sábado, novembro 01, 2008

Historinhas de propaganda.


Trabalhar com propaganda tem lá seus pontos negativos. Um deles e o que mais me irrita é o fato de todo cliente – aliás, todo mundo que conheço – se achar publicitário. E isso não acontece em nenhuma outra profissão. Pense bem, duvido que você já tenha ouvido alguém dizer numa consulta médica:

- Doutor, eu sei que você prescreveu dose única diária de 20 mg de Pantoprazol pela manhã, mas eu quero tomar 80 mg de meia em meia hora.

Pois em propaganda o cliente insiste em determinar a dose. Aliás, ele sabe escolher até o remédio que vai tomar. Isso quando não já chega com o tratamento todo pronto na cabeça. Quando aparece um desses na agência, me dá vontade de falar para ele em tom profético:

- Levanta-te e anda. Ide, estais curado. Sumíeis da minha frente.

Mas a propaganda também tem o seu lado lúdico que supera em muito as agruras do dia-a-dia. Principalmente para quem trabalha com criação, o que é, graças a Deus, o meu caso.

Quando você inicia sua vida profissional na área, é vítima de uma dezena de trotes. Muitos deles. E, nessa seara, vale ressaltar que falta criatividade aos criativos: entra ano, sai ano, e as pegadinhas continuam as mesmas. Devo admitir que, como estagiário, caí em todas elas.

Eu estagiava como redator da Idéia 3, uma grande agência de Salvador, a mais criativa da época. Para mim era um sonho estar lá trabalhando entre os mais premiados do mercado. A galera era jovem, receptiva e logo me acolheram como o mascote da turma. Mas a minha pouca idade e experiência fizeram de mim alvo fácil para todo tipo de brincadeira. Hiram, um grande diretor de arte e até hoje um grande amigo, era meu principal algoz. Na minha primeira semana, recebi sua primeira incumbência:

- Pedro, você pode ir no estúdio pegar pra mim um carretel de linha de corte? – disse Hiranildo.

Linha de corte nada mais é do que uma marcação que vem impressa no papel para indicar onde a lâmina tem que passar. Ou seja: não existe nenhum carretel de linha de corte.

- Certo, volto já. – respondi com o entusiasmo e a presteza de quem está começando.

Levantei, fui até o estúdio onde umas dez pessoas trabalhavam em clima tenso. Quebrei o silêncio:

- Boa tarde. Por favor, alguém aí pode me dar um carretel de linha de corte? Hiram pediu para eu vir buscar.

Uns quatro arte-finalistas riram baixo e o chefe de estúdio respondeu sério:

- Vá na produção e pergunte onde é a gaveta de retícula em pó. O carretel está lá dentro.

Obviamente, também não existe nenhuma retícula em pó. Fui até a produção e pedi às duas meninas que estavam lá para me ajudarem a encontrar a tal gaveta da encomenda. Uma delas, com um simpático sorriso de canto de boca, me disse:

- Infelizmente tanto a retícula quanto o carretel acabaram de acabar. Um novo lote já deve estar a caminho. Volte aqui amanhã!

E assim, até o dia em que descobri que jamais existiu um carretel de linha de corte, muito menos um saco de retícula em pó, fui fazendo papel de besta e uma verdadeira peregrinação diária aos departamentos da agência.

Um ano depois, fui trabalhar na Propeg. Outra grande agência criativa cheia de criativos premiados. Eram dois diretores de criação: Maurício e Giovanni. O primeiro, o maior nome do mercado à época e também uma criança de quase dois metros de altura, um grande gozador. O segundo, uma fera do marketing político e um sujeito sério para os padrões da nossa área.

Apesar de toda essa aura descontraída que envolve a propaganda, engana-se quem acredita que ficamos horas no ócio até chegarmos a uma idéia brilhante. Muita concentração e centenas de tentativas para se chegar a bons conceitos são a nossa rotina. Portanto, nos lugares em que trabalhei, o silêncio imperava.

E foi na Propeg que dei mais um vexame de recém-contratado. Cheguei lá com uma gripe terrível: tosse de cachorro, espirro, todo tipo de barulho faringolaringopneumológico. Fiquei apreensivo, afinal, apenas meus sons irritantes interrompiam o silêncio sepulcral do lugar. Tentava tossir baixo, não conseguia. Buscava prender o espirro, saía mais alto. De sua mesa, Giovanni me perguntou:

- Ei, Pedro, você está com o quê?

Prontamente levantei da minha cadeira, fui até lá e disse constrangido:

- Gripe forte, Giovanni. Dor de garganta, tosse e tô com um pouco de febre desde ontem.

Ele fez uma pequena pausa e, para delírio dos meus novos colegas, completou:

- Na verdade eu queria saber com que trabalho você está agora em mãos.

Já Maurício era bem diferente. Além de propaganda, tinha outra coisa que ele fazia como ninguém: tirar nosso foco do trabalho. Certas brincadeiras eram marcas registradas suas. Era freqüente ele sair de sua sala e passar por nossas mesas anunciando:

- Pessoal, tô indo ao banheiro, alguém quer alguma coisa?

Quando estávamos quase voltando a nos concentrar, já dentro do sanitário, ele colocava a cabeça para fora e dizia:

- Bom fim de semana a todos.

Após a descarga e sua saída do toalete, já esperávamos alguma manifestação dele:

- Ei, ainda é hoje?

Ou então:

- Quem deixou um chokito no vaso sanitário?

E o pior é que um dia ele realmente se deu ao trabalho de levar um chokito escondido para o sanitário e se divertiu quando uma das meninas constatou o chocolate dentro do vaso, saindo de lá bradando palavras de nojo.

Uma outra vez, logo que eu havia chegado por lá e mal conhecia as pessoas, ele olhou sério para mim e disse na frente de todos:

- Pedro, eu já comi 38 redatores que passaram por essa agência.

Em seguida, pegou um daqueles imãs acolchoados de teto de carro e colocou em cima de minha cabeça. No artefato, a inscrição: 39.

Ok. A gente reclama, reclama, reclama, mas propaganda é algo pra lá de divertido, realizador, uma verdadeira cachaça. Enfim, não é à toa que agüentamos trabalhar até tarde, virar noites, abrir mão de alguns (ou muitos) finais de semana e feriados. Viu que, fora a grana no fim do mês e a diversão, a analogia com a medicina é pertinente?

12 comentários:

Pedro disse...

Desculpem a demora. Esse post é dedicado a todos os meus amigos publicitários, em especial à minha amiga virtual e também publicitária Dedinhos Nervosos que está sempre por aqui.

Dedinhos Nervosos disse...

Ohhhhhh, obrigada, Pedro. Tô me acabando de rir aqui com essas histórias. Sabe que não lembro de nenhuma pegadinha? rs

Mas o clima que reina nas agências não existe em outro lugar, né? A minha é maravilhosa, os colegas de trabalho são demais e agora, então, que temos uma mesa de sinuca, tudo ficou melhor ainda. Bem, na verdade ficará melhor quando eu aprender a jogar de verdade. rs

Bjão e obrigada. Quando tiver sem mtos briefings na mesa, me add: annokas73@hotmail.com

Ainda bem que não sou atendimento, veja essa: http://dezdedinhos.blogspot.com/2007/11/atendimento-sofre.html

Roberto Camara Jr. disse...

E de pensar que eu era da 3ª turma de Publicidade da Bahia...
No tempo em que nos faziam de iô-iô mudando de campus a cada semestre...

Quem mandou eu largar a faculdade...

Abração, moreno!

Lucinha disse...

Passando para conhecer seu blog.. e acabei gostando de como escreve.. Parabéns rsrs.. gostaria de convidar a conhecer meu blog... http://sonhosecarinhosdetimel.zip.net

um lindo final de semana.. beijos carinhosossss

rueda disse...

Muito bom pedrao!

uaHUHAUAH

quem fez uma dessas foi o renato. O chico pergunto, renatao, tá com oq? ele respondeu: to com uma dor na coluna qu ta foda! hauhauhauhhauUHAuhAUHahu

abraçooooooooo

Márcio disse...

Pedro meu velho...o melhor do seu blog é a regularidade...todos os posts são muito bons! Parabéns! Sempre passo aqui para dar umas boas risadas!

Abraço!

Ró disse...

Vixeeee Peu, me identifiquei tanto com este post... hehehehehehe...
Bjos

Lua disse...

Puxa vida! Maldita hora em que desisti da publicidade pra fazer Direito...
=[

Pedro disse...

Dedinhos: que inveja, também quero uma mesa de sinuca. Hiram, o diretor de arte que aprontava comigo, tem uma mesa de sinuca no meio da sala da casa dele. E de ficha! A maior diversão dele é distribuir as fichas para os convidados da casa poderem jogar sem pagar. É mole?
Dei muita risada com seu post. Mas você se saiu bem em nosso maior desafio: aprovar a peça do jeito que a gente acha ser a melhor solução. Boa sorte com as próximas reuniões.
Bjo!

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Robertinho: moreno, que bom que largou! Pense bem, hoje você estaria passando por situações parecidas. É muito melhor conduzir turistas por pontos turísticos de nossa cidade, belas praias, ser assediado por gringas e ainda ganhar em dólar e euro. Ô Robertinho, não reclama.
Abraço!

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Lucinha: obrigado pela visita. É sempre bem-vinda.
Bjo.

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Rueda: boneca de Olinda me contou. Já dei muita risada. Só podia ser Renatinga.
Abraço!

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Márcio: Obrigado! Fico feliz que esteja gostando. Como bom publicitário você também já deve ter passado por poucas e boas. Espero que esteja tudo bem aí do outro lado do Atlântico.
Abraço!

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Ró: pega pra mim uma régua de medir fonte? Serve também um programa de fazer título. Rs
Bjo!

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Lua: ainda dá tempo. Criatividade pra isso você tem.
Bjo!

Personagem Principal disse...

Excelente texto o quê, rapaz? Parece até que eu copiei a propaganda do Serenata do Amor! Rs... mas juro que nunca tinha visto.
Bjs.

Evandro Varella disse...

Pedro,
Obrigado pela visita e pela bela oportunidade que me deu de conhecer teu blog!
Genial... Parabéns.
Se não se importar vou te linkar, pois a exemplo das amigas Lilian e Paula, pretendo estar sempre por aqui.
Abraços
Vavá

guerrinhas disse...

Fala Pedroooooooooo.
Teu blog, juntamente com os jornais do dia, já faz parte da minha leitura diária.
E apesar de tamber ter sofrido alguns trotes lá na Propeg, jamais o Mauricio disse q me comia...talvez não goste de carne portuguesa!rsrsrs

Abraçooooooooo