou eu?????? Pô, pensei q vc ia me chamar de... sei lá, de Anne, algo assim. Mas Marta??? Gente, que pessoa rancorosa hihih
Bjosss, PEDRO! ;o)

Ps. E vamos deixar de moleza e acabar a história?

Lê... disse...

rsrssssss

Ahh estou aguardando parte final ansiosamente... afinal pimenta no dos outrso é refresco,né??rss

rindo muito aqui...(morro,mas morro mesmo,de medo de avião,a cada voo da-lhe calmantes.rs)

beijão Pedro.

Paula disse...

Pedro, é mais fácil um boi voar do que eu entrar em um avião desse! Definitivamente, não entro, não entro e não entro!

Agora, você passar por toda essa tensão e conseguir contar a história com essa riqueza de detalhes, meu herói duplamente!

beijão

Boipeba disse...

O lugar é lindo, Boipeba é fantástico, Boipeba é maravilhoso, conheci as lindas praias deste lugar e adorei, visitem Boipeba, vale a pena conhecer essa ilha maravilhosa, Em Boipeba não deixe de conhacer o vilarejo de Velha Boipeba.
Vivo aqui em Boipeba,faz cinco anos.