quinta-feira, novembro 20, 2008

Por que não gosto de dormir em outra casa que não a minha.


Quando eu tinha lá pelos meus 8 anos, sempre pedia à minha mãe que me deixasse convidar um amigo para passar o final de semana lá em casa. É aquela coisa: filho temporão, bem mais novo que meus 4 irmãos, àquela altura, todos casados ou morando fora. Sem contar que na minha rua não morava uma criança sequer. Portanto, eu não tinha companhia para brincar. (É de partir o coração, eu sei, mas era a realidade).

Mas, não sei por que, eu nunca aceitava um convite para passar o final de semana na casa de um amigo. Quando isso acontecia, eu tentava persuadi-lo a fazer o contrário e normalmente conseguia. Confesso que eu era uma criança cheia de manias e vontades, desses meninos que merecem uns cascudos de vez em quando e que jamais os têm.

Foi então que Cláudio, um amigo do Colégio São Paulo, me chamou para passar o fim de semana com ele (nota: o texto está ficando estranho, dúbio, mas lembre da inocência que acompanhava a nossa pouca idade). No primeiro momento, tentei convencê-lo a ir para a minha casa. Sem sucesso: ele havia ganhado um Phantom System, o mais moderno vídeo-game daquele momento e jamais sairia de perto do brinquedo.

- Traga o Phantom pra cá! – insisti.

- Não dá. Felipe também está viciado no jogo e meus pais não vão deixar ele ir. – respondeu Cláudio, jogando um balde de água fria na minha tentativa.

Felipe era o irmão mais novo de Cláudio. Infelizmente, vi que desta vez não tinha jeito. E o pior: eu também estava louco pra jogar Phantom System. Inclusive tinham me prometido um destes para o Natal, esperei com a ansiedade de uma criança-cheia-de-manias-e-vontades-e-que-merecem-cascudos e, assim como os cascudos, jamais ganhei o vídeo-game. Não foi por falta de merecimento.

Arrumei uma sacola com umas duas mudas de roupa, escova de dentes, meias, três cuecas pra garantir e constatei que um par de tênis bastava. Ato este que até então era inédito. Para você ter uma noção de como tudo isso era novidade pra mim, durante toda a infância jamais cheguei a dormir uma só noite na casa de minha avó.

- Mãe, estou pronto. Me leve. – disse eu, confiante, metaforizando, dando duplo sentido ao “estou pronto”.

Cheguei na casa de Cláudio e, no primeiro momento, minha atenção estava 100% focada nos jogos do fantástico Phantom System. Ah, que gráficos! Eu podia passar a vida jogando aquilo. Não tinha fome, não tinha sede, não tinha vontade de fazer nem xixi, nem cocô. Por mim, envelhecia diante daquela televisão e seus pixels coloridos e sons futuristas. Depois de muitas batalhas, corridas de Fórmula 1, tiros trocados, conquistas espaciais e lutas com ninjas, chegou o fatídico momento: a hora de dormir.

A mãe de Cláudio me deu uma toalha de banho, gentilmente cedeu a cama de meu amigo pra mim, puxou a bicama e acomodou o desalojado nela. Depois, cobriu com cuidados de mãe Felipe, seu filho mais novo. Era a hora. Um boa noite, a escuridão e um silêncio profundo. O que eu estava fazendo ali?! Demoraria muito para amanhecer, precisava dar um jeito de conseguir dormir. Maldita idéia, maldito vício de vídeo-game. Relaxe, vai dar tudo certo, eu procurava me acalmar.

Pra piorar substancialmente a situação, Cláudio havia me dito que Felipe era sonâmbulo. Antes mesmo de conhecer seu irmãozinho, meu amigo já tinha contado diversas histórias de seu distúrbio em conversas no colégio. E como sou muito curioso, me aprofundava nas perguntas: é verdade que não se pode acordar um sonâmbulo? Ele fica com os olhos fechados ou abertos? Ele tropeça nas coisas? Quanto tempo dura isso? Depois ele lembra de tudo? Dá medo?

- Acho que aquele Alimbinha me deu dor de barriga. Vou no banheiro. – Cláudio interrompeu o silêncio e meus pensamentos de desespero.

Quando o ouvi trancar a porta do sanitário, me dei conta que tinha acabado de ficar sozinho com o sonâmbulo. Um arrepio percorreu toda minha espinha. Os poucos pêlos que tinha nos braços ficaram em pé. Coberto pelo lençol até o pescoço, tomei coragem para virar o rosto e olhar Felipe. Ele dormia tranqüilamente. Apesar desta constatação ter me acalmado por um instante, a diarréia de Cláudio sem dúvidas estava sendo mais sofrível pra mim do que pra ele. Nunca quis tanto ouvir o barulho de uma descarga.

Continuei olhando atentamente para o irmão de meu amigo. Foi então que a paz do semblante de Felipe deu lugar a feições carregadas de ódio. Para o meu mais genuíno pânico, o rapazinho sentou-se na cama, abriu os olhos e me encarou em silêncio. À esta altura, eu apertava com tanta força o lençol que, se ele ainda existir, tenho certeza de que minhas unhas ainda estão lá. Barulho de descarga, por favor, barulho de descarga, eu pensava.

O ódio nos olhos de Felipe começaram a dar lugar a uma ira aterrorizante. E o alvo daquele olhar era eu, somente eu. Não era possível que aquilo estava acontecendo comigo. O garoto então rangeu os dentes e falou devagar, com uma voz que lembrava à da menina do Exorcista:

- Saia daqui....

Eu me tremia, a cama tremia, meus olhos queriam saltar das órbitas, ainda bem que eu tinha levado três cuecas. Após uma pausa, ainda com o olhar fixo em mim, Felipe repetiu, porém, aos gritos:

- SAIA DAQUI!!!

Do salto que dei da cama, não me lembro mais. Mas imagino que eu já deva ter caído fora do quarto, no corredor. Para onde o nariz apontou, corri como um louco. Quando percebi, estava dentro do quarto dos pais de Cláudio. Na velocidade que vim, pulei com tudo na cama do casal, bem no meio dos dois. Eles acordaram com o que eu calculo ter sido um bom susto.

- O que está havendo, menino?? – perguntou a mãe de Cláudio.

- É Felipe, tia. É Felipe... – repetia enquanto, desta vez, apertava o lençol de sua cama.

Ela foi até o quarto onde aquele filme de terror estava se passando. Eu, definitivamente, não queria mais voltar lá, mas o pai dos meninos me expulsou da cama de casal de maneira cordial. Ao entrar no quarto me esgueirando pela parede, ainda troquei olhares com Felipe. A mãe alisava o cabelo daquele projeto de demônio.

- Dorme, meu filho, dorme... – disse a mãe com uma voz doce, contrastando com os sons guturais que o fedelho produzia.

Curiosamente, diante dos afagos, Felipe pendeu o corpo para o lado, fechou de novo os olhos e sua face relaxou dando lugar a uma expressão angelical. Neste momento, Cláudio resolveu sair do banheiro. Eu que tivesse esperado ele terminar de colocar as tripas pra fora.

- O que foi? – perguntou meu amigo ao ver a mãe ajeitando Felipe na cama e eu acuado no canto do quarto.

- Seu irmão ficou sonâmbulo e Pedro se assustou. – disse a mãe, utilizando-se de grande eufemismo.

As coisas se normalizaram: o menino dormiu, Cláudio parecia ter se visto livre do que lhe fazia mal e, quando a mãe nos deu novamente um boa noite com a mão no interruptor de luz, fiquei em dúvida entre duas frases para responder:

- Tia, liga pra minha mãe, quero ir pra casa.

Ou:

- Tia, posso dormir com você?

Não tive coragem de falar nem uma, nem outra. Passei a noite vigiando Felipe e só fui dormir quando ele acordou de manhã me dando bom dia antes de ligar novamente o vídeo-game para jogar.

26 comentários:

Hanne disse...

hahahhahahaa
Muito bom!!!
Mas voz da menina do exorcista eh impossível Peu!!! Coitada da criança!!!
Bjooss menino-amarelo-cheio-de-vontade

Lê... disse...

rsrsrsrss
Muito bom, Pedro!O texto,né?pois a noite imagino que deve ter sido horror...
Mas pelo que vejo desde pequenino és um 'homem corajoso'(rs)nem chamou mamãe e nem foi dormir com titia...rsrs

beijão.

Dedinhos Nervosos disse...

haahahahhaah
Eu tinha morrido do coração, juro! Depois disso vc voltou a dormir na casa de outra pessoa?
ahahah
Bjos!

Ps. Eu adorava dormir na casa das colegas!

rueda disse...

SAIA DAQUI! huahuahuahuahau

MTO BOM!

tu é maluco! Eu nunca iria pro quarto dos pais do mulque ! huahahua


abraçooooooooooo!

Roberta disse...

Hahahahaha... Muito bom!! Eu imagino você em pânico Peu, ainda mais que é todo medroso.. hahahaha
Mas dizer que você era uma criança solitária que não tinha ninguém pra brincar, aí é mentira, sua maior diversão era aprontar comigo.
Olhe que de sonambulismo eu entendo, heinnnn!!!

Bjosss

Dani disse...

Já ia falar do sonambulismo de Ró, mas ela se antecipou.
Tadinho do meu titio...
O povo não entende que vc é um menino criado com vó, com a minha vó! rsrs
Beijoss

Karlinha disse...

Hahaha!Eu, muito pelo contrário, durmo fora de casa desde neném de colo...Só chorava na hora de voltar pra casa!kkkkkkk!
Mas ainda tenho medo de sonambulos!rs!

Marcio disse...

Peu...sinceramente...
Acho que tinha razao para ter medo...este menino eh medium.
E quanto ao lancamento do Phantom...vc tinha mais que 8 anos seu safado!

Paula disse...

ah, eu sempre ia pra casa das amiguinhas! Se bem que tinha uma que o tio era assim um tanto maluco que eu tinha o mesmo medo que vc. Depois de uma única noite ela nunca mais conseguiu me convencer de novo!

Mari Cassis disse...

Tenho uma grande amiga que era sonâmbula...
Mas ela casou e curou...
Beijos

caicko disse...

Oi, Pedro!! Rapaz, preciso registrar aqui que você é o culpado de uma quase-síncope de risos que tive nessa madrugada. Conheci seu blog hoje, por volta da meia-noite e meia, e virei a madrugada rindo alto dos seus (hilários) casos. Parabéns mesmo pela veia cômica, pela ótima e envolvente narrativa e pela escrita impecável. Ganhaste um novo fã. Grande abraço e muitas outras (ins)pirações.

Gabriel disse...

OHH TADINHO DELE TODO MEDROSINHOOO EUHEUHEUHEUHEUHEUH

Eder Galindo disse...

rapá, não sou sonâmbulo. mas, de vez em quando, dizem que costumo conversar em inglês de noite. hehe
além disso, costumo acordar dando risadas. heheehe

abraços!

*Larissa* disse...

ahauhauhauhuaha!!!
Eh sempre uma diversão vir aqui!!!

Sonambulismo é comigo mesmo... sou demais! Pergunta pra Léo boca suja! hahahaha

Bjão!

Pedro disse...

Hanne: é possível sim. Lembra que te falei que jamais tive coragem de assistir ao Exorcista? Pois é, adivinha por que?
Beijo morena!

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Lê: viu só? Até eu fiquei com orgulho de mim. Só você teve sensibilidade suficiente para ver o lado corajoso da história!
Beijo!

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Anna: pois é, só voltei a dormir na casa de alguém muito tempo depois. Naquela fase onde não é exatametne amigo a melhor companhia para dormir. Rs.
Beijo!

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Rueda: você teria ido sim. Se tivesse visto o que eu vi... o menino só faltou girar a cabeça 360 graus em volta do pescoço e soltar um jato de vômito verde.
Abraço!

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Ró: pois é, que injustiça a minha realmente. Nada mais divertido naquela época do que maquinar maldades para aprontar com você. E o seu sonambulismo era muito diferente, só colocava em perigo você mesmo: sair de casa dormindo, sentar numa trouxa de roupa e fazer xixi pensando que era um vaso sanitário...
Só não entendi o medroso.
Beijo!

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Dani: das minhas sobrinhas que têm 23 anos, você é a minha preferida. Portanto, não me queime no blog. Caso contrário, vai perder seu posto!
Beijo!

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Karlinha: temos que analisar este seu caso. Havia alguém em sua casa que lhe causava medo? Ou quando passava Os Trapalhões sua mãe mudava de canal para o programa de Sílvio Santos?
Quanto a ter medo de sonâmbulo até hoje, isso sim é normal. Não há nada mais estranho do que alguém meio dormindo, meio acordado.
Beijo!

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Márcio: acho que você tem razão. Ele estava incorporado. E não quero nem saber que entidade era aquela que não ia com a minha cara.
E quanto ao Phantom... ok, ok, você tem razão. Pode ser Atari? Então esquece os fantásticos pixels e os sons futuristas. Pronto.

Abraço!

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Paula: tenha medo dessa noite, hein? Ainda bem que não voltou mais lá. Tio é sempre um perigo. Xi, agora que lembrei que também sou tio.

Beijo!

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Mari: eu sabia que casamento tinha alguma vantagem...

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Caicko: obrigado pelos elogios, que bom que gostou. Será sempre bem-vindo. Já andei lendo seu blog e saiba que também ganhou um fã já no primeiro post. Muito bom "Verde Menos, Verde Mais".
Nos veremos mais vezes.

Abraço!

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Gabriel: pois é, é genético.

Abraço, perigoso.

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Éder: é inglês americano ou inglês britânico?
Incrível, também costumo acordar dando risada. É o efeito colateral de termos bom humor!

Abraço!

Pedro disse...

Lari: não me diga uma coisa dessas que agora eu também vou ter medo de você...
Léo boca-suja nunca foi parar na cama de seus pais não?

Beijo!

Brisa disse...

Seu blog é muito interessante e viciante!! Me acabo na risada sempre! Relutava em deixar um comentário por não te conhecer, mas este caso também aconteceu comigo, na primeira vez que fui dormir na casa da minha melhor amiga e vizinha, a irmã dela era sonambula e me deu o mesmo susto. Por sorte, morava ao lado e sai desesperada para a minha casa. Abraços!

Anónimo disse...

Olá , Pedro!
Tudo bem?
Lembra-se de mim,da dentista de SP.
Amei mais este episódio de sua vida,olha que suas memórias passarão de 1000 páginas hahaha...
Continue assim,nos divertindo,pois desgraca ,já basta a vida...
Um grande bj,
Carla.

Anónimo disse...

Curiosa como sou, fico aqui pensando quem seria esse tal de "Cláudio"? Vou rever nossas fotos para observar com quem você mais andava... estou adorando esse seu lado redator que não conhecia.
Bjos

Gabriel disse...

Dentista de sp hein?!?!? Miserê!!

Nina Vieira disse...

Adorei o teu blog, blog de soteropolitano (que nem eu, que sou baianinha apesar da cara de inglesa.)
Sim, eu soh tenho 16 anos, mas não creio que escreva tao bem assim, rsrs..
Vc passou lah no blog e eu mudei de endereço.
Vou linkar teu blog, bjao.

Pedro disse...

Brisa: que bom que aparece sempre aqui. E melhor ainda que deixou de relutar em deixar um comentário. Até porque, já não tem mais essa desculpa que não me conhece.
Bom, pelo jeito eu não sou o único que já passou aperto com sonambulismos alheios. Mais uma corajosa pra turma...
Prazer, Brisa.
Beijo.

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Carla: tudo bem, e você? Claro que lembro, minha dentista paulista preferida. Tava sumida! Espero continuar fazendo você rir por muito tempo. Apareça!
Beijo.

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Anônima: agora quem está curioso sou eu. Quem é você, misteriosa colega do Colégio São Paulo? O personagem da história é Cláudio Valverde.
Beijo.

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Gabriel: é, dentista de SP! E respeite seu tio.
Abraço.

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Nina: você escreve muito bem sim. E o mais surpreendente é encontrar alguém com tão pouca idade e em tempos de msn escrevendo assim.
Bem-vinda, nos veremos outras vezes.
Beijo!

Gabriel disse...

porra e essa greve toda de posts eh oq?? quer chegar aos 30 comentarios diga... vei.. a menina so tem 16 cole a sua?? euheuheuheue bem q eu tenho visto seus dentes um tanto qto + brancos... + vc ja contou a ela o medo q vc tem de dentistas?? porra boto fe q rolem algumas boas historias com esse tema ;) NOVO POST LOGO PORRA!!!

Luciana disse...

rsrsrsrs
Gabi encana logo! Não tem respeito certo Tio (nos dois sentidos).

Escreve logo!

Milena disse...

Moreno
tenho q discordar de uma coisa.... vc não era nem um pouco solitário... vivia la no predio na casa de tia Sandra aprontando horrores!kkkk
E por falar em tia Sandra... Eu era igualzinha a vc com esse negoço de n dormir na casa dos outros.... sempre tentava convencer as minha amigas a dormir la em casa.... Pergunte a Tia Sandra o que aconteceu quando eu resolvi dormir na casa dela!! KKKK E olhe que eramos vizinhas de porta!
Bjo
Ximena

Leticia disse...

Legal, isso q eu chamo de inscentivo a dormir na casa das minhas colegas !!