quarta-feira, fevereiro 18, 2009

- Cadê o Menino Jesus do meu Santo Antônio?

“No Brasil, muitas moças afoitas por encontrar um marido costumam retirar o bebê dos braços das estátuas de Santo Antônio, prometendo devolvê-lo depois de alcançarem o seu pedido. Por esse motivo, alguns párocos mandavam fazer a estátua com o Menino Jesus preso ao corpo do santo, evitando assim o seu seqüestro.”

– Wikipédia.


Há mais de 10 anos sou devoto de Santo Antônio, o glorioso santo português. Fato este que, quando descoberto por amigos, automaticamente traz a reboque uma pergunta:
“você quer casar, é?”. Antes que você também pergunte, já vou respondendo: não é por desespero de subir ao altar que sou devoto deste grande intercessor dos céus. Até porque, há 10 anos atrás eu tinha 20 anos e a última coisa que eu pensava àquela época era casamento. Quem sabe daqui a uns 5 anos, se eu ainda não estiver casado, minha devoção não ganha um novo viés?

O fato é que nunca se ouviu dizer de alguém que tenha recorrido a este poderoso santo e tenha sido esquecido. Abandonando a riqueza e dedicando-se à caridade, sua breve vida na terra foi marcada por inúmeros milagres. Entre eles, a visão que um conde que hospedava Santo Antônio teve: curioso para ver o famoso frei orando, o nobre, espreitando através de uma fresta que existia na porta do seu quarto, assistiu maravilhado ao cômodo inteiro resplandecer e Nossa Senhora, cheia de júbilo, entregar nas mãos do santo o Menino Jesus.

É por isso que, em quase todas as representações de Santo Antônio, ele está carregando no colo uma criança. Sendo assim, acho inconcebível que alguém, hereticamente, separe os dois para arrumar um namorado, um noivo ou algo do tipo. Principalmente se isso for feito em alguma de minhas imagens deste grande protetor dos pobres.

Pois chego eu em casa esta semana e, ao entrar no meu quarto, notei algo de muito estranho: o meu mais valioso Santo Antônio – valioso por ser antigo e mais valioso ainda por ter pertencido à minha avó – de costas, virado para a parede. Na mesma hora lembrei que esta era uma das inúmeras simpatias que as pessoas costumam fazer para desencalhar. Resumindo, ou algum espírito de porco resolveu fazer piadinha comigo ou aquilo era obra de uma das 4 mulheres de minha casa – todas solteiras.

Segurei no aveludado hábito azul da imagem e virei o santo para a sua posição original. Quando ele estava de frente pra mim, o susto aumentou: o Menino Jesus havia sumido das mãos de Santo Antônio. “Alguém está desesperado, fez duas simpatias ao mesmo tempo para garantir o fim da solteirisse”. – pensei.

Fiquei angustiado. Onde estaria a bela imagem da criança? Será que caiu no chão? Será que quem escondeu lembra onde colocou? A vontade que eu tinha era de acordar todo mundo para perguntar sobre o paradeiro do Menino Jesus. Mas eram 3 da manhã de um dia de semana. E o pior é que eu não iria conseguir dormir fácil, estava perturbado com a história. Revirei meu quarto do avesso e nada.

De repente, ouvi um barulho no banheiro do corredor. Corri para a porta e fiquei esperando a ocupante do lugar sair. Era minha irmã.

- Lica, por acaso você pegou o Menino Jesus de meu Santo Antônio? – perguntei.

Pela cara que ela fez de “não entendi nada”, automaticamente a isentei de qualquer culpa. Procurei explicar:

- Cheguei no quarto e encontrei o santo virado para a parede e sem o Menino Jesus nos braços. Alguém aplicou no santo, de uma só vez, duas simpatias de casamento.

Ela disse que não era a responsável pelo sumiço e que também achava difícil que tivesse sido Simone, nossa outra irmã.

- Ontem eu vi a gata andando por esta prateleira. Será que ela esbarrou nele? – disse Livinha enquanto analisava a cena do crime.

- Sua gata é esperta, Lica. Mas não o bastante para fazer simpatias. Agora falando sério, será que ela engoliu o Menino Jesus? – cogitei o pior.

- Não, não, deve estar por aqui em algum lugar. – respondeu Livinha, tentando evitar que eu dissecasse a barriga de seu animalzinho.

3:30 da manhã e a gente arrastando cama, criado-mudo, armário; remexendo livros e mais livros na prateleira. Nada da pequenina imagem. Antes que todos os vizinhos do prédio nos linchassem, resolvemos dormir e continuar a busca no dia seguinte. Deitei e, antes de pegar no sono, fiz uma prece, pedi para que meu santo advogasse em causa própria:

- Poderoso e fiel Antônio, guardião de todas as horas, meu prodigioso intercessor junto a Deus, rogo-te: vós que sempre encontrais o perdido, clareais o oculto e que me fazeis orar no presente do indicativo, ajudais no reaparecimento da imagem do amado Menino Jesus. Que ainda esta manhã Ele apareça e volte definitivamente para vossas mãos. Amém.

Acordei e, antes mesmo de tomar banho e escovar os dentes, corri até a cozinha em busca de notícias do bem-aventurado filho de Maria. Ao perguntar se alguém tinha encontrado a imagem em algum lugar, todos riram: Rosa, a jovem e tímida empregada da casa, no dia anterior foi limpar meu quarto e encontrou o Menino Jesus entre o colchão e a lateral da cama. Pensando ela que se tratava de uma simpatia minha, arrumou a cama e, cuidadosamente, recolocou a pequena imagem embaixo do colchão. Afinal, macumba e simpatia há de se respeitar.

Como ninguém assumiu a autoria do seqüestro do primogênito de Deus, nos restou aceitar a teoria da gata andando pela prateleira, girando a imagem ao passar por ela e derrubando o Menino Jesus entre o colchão e a cama.

Acaso? Um sinal dos céus? Prenúncio divino de um desencalhe? Não sei. De qualquer modo, fica a minha particular leitura do ocorrido: hoje em dia, o que não faltam por aí são gatas doidas pra casar. De quatro patas ou duas pernas.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O sultão e seu trono.

Existe um bloco de carnaval aqui em Salvador chamado Harém. Olha só o nome: Harém. Admito que a idéia, o conceito que os caras criaram, é genial. Eu ainda não sou pai, nem nome pra minha filha eu tenho, mas, quando ela nascer e ficar mocinha, acreditem, ela jamais vai sair no Harém. Eu não vou deixar.

O lance é o seguinte: as menininhas bonitas de Salvador são convidadas para sair no bloco. De graça. Uma semana ou duas antes do carnaval elas são tatuadas com aquela tatuagem tipo de chiclete com a seguinte mensagem: “Princesinha do Harém”. Um negócio bizarro, gigante, bem no meio do braço. As mulheres ficam marcadas como gado depois de ferrado. O abadá só é dado no primeiro dia de carnaval. Ou seja, se a garota tirar a tatuagem um dia antes, já era, nada de festa.

Isso tudo é uma estratégia e tanto. Os marmanjos vêem as gatinhas na rua e pensam: “nossa, ela vai sair no Harém. Tenho que sair também”. E aí, meus amigos, pra homem não tem moleza, tem que pagar pra ter um dia de sultão.

Confesso que se eu fosse mulher ia me sentir um tanto quanto prostituída. Estaria ali de graça apenas para servir de isca pra um monte de tarado. Mas enfim, carnaval é festa do coisa-ruim. Peço até licença para uma súplica: Senhor, me ajude a ter dinheiro para mandar minha filha pra Disney, Europa ou Austrália toda vez que o carnaval chegar. Também, se as cifras não forem suficientes, Ilha de Itaparica está servindo.

Tá bom, não vou cuspir no prato que comi e venho comendo desde dezembro. Aos domingos deste nosso verão acontece o Ensaio do Harém e eu, como solteiro que estou, tenho ido a todos. Todos. Os seguranças da entrada nem me revistam mais. Quando eu apareço com a ficha na mão, a mulher do bar já se antecipa: “- Seu Pedro! A Smirnoff Ice de sempre?”. Sem contar que eu já decorei a ordem de todas as músicas do repertório e até mesmo as piadas sem graça do tecladista da banda.

O lugar é bem legal, no meio de uma floresta. O palco fica no centro, de maneira que ele não tem nem frente, nem fundo, nem lados. Ou seja: onde quer que você esteja, está sempre diante da banda. As mulheres da festa são realmente bonitas. A esmagadora maioria usa salto bem alto, maquiagem carregada com um contorno prateado nos olhos estilo “Blade Runner” e a saia mais comprida que eu vi por lá é menor que qualquer cinto meu. Mas, não chega a incomodar.

Meu companheiro de todos os ensaios do Harém é Pablo. Pablo, pra quem não conhece, é um sujeito de fala mansa, palavras poucas e pensadas, observador, movimentos e gestos lentos. Durante a festa, a cada 10 minutos, ele obedece ao seu sagrado ritual de ir buscar uma cerveja no bar. Esse é o momento em que costumamos nos perder um do outro.

Foi num desses dias de desencontro que, pela primeira vez, eu me compadeci de Pablo: ao final da festa, nos reencontramos perto do portão de saída. Ele estava pálido, fantasmagórico, olhos arregalados, andava a passos curtos. Cheguei a pensar que ele estava com hemorragia interna.

Meu companheiro de farra aproximou-se de mim e, próximo a meu ouvido, sussurrou:

- Peter... estou com dor de barriga.

Tinha tudo para ser engraçado, para eu dar uma gargalhada na cara dele, mas não. Por um instante, me imaginei nesta mesma situação e pensei o quanto seria caótico estar em meio a uma multidão, cercado de meninas bonitas, um monte de gente conhecida e simplesmente não ter um banheiro decente para resolver este tipo de problema.

Segurei forte em seu braço. Fiquei em silêncio como quem recebe uma notícia trágica. Eu precisava pensar. Mas Pablo não tinha tempo, seu corpo havia entrado numa guerra dramática contra ele:

- Peter... vou ter que ir ao banheiro químico. – disse o pobre rapaz com a voz sumindo aos poucos.

- Não! - respondi taxativo.

Ir a um banheiro químico, num ensaio de carnaval, bem no fim da festa? Eu não podia deixá-lo perder a dignidade daquele jeito.

- Agüente firme. – disse enquanto puxava Pablo pelo braço em direção à saída.

Ele parecia ancorado no chão, arrastava-se a passos pausados. Vivia um esforço sobre-humano de concentração para evitar o pior. Como se não bastasse a situação, todo mundo caminhava em ritmo de passeio dominical. Íamos os dois em zigue-zague passando pelas pessoas, torcendo para não encontrar ninguém conhecido – não havia tempo para um cumprimento sequer.

Lembrei que havíamos estacionado longe. Vez ou outra Pablo soltava um gemido quase mudo enquanto claudicava. Nessas horas, eu imaginava: “será que aconteceu?”. Ele negava. Quando chegamos no carro, Pablo balançou negativamente a cabeça e disse:

- Não vai dar. Vou no mato.

O mato ao qual ele se referia era nada menos que uma mata virgem, fechada, impossível de entrar. Em qualquer outro lugar, ele ficaria visível para aquela multidão que caminhava para seus respectivos veículos. O cara é um empresário, imagina se um cliente dele o visse nessa deplorável situação.

- Pablo, segure mais um pouco. Vou tirar você daqui... – tentei animá-lo.

Ele entrou mudo no carro, sentou-se com um cuidado maior do que se estivesse sentando numa caixa de ovos. Arranquei com o carro como se o pobre coitado fosse um off-road. Ignorei o terreno acidentado e saí arrastando o assoalho nas inúmeras raízes das árvores que circundam o lugar. Porém, logo à frente, antes mesmo da saída do estacionamento, a má notícia: engarrafamento. Provavelmente, com tanta cachaça na cabeça, muitas pessoas perderam o ticket que liberava a saída do carro. Pablo olhou para mim e, num tom de súplica, pediu:

- Deixa eu ir no mato...

- Tente se acalmar, a gente vai sair daqui já, já. – os carros começaram a andar lentamente e eu completei. – não disse? Tá saindo...

Pablo conseguiu buscar uma ponta de presença de espírito:

- Por favor, não diga que está saindo. A qualquer momento pode sair mesmo.

Com essa discreta mudança de humor, imaginei que meu amigo estivesse numa entre-safra das cólicas que retorciam suas tripas. O engarrafamento ainda durou um pouco e, homeopaticamente, o trânsito foi começando a fluir.

Confesso que eu estava morrendo de medo do trabalho ser realizado no banco do meu carro. Mas, amigo que é amigo não deixa o outro aliviar-se no mato, tampouco num banheiro químico de fim de festa. Movido tanto pelo receio de ter que trocar o estofamento quanto pela boa ação do dia, acelerei como um alucinado na Avenida Paralela. Fui rezando para não encontrarmos uma blitz pelo meio do caminho. Já pensou? Ao mesmo tempo, um multado e o outro cagado.

- Pra onde você está me levando? – perguntou Pablo, quase afônico, enquanto costurávamos por entre todos os carros da rua.

- Pra minha casa. Lá tem vaso sanitário limpo. Tem papel higiênico. Tem chuveirinho. Tem dignidade. – respondi.

- É longe... – suspirou Pablo.

- Calma. Agüentou até agora, agüenta mais um pouco. Força. Quer dizer, força não.

A cada curva, a cada lombada, sons originários das entranhas de meu amigo denunciavam que o parto era iminente.

- Segura, Pablo! – disse eu, tentando salvar meu carro.

Já cheguei na guarita do meu prédio disparando a buzina. Era o medo do terrível efeito psicológico que a proximidade com o vaso sanitário costuma produzir. A partir dali era questão de segundos. Portão aberto e entrei como uma flecha na garagem. Após estacionar, corri em direção ao elevador. Foi então que notei que Pablo não tinha saído do carro. Voltei lá rapidamente e me deparei com ele segurando firmemente no descanso de braço da porta, o pescoço duro.

- Não consigo levantar... – confessou Pablo.

- O que houve? Vazou?! – perguntei, morrendo de medo da resposta.

- Não, mas se eu levantar pode acabar vazando. – respondeu Pablo, cheio de sinceridade e pragmatismo.

Abri a porta e, com muito jeito e cuidado, o ajudei a levantar. A amplitude e velocidade dos seus passos lembravam os de um senhor de 90 anos, no mínimo. Fui na frente e abri a porta do elevador para adiantar as coisas para meu amigo. Sorte que moro no primeiro andar!

Após eu apertar a campainha sucessivas vezes, abriram a porta.

- Pablo! Que surpresa boa, meu filho... – exclamou minha mãe, braços abertos e uma vontade de conversar que lhe é peculiar.

O pobre coitado mal conseguia levantar a mão para um discreto aceno.

- Mãe, Pablo não está passando muito bem, ele precisa ir ao banheiro. – procurei salvá-lo.

Imaginando que todo aquele pesadelo estava terminando, o debilitado rapaz mal chegou à porta do lavabo e foi surpreendido:

- Nesse aí não, Pablo! Está sem água. – disse minha mãe, trazendo ainda mais desespero para quem já estava seriamente desesperado.

Pablo girou o corpo com grande esforço e foi caminhando lentamente para o corredor dos quartos. Passou por Livinha, minha irmã, deu um imperceptível e monossilábico “oi” e girou a maçaneta que descortinaria pra ele o milagre que era, àquela altura, um vaso sanitário e seus acessórios.

- Pedro! Leve ele pro seu banheiro. Esse aí está uma bagunça terrível. – dessa vez foi minha irmã quem deu fim ao sonho de Pablo.

Meu caro e já esgotado amigo olhou para Livinha e minha mãe, retirou de dentro de si o último suspiro de que era capaz de dar e, com as mãos levemente em prece, implorou:

- Por favor, pessoal... qualquer um... qualquer um...

Tirando uma freada de bicicleta na cueca, Pablo conseguiu chegar intacto até o vaso. Pelo menos, é o que ele conta. Não sei, nunca vou saber. Mas, uma coisa eu asseguro: se alguém próximo a você estiver com dor de barriga e quiser fazer no mato, deixe. Se quiserem fazer no banheiro químico do carnaval em plena quarta-feira de cinzas, deixe. Pelo bem do seu banheiro.

domingo, janeiro 25, 2009

Teco-teco. A forma mais eficiente de se chegar ao céu. (Parte II)

Pois bem. Logo, logo, percebi que não havia nenhuma linha de ônibus até Salvador e que, em algumas horas, enfrentaria todo o terror de novo. Boipeba é um lugar inóspito, uma pequena vila no meio de um paraíso difícil de descrever. Desses lugares cheios de pousadas de alemães, franceses, italianos e paulistas: pessoas que chegaram lá para visitar e resolveram deixar tudo para trás em troca de um pouco de paz e sossego.

Sair de dentro daquele forno que era o teco-teco e receber o carinho da brisa no rosto em meio ao coqueiral, era simplesmente uma bênção. Andamos todos, Adrian, piloto, equipe de filmagem e eu, e chegamos até um píer no rio onde uma pequena lancha nos aguardava. Embarcamos e fomos navegando em águas calmas, a inacreditável paisagem descortinando-se aos poucos diante de nossos olhos. Cheguei a me perguntar se o aviãozinho não havia caído: vendo o lugar à minha volta, parecia que eu tinha passado desta para uma melhor.

- Doutor Adrian, onde vamos? – perguntou o marinheiro da lancha.

- Vamos começar pela pousada de Giancarlo. – respondeu Adrian.

Era o início de uma agradável peregrinação entre pousadas e praias divididas entre rio e mar. O cinegrafista não desligava a câmera um só instante. Tamanha beleza, muitos eram os lugares para se apontar as lentes.

A última parada foi uma pousada que realmente me surpreendeu. Se eu não tiver grana para passar a lua-de-mel no Tahiti, tenham certeza: é na Alizées Moreré que vou encomendar meu herdeiro. O simpático dono do lugar nos convidou para almoçar e, como bom francês, foi pessoalmente até a cozinha preparar nossos pratos. À sombra da vegetação local, entre jaqueiras e mangabeiras, ao som ambiente de variados cantos de pássaros e espaçadas ondas do mar quebrando na areia, tomamos algumas cervejas e almoçamos.

O marinheiro da lancha, um jovem nativo de Boipeba, estava presente na mesa e eu notei que ele bebia com certa empolgação. Como ainda não existe blitz do bafômetro no mar, pra mim estava tudo certo, não dei muita atenção.

- Pierre, nos acompanha na lancha até o criatório de ostras? –Adrian fez o convite ao nosso anfitrião.

Imagine que no meio do rio existe esse criatório de ostras. Ao chegar lá, um sujeito mergulha e traz a iguaria pra você, fresquinha. Vida chata, não? Infelizmente, não foi possível conhecer o lugar: quando imaginei que o teco-teco era a maior ameaça às nossas vidas, chegou a vez do mar e do nativo fazerem a sua parte.

Ao entrarmos de novo na lancha, lembro do cinegrafista perguntando:

- Vai molhar? Essa câmera não pode receber respingos...

- Não, daqui até lá teremos poucas ondas. – respondeu o jovem marinheiro.

Então, o cinegrafista ligou de novo a câmera e passou a registrar o cenário – insisto no adjetivo – indescritível. Para ter uma visão privilegiada, fui até a frente do barco e fiquei de pé, pensamento perdido em algum canto, apenas observando centenas de cartões postais fora do papel. O resto do pessoal viajava sentado no banco em formato de meia-lua que havia no fundo da lancha.

Eufórico, o marinheiro falava sem parar e ia conduzindo o barco olhando para trás enquanto conversava com os outros passageiros. Quando chegamos próximos à entrada da barra que liga o mar ao rio, as águas começaram a ficar levemente convulsas. Logo mais à frente, água doce e água salgada pareciam não entrarem em acordo: juntas, formavam nervosas e perigosas ondas. Não me preocupei, afinal, estávamos sendo conduzidos por um nativo, alguém que supostamente conhecia com exatidão as armadilhas do lugar.

Com considerável velocidade, nos aproximamos das vagas em fúria. Imaginei que logo o marinheiro reduziria o ritmo para vencermos as ondas com tranqüilidade e segurança. Ledo engano. Só houve tempo para um breve e inútil grito meu:

- Olha a onda!

Do jeito que viemos, saltamos uma verdadeira rampa d´água. Casco e motor ficaram completamente fora do mar. Em milésimos de segundos, ainda com a lancha em pleno vôo, percebi o movimento da proa inclinando para frente. Era um sinal claro de que a lancha iria embicar e o impacto seria exatamente onde eu estava. Tentei correr para a popa, mas só deu tempo de me virar. Quando o bico do barco afundou na água, um verdadeiro turbilhão atingiu minhas costas me lançando com força para o banco do fundo, bem em cima do francês. E o cara nem fazia o meu tipo.

O estrago foi grande. A lancha estava inteiramente inundada. Para quem estava sentado, a água ficou na altura do peito. Tirando o meu celular que estava dentro de uma mochila, àquela altura boiando, todos os outros celulares foram definitivamente inutilizados. Meu joelho doía muito por conta de um impacto em algum lugar, provavelmente no próprio Pierre.

Após nos certificarmos de que todo mundo estava bem, presenciamos uma cena que emudeceu a tripulação por uns 5 minutos: o cinegrafista, desolado, elevando lentamente a câmera que estava totalmente submersa na água salgada. Uma câmera de 25 mil reais, provavelmente mais cara que a embarcação quase naufragada. Se tivesse morrido alguém ali, o diretor de filmagem não teria feito uma cara tão feia quanto fez ao ver a água jorrando de dentro do seu equipamento como se ele fosse um regador.

A lanchinha iniciava um processo irreversível de naufrágio enquanto o marinheiro, agora desesperado, acelerava ao máximo o motor. Mesmo assim, o barco deslocava-se lentamente, arrastando-se por conta do peso da água. E cada vez mais o casco ia sumindo. Eu já estava preparado para nadar, a mochila estrategicamente colocada na cabeça.

Quando tudo parecia perdido, conseguimos chegar à praia. O barulho do fundo do barco encalhando na areia era música para nossos ouvidos. Saltamos todos. Numa tentativa desesperada de salvar a câmera, a equipe de produção saiu correndo alucinada em busca de um pedaço de pano seco. Em meio a palavras duras, Adrian não perdoava o marinheiro que mal conseguia responder, escabriado pela própria irresponsabilidade e desolado pelo prejuízo que sofrera.

O francês despediu-se de nós, arrumou uma outra lancha e voltou para sua pousada – o coitado só pegou uma carona pra perder o celular. Nós também arrumamos uma outra lancha e voltamos para o aeródromo. O clima na equipe de filmagem não era dos melhores, o silêncio era incomodativo. Talvez isso tenha tirado um pouco o foco do desespero que precederia meu embarque.

Assim como na ida, adivinha quem foi no comando? Ele mesmo, Adrian, o aspirante a piloto, alguém com, no máximo, uma dezena de horas de vôo. A pista era uma atração à parte: após sua cabeceira, havia um curto coqueiral e logo mais vinha o mar e seu azul sem fim.

Todos de volta ao forno voador, taxiando mais uma vez para iniciar o processo de decolagem. Com certa dificuldade, Adrian alinhou o aviãozinho na pista e, segundos depois, acelerou forte o motor. O bicho foi ganhando velocidade e então saiu do chão cerca de 1 ou 2 metros apenas. Manteve essa ridícula altitude por um bom tempo e eu comecei a ver a pista ficando curta. Pensei que o teco-teco apresentava algum problema e não estava conseguindo ganhar altura.

- Adrian... – sussurrei.

Através do pára-brisa do piloto eu via a copa dos coqueiros se aproximando rapidamente. E mais perto. E mais perto.

- Adrian... – sussurrei um pouco mais alto.

Chegou um momento em que quase dava pra ver uma formiga andando em cima do coco. Aí não consegui mais segurar:

- ADRIAN! VAI BATER! #@$%*&! – utilizei cerca de 2/3 de todo o meu vocabulário de xingamentos.

Ao praticamente beliscar as palhas do coqueiro, Adrian puxou o manche todo e, ao som de uma gargalhada alucinante do desajustado empresário, o avião bruscamente iniciou uma subida a 90 graus do chão. Tratava-se de uma “brincadeira” de nosso “amigo”. Durante esta manobra, percebi que havia deixado meu estômago na pista. Mas meu pulmão decolou comigo - e ele gritava alto. Um misto de barulho infernal de motor de teco-teco, gargalhadas de Adrian e um ininterrupto brado meu. Foi assim o início da viagem.

Mesmo com o calor que fazia dentro do teco-teco, eu suava frio. Pense bem: se essas mini-aeronaves costumam cair por qualquer coisa, imagine quando alguém que está aprendendo a pilotar resolve fazer acrobacias. Meu cliente, experiente como ele só, caiu na besteira de acreditar que era piloto da Esquadrilha da Fumaça. O avião ainda subia verticalmente em alta velocidade quando eu tentei descolar minhas costas do assento e, segurando com dificuldade na cadeira da frente, me aproximei de Adrian.

- Adrian, ainda vamos continuar subindo assim por muito tempo? – disse eu, polidamente, tentando evitar que entrássemos em órbita.

- Pedrinho, meu querido, volte para o seu lugar. Assim você me desconcentra. – respondeu o inglês.

Obedeci. Não me restava fazer muita coisa a não ser rezar, pedir perdão pelos meus poucos pecados e assistir ao clássico filminho da vida que costuma passar diante dos olhos de quem vive seus últimos instantes.

De repente, o teco-teco endireitou-se e voltou a voar na horizontal. Sorte que, justamente pensando na volta, eu não abusei do delicioso almoço. Sorte! À esta altura, estaria escrevendo “A fantástica história da mala de cocô II”.

Quando nos aproximamos da pista de pouso do aeroporto de Salvador, iniciou-se mais uma surreal discussão:

- Doutor Adrian, por favor, me passe o manche para eu pousar. – disse o piloto.

- Não, eu vou pousar. – respondeu Adrian, taxativo.

- Mas doutor Adrian, o senhor ainda não sabe pousar. – o piloto tentou dissuadi-lo da catastrófica idéia. Literalmente catastrófica.

- Eu vou pousar, já disse. Vá me dizendo o que fazer. – Adrian encerrou a discussão.

Pelo menos o avião vai cair em Salvador. – pensei. Eu já não tinha sequer mais forças para entrar em qualquer discussão com Adrian. Tentei minha última cartada. Cutuquei o diretor de filmagem que estava ao meu lado e falei:

- Ó, ele está querendo pousar o avião...

Foi uma tentativa de fazer com que o cara reagisse. Uma forma de dizer: é melhor você fazer alguma coisa, amigo... vamos morrer. Só que o sujeito ainda estava entorpecido pela perda de sua câmera. Acho que ele nem se importaria se o teco-teco se espatifasse no chão: já tinha perdido a câmera dele mesmo, o que seriam mais 6 vidas?

Diante do silêncio do rapaz, só me restou acompanhar o avião fazendo zigue-zague enquanto buscava alinhar-se com a pista. O piloto ia ajudando:

- Vira para a esquerda, vira para a esquerda... não, não, passou do ponto... vira para a direita, vira para a direita. Pra direita, doutor Adrian!

Torre de controle, estacionamento, hangares de carga, aviões estacionados. Adrian apontava a frente do avião para todos os lugares, menos para a pista.

- Está muito rápido, doutor Adrian. Reduz a velocidade! Não, doutor Adrian, reduziu demais, acelera, acelera.

Engrenei um Pai Nosso seguido de uma Ave Maria. Metade da pista já havia passado embaixo de nós e Adrian não conseguia fazer o avião descer. De repente, pelo som do motor em baixa rotação, percebi que meu cliente havia desacelerado bruscamente o teco-teco numa tentativa desesperada de fazê-lo pousar. Foi então que, há uns 10 metros do chão, o aviãozinho desceu que nem uma pedra. Quando as rodinhas bateram na pista o impacto foi tão grande que achei que nossa latinha voadora iria se desmantelar. Assim como a minha coluna: deu pra ouvir umas 2 vértebras estalando.

Estranhamente, o avião subiu de novo. Ficou mais uns 3 segundos no ar e voltou a descer com tudo novamente. Mais um impacto e mais um desvio em minha escoliose. Mais uma meia-dúzia de vezes subimos e descemos como uma bola quicando até os dois conseguirem fazer o maldito teco-teco parar.

- Doutor Adrian, com todo o respeito: a torre deve estar pensando que eu estou bêbado. – deixou escapar o piloto.

O documentário jamais foi editado: as fitas ficaram inutilizadas pela água do mar no naufrágio da câmera. A produtora perdeu seu equipamento mais valioso. Eu não saí no Jornal Nacional. Aí você me pergunta: então todo esse terror serviu pra quê? Serviu para eu descobrir que, ao contrário do que nos ensinaram, o paraíso é na terra e o inferno certamente é no céu.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Teco-teco. A forma mais eficiente de se chegar ao céu.


Há tempos atrás, escrevi “A fantástica história da mala de cocô” e publiquei aqui no blog. Comecei falando da beleza que era Boipeba, indiquei como um destino especial para uma viagem a dois e contei a saga que nosso piloto certa vez enfrentou por conta de uma dor de barriga em pleno vôo. Mas, eu não havia contado os detalhes desta viagem, o desafio que foi até chegar àquele paraíso, o fatídico retorno a Salvador, a sensação de morte iminente e a minha certeza absoluta e incontestável de jamais voltar a embarcar em um teco-teco enquanto for vivente.

Vamos lá. Um cliente meu, dono de um táxi aéreo, solicitou à nossa agência a criação e acompanhamento de produção para um documentário sobre Boipeba. O material seria distribuído em agências de viagem que venderiam pacotes turísticos do destino e, com isso, esperávamos aumentar o número de vôos da empresa para o lugar. Até aí, tudo bem. Mas Adrian, meu cliente, me veio com uma exigência inegociável:

- Além da criação do roteiro, quero que você acompanhe pessoalmente a produção do VT. Decolamos na próxima quinta às 7 da manhã.

Eu nunca quis voar em avião pequeno. Quantas vezes já ouvimos William Bonner e sua esposa noticiando no Jornal Nacional: “monomotor cai na região tal e mata o piloto e dois passageiros”? Só dá isso na televisão: dólar subindo e aviãozinho caindo. Cada vez que a bolsa cai, mais uns dois desses acompanham. De estalo, lembrei que minha jornada na Terra tinha apenas começado, que eu ainda tinha muito o que viver:

- Adrian, sinto muito, de monomotor eu não vou.

Adrian, um inglês irrequieto, empresário de muitos negócios, me respondeu com seu jeito ansioso e usual tom de voz alto:

- Pedrinho, meu querido, a gente vai de bi-motor. Não tem com o que se preocupar.

Fiquei um pouco mais tranqüilo. Sempre ouvi dizer que quando um dos motores de um bi-motor pára, o outro segura o avião no ar. Procurei puxar da memória o histórico de tragédias com pequenas aeronaves e lembrei que pouco ouvi falar sobre quedas de bi-motores. É, o problema era realmente com os monomotores.

O dia da filmagem chegou. Acordei bem cedo, levantei da cama, olhei a imagem de Santo Antônio na estante, pedi a ele que mantivesse voando qualquer pedaço de aço que cruzasse o firmamento aquele dia, fiz o sinal da cruz e me mandei para o aeroporto. Chegando lá, encontrei o cinegrafista, o diretor de cena e uma produtora. Após uma pequena espera, chegou Adrian, o mentor da empreitada.

- Pessoal, desculpem o atraso, vamos embarcar. – disse meu cliente com a objetividade de sempre.

Os rápidos passos de Adrian pelo hangar foram seguidos por mim e pelo pessoal da produção. No caminho, mirei um avião robusto, parecia um jatinho. Pensei: tranqüilo, dá pra encarar numa boa. Mas, meu cliente passou por ele e continuou caminhando em ritmo acelerado. Após este, tinha um menor, suas rodinhas eram pequenas, mas ainda assim contei cerca de 4 janelas, o que indicaria uma capacidade mínima de 8 passageiros. Pra mim ainda estava bom. Mas Adrian mais uma vez passou batido pela aeronave.

A próxima (e única) aeronave na nossa direção era um aviãozinho bem pequeno. Sem exagero: vendo de longe, achei que se tratava de um aeromodelo, um avião de controle remoto. A impressão que se tinha é que se eu abrisse os dois braços, alcançava a mesma envergadura de suas asas. Os passos de Adrian apontavam na direção daquilo que parecia ser um Fusca alado. Não era possível, ele disse que a gente ia de bi-motor e não de caixa de fósforo. Mais alguns passos e meu cliente, como quem sobe num degrau baixo, pisou na asa e abriu a pequena porta lateral do avião. Nunca tinha visto aquilo! Pra subir no avião tinha que pisar na asa.

- Adrian, esse é um monomotor... – disse eu, parando de andar, quase dando passos pra trás.

- O bi-motor teve que fazer uma viagem, vamos nesse mesmo. – disse Adrian, naturalmente, de cima da asa e com a mão na porta aberta.

Antes que eu pudesse dizer algo, a equipe de filmagem, acostumada a voar em qualquer coisa, entrou no aviãozinho. Só sobrou eu do lado de fora e Adrian segurando a porta.

- Vamos, pise aqui e suba! – disse o intrépido empresário.

Estranhamente, a vergonha de correr foi maior que o medo de morrer. Mesmo achando que ali dentro não cabia mais ninguém, entrei no avião.

Dentro, dois assentos virados para dois outros assentos. Na frente, o piloto e Adrian. Parecia um carro realmente, um carro bem pequeno. Não havia qualquer separação entre passageiros e tripulação: esticando a mão dava para tocar a cabeça do comandante. Além do medo daquilo cair, eu ainda tive que enfrentar minha claustrofobia. E, tudo isso, sem poder demonstrar pânico.

Foi então que Adrian resolveu piorar consideravelmente a situação:

- Eu vou comandando. – disse ele, taxativo.

- Não, doutor Adrian. O senhor ainda está aprendendo a pilotar, deixe que eu comando. – respondeu, cauteloso, o piloto.

- Eu comando e pronto. – disse o dono do avião. Com propriedade.

Pensei em fugir. Era o desespero vencendo a vergonha. Mirei a porta, mas, nem como abrir aquilo eu sabia. Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, Adrian ligou o avião e, ao som de um motor super acelerado, a aeronave arrancou em alta velocidade pra frente. Um funcionário do hangar que estava manobrando o avião aos empurrões, dobrou a coluna toda pra trás e a asa passou por cima dele num movimento que me fez lembrar a antiga dança da cordinha do Gera Samba.

- Adrian, deixe o cara pilotar... – balbuciei.

Não houve resposta.

- Você devia ter me avisado que o avião estava acelerado. – disse meu cliente fitando o piloto com olhos de reprovação.

- Doutor Adrian, deixe eu...

Adrian interrompeu o piloto:

- Peça permissão à torre para decolarmos.

O avião foi taxiando lentamente. Lembro de como ele já balançava, ainda em solo, por conta do vento suave que passeava pela pista. Daqui a alguns segundos, se sairmos do chão, vou me sentir dentro de uma batedeira. – pensei.

- PT-JKA: decolagem autorizada. Boa viagem. – respondeu a torre através do rádio.

Deu vontade de pedir para o maldito controlador de vôo definir o que era uma boa viagem.

O avião enfim ficou de frente para a pista. O motor voltou a acelerar, dessa vez, de maneira proposital. À medida em que íamos ganhando velocidade, a fuselagem tremia mais e mais, metais estalavam.

- Puxa o manche! Puxa o manche! – ordenou o piloto ao aprendiz de piloto.

Através da visão que me permitia a minúscula janela e do frio que percorria minha espinha, dei-me conta de que o teco-teco estava ganhando altura. Já não havia mais o que fazer. Apenas tentar manter a calma e torcer para chegarmos logo ao destino. Ou, simplesmente, chegarmos.

- Vamos fazer em 40 minutos... – avisou Adrian, curvando a cabeça sobre o assento do piloto.

Pois acredite: dentro de um monomotor não existe ar condicionado. Pelo menos, neste não existia. O sol de Salvador, para variar um pouco, estava de fazer derreter. E, querendo ou não, voando, estávamos ainda mais perto do astro-rei. O barulho do motor era insuportável, não dava para conversarmos absolutamente nada.

Logo, já não sobrevoávamos mais Salvador: abaixo de nós, apenas a magnífica visão das águas da Baía de Todos os Santos, suas ilhas e vastos coqueirais. Confesso que, diante desta cena única, esqueci por alguns instantes que eu estava dentro de um monomotor pilotado por alguém que supostamente não sabia pilotar. Porém, os vácuos que em aviões maiores são motivos de discretas turbulências, no nosso teco-teco causavam sensação de queda livre e faziam-me voltar à dura realidade.

Começamos a sobrevoar Morro de São Paulo. Ao passarmos próximos ao farol, um dos pontos turísticos do lugar, Adrian virou a aeronave toda de lado e começou a circular a enorme torre sem parar.

- Filma o farol, olha que bonito. – disse Adrian à equipe.

Parecia que, a cada volta, o avião passava mais perto daquela enorme estrutura. Uma asa do avião mirava o chão, a outra, o céu. Segurei-me na parede para não cair para o lado. Diante da proximidade e do risco real que estávamos passando, não agüentei:

- Adrian, o pessoal já filmou. O pessoal já filmou!

O teco-teco foi endireitado e novamente voltou a voar em linha reta. Um pouco mais à frente, estava Boipeba. De cima, o lugar era realmente fantástico.

- Xi, a pista está cheia de bois. – constatou Adrian.

Parecia mentira, mas era verdade. Colocaram um rebanho inteiro para pastar em cima da pista de pouso. Não havia ninguém por perto, nem um vaqueiro sequer que pudesse tanger os bichos para fora dali. O piloto se manifestou:

- Doutor Adrian, só há um jeito: vou dar um rasante na pista para espantar os animais. Por favor, me passe o manche.

Nada mais nesse vôo me surpreendia. A sorte foi que o dono do avião desta vez obedeceu. Com o trem de pouso quase batendo nos chifres dos animais, o piloto conseguiu afugentar a boiada que corria desesperada. Eram os bois e eu, todos morrendo de medo. Com a pista livre, fizemos meia-volta e pousamos. Demorou para eu acreditar que estávamos em terra firme. Ao descer do avião, só conseguia imaginar que horas partiria o próximo ônibus Boipeba-Salvador.

O negócio é o seguinte: agora, terminando de contar apenas a ida, me dei conta de que o texto ficou denso. Não tenho culpa. Se fosse um momento de paixão, casos de rodinhas de amigos, um dia na praia, teria passado rapidinho. Mas, pra quem está no terror, o relógio é cruel, os ponteiros andam com o freio de mão puxado. Sendo assim, vou guardar a volta para o próximo post. Nele teremos a câmera de 25 mil reais sendo naufragada, o aviãozinho versus o coqueiral seguido de um quase-looping, o momento em que eu perdi a compostura e quase perco o cliente e o pouso estilo bola perereca. Aguardem.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

O reveillon mais curto da história da humanidade.

Pense num cara que sabe conservar seus bens. Esse sujeito é Milton Filho, meu primo. Se um dia você quiser comprar um carro usado, procure saber se Milton Filho não quer vender o dele: é o melhor negócio do mundo. Todo dia ele lava o carro, passa produtos especiais nas portas e partes móveis, alinha e calibra pneus quase semanalmente e só abastece com gasolina aditivada premium. Sempre que entro na super máquina de Milton Filho tenho a impressão de que ela acabou de sair da concessionária.

Dia desses, meu querido primo entrou no meu carro para irmos a algum lugar. Girei a chave na ignição, liguei o motor, pisei na embreagem e engatei a ré (sem duplo sentido, por favor). Milton Filho deu um grito apavorado:

- Você é louco?!

Pisei assustado no freio. O pneu cantou.

- O que foi, rapaz?! – respondi com outra pergunta não menos exclamativa.

- Como é que você liga o carro e sai assim, imediatamente? Tem que esperar a gasolina circular por todo o motor... – Milton Filho apoderou-se da marcha do carro e a colocou em ponto-morto.

Eu achei que a injeção eletrônica ocupava-se disso. Mas, se o expert Milton Filho falou, tá falado.

Outra grande paixão do rapaz é uma lancha que herdou de meu tio. O barco é uma clássica Carbras-Mar de 32 pés da década de 70. Mas, assim como seus carros, esta embarcação anciã também nos traz a impressão de que acabou de sair do estaleiro. Trata-se de uma verdadeira relíquia, uma jóia flutuante, alvo constante de propostas de compra.

Quem já teve a oportunidade de navegar na Cavimar sabe o que eu estou dizendo. Nela, meu primo torna-se um chato, um sujeito insuportável. Não pise aí! Não suba ali! Cuidado com o verniz do corrimão! E é assim, sob a mão de ferro de Milton Filho que a sua lancha é uma das embarcações mais bem conservadas da Baía de Todos os Santos.

Bom, aproximava-se o final do ano de 2007 e eu, Letícia (minha namorada na época), Milton Filho e Beta (sua namorada), não fazíamos a menor idéia de onde iríamos passar o reveillon. Primeiro, pensamos em ir para Maceió, mas logo furou: só havia sobrado os piores hotéis a preços proibitivos. Depois, tentamos ver algumas praias no litoral da Bahia. Sem chance, era o mundo inteiro disputando com nós, baianos, o nosso próprio paraíso. Uma petulância.

Eis que tive uma idéia que tinha tudo para ser brilhante:

- Milton, por que não juntamos alguns amigos e passamos o reveillon na Cavimar vendo os fogos de artifício na praia da Barra?

Esperei serenamente uma negativa por parte de meu primo. Claro. Provavelmente, a Cavimar jamais tenha navegado à noite. Muito menos numa noite tão movimentada por embarcações indo de um lado a outro da baía. Apesar dos donos de lanchas tirarem uma boa grana alugando seus barcos para o reveillon e a procissão do Bom Jesus dos Navegantes no dia 1o do ano, Milton Filho jamais alugou, emprestou ou sequer usufruiu do seu precioso bem nesta época.

Ele refletiu. A ausência de um imediato “não” alimentou fortemente minhas esperanças. Aproveitei o silêncio e ratifiquei:

- Encomendamos salgados, doces, talvez um prato quente principal, compramos bebidas, rachamos o combustível e a hora-extra do marinheiro. Vai ser uma virada de ano diferente, moreno. E vamos estar cercados apenas de nossos amigos. O que acha?

Movido pela possibilidade iminente de passar o ano novo diante da TV na agradabilíssima companhia de Faustão e seu Show da Virada, Milton Filho considerou:

- É uma opção...

Levamos a idéia para as meninas que aceitaram no ato. Então, foi só convidar mais alguns casais que também não tinham destino certo e organizar as compras.

- Somos 4. Vamos chamar mais 3 casais e fechamos 10 pessoas. – disse Milton Filho.

- Ué, a capacidade da Cavimar não é 12 passageiros fora o marinheiro? – perguntei baseado na premissa de que quanto mais gente, mais animação.

- Sim, a capacidade é 12, mas não gosto de encher a lancha.

Estava demorando. Mas, enfim. Ele ter concordado com o reveillon na Cavimar era o último milagre de 2007.

Além de nós 4, convidamos Danilo e Andréa, Mirela e Limão e um casal de amigos de meu primo. Fizemos uma pequena reunião para definirmos as compras. Tudo decidido, partimos para as encomendas. Se o ano que estava por vir tivesse metade da abundância da nossa virada, 2008 tinha tudo pra ser um grande sucesso. O nosso petit comittè prometia.

Chegou o 31 de dezembro. Fomos até a Bahia Marina e embarcamos todos na lancha. O clima era de intimidade, alegria e descontração. Acomodamos as bebidas e comidas com certa dificuldade: eram tantas garrafas de champagne, vinho, cerveja e ice que a geladeira do barco não cabia. Dois isopores grandes com gelo foram utilizados como apoio.

- Ei, cuidado para o isopor não estragar o piso... – disse Milton Filho sem tirar os olhos da nossa manobra, minha e de Limão, para acomodar a geladeira improvisada.

Antônio, homem experiente do mar da Bahia, marinheiro da família há umas duas décadas, guardião tão ferrenho quanto Milton da embarcação, conduziu lentamente a Cavimar até o Porto da Barra, local onde a grande queima de fogos iria acontecer. Lá, muitos outros barcos, de todos os tipos, tamanhos e qualidades, também aguardavam o grande momento.

Iemanjá e São Pedro haviam entrado em acordo: o mar, manso e sereno, adormeceu ainda cedo suas ondas. O conhecido vento nordeste que costuma conduzir os velhos saveiros para dentro da baía tinha se transformado numa suave brisa, alento para uma típica noite quente de Salvador. Tudo corria bem.

10, 9, 8... garrafas de champagne em punho. Por favor, apontem para fora do barco! – advertiu Milton Filho. 7, 6, 5... pow! A bebida de Danilo precocemente estourou fazendo a rolha voar longe. Sinal de mau presságio. 4, 3, 2, 1. Pow, pow, pow, pow. Abraços trocados, beijos apaixonados, votos de feliz ano novo sob um céu iluminado por indescritível chuva de cores. As embarcações saudavam umas às outras através de sonoras buzinas.

Foi então que, cerca de 20, 25 minutos após o início do ano, o inesperado aconteceu na nossa festa exclusiva. No meio de um brinde na proa da Cavimar entre eu, Letícia, Limão e Mirela, ouvimos um grito desesperado de mulher. Era Beta de cima do flying bridge (guarde esse nome bonito que quer dizer o andar de cima da lancha):

- Vai bateeeeeeeeer!

Ao olhar pra trás, só deu tempo de ver um casco colossal de escuna vindo em nossa direção. Era tão grande, estava tão próxima e rápida que pensei que ela iria passar por cima de nós, pondo a pique a Cavimar. Parecia o prenúncio de uma nova edição do Bateau Mouche. Aliás, o barco de Milton Filho merece uma analogia mais pomposa: chegaria ao fim como um verdadeiro Titanic baiano.

Sorte que todos estávamos na frente da lancha quando o bico da Oreoca, a escuna desgovernada, rompeu toda a capota da Cavimar e ainda detonou o flying bridge. Quase, quase, Beta era atingida. O barco sacudiu por inteiro ao som de um desesperador barulho de prejuízo. Por alguns instantes, chegou a ressoar em minha cabeça aquela música insuportável de Celine Dion.

Passado o susto, olhei curioso para Milton Filho. Qual seria sua reação?

- SEU FILHO DA P***!!! – gritou meu primo para o marinheiro da escuna, misto de indignação e lamento, seu corpo tremia.

Num rompante de desespero, ameaçou se jogar no mar em direção à outra embarcação. Seguramos Milton, buscando acalmá-lo. Ele ainda bradava, quase sem voz, praguejando contra as próximas 30 gerações do marinheiro responsável pelo estrago.

Tanto o marinheiro quanto os passageiros da escuna, apreensivos, pediam sucessivas desculpas a todos e procuravam saber se havia alguém ferido.

- SEUS FILHOS DA P***!!! – plural neles.

Nos afastamos da Oreoca e chamamos pelo rádio a Capitania dos Portos – o Detran do mar. A mão trêmula de meu primo apertou o botão do microfone e então iniciou-se um diálogo com surpreendente lingüagem técnica:

- Atenção Capitania dos Portos: lancha Cavimar chamando... atenção Capitania dos Portos: lancha Cavimar chamando. Câmbio.

- Lancha Cavimar: Capitania dos Portos na escuta. Câmbio. – respondeu uma voz séria e pausada do outro lado.

- Houve um sinistro e nossa embarcação está avariada. Uma outra embarcação do tipo escuna colidiu conosco. Há fortes sinais de embriaguez por parte do marinheiro. Câmbio. – disse Milton Filho, falando bonito.

- Por favor, reporte o nome da embarcação que o albarroou. Câmbio.

Albarroou! Essa o cara foi buscar nas entranhas do dicionário. Milton Filho mandou bem no “colidiu” e vem o cara e lança “albarroou”. Virei fã do sujeito.

- A embarcação que nos albarroou possui o nome de Oreoca. Oscar, Romeu, Eco, Oscar, Charlie, Alfa. O-R-E-O-C-A. Câmbio. – respondeu Milton Filho, gastando o alfabeto radiofônico.

- Lancha Cavimar: favor reportar avarias. Câmbio.

[pequena pausa para pensar como fazer isso de forma erudita. A raiva impediu]

- A lona de popa foi arrancada, os frisos laterais foram parar no fundo do mar e o flying bridge está destruído. – respondeu Milton filho com leve ranger de dentes. E completou – Câmbio.

- Lancha Cavimar: favor soletrar flying bridge. – disse o sujeito, do qual, diante desta solicitação, eu já não era tão fã assim.

Milton Filho soltou por instantes o dedo que aciona o microfone e desabafou para nós, indignado:

- P*** que pariu... o cara é da Capitania dos Portos e não sabe como se escreve flying bridge.

Meu primo inspirou fundo como quem busca paciência, largou de mão o alfabeto radiofônico e soletrou pausadamente através do rádio:

- F... L... Y... B... R.... I... T. Câmbio. – e fez cara de indignação.

Nesse momento, segurei a gargalhada através de um esforço hercúleo, abafei uma explosão de risadas de maneira sobre-humana. As duas figuras, Milton Filho e o carinha da Capitania estavam indo tão bem, tão cheios de expressões e vocabulários difíceis e, do nada, os dois tropeçam no flying bridge. Se eu risse diante daquele pesadelo que meu primo estava passando, certamente hoje ele não falaria mais comigo.

De novo, a Capitania nos surpreendeu:

- Houve vítimas no albarroamento? Câmbio.

- Não. Mas a embarcação está avariada e o marinheiro da escuna apresenta embriaguez. Câmbio. – respondeu Milton Filho.

- Cavimar: como não há vítimas, não há como fazer ocorrência. Favor conduzir a embarcação de volta para a Bahia Marina e amanhã pela manhã entre de novo em contato. Câmbio final.

Era óbvio que o sujeito queria era que a gente parasse de encher o saco pra ele poder voltar à sua cachaça de reveillon. Como ele havia sido irredutível, obedecemos sua ordem e, por volta de meia-noite e quarenta minutos, pusemos fim à nossa festa de fim de ano. Voltamos desolados para casa. Milton Filho, deprimido.

Quando lembro dessa história, sempre acabo fantasiando uma situação. O erudito da Capitania dos Portos em um contato com outra embarcação sinistrada qualquer e, orgulhoso, perguntando:

- Houve avarias no flying bridge? F... L... Y... B... R... I... T. Flying bridge.

Câmbio final, amigos.

Desejo a todos um 2009 muito, mas muito melhor mesmo do que esse meu reveillon de 2007/2008.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Eu, Renata e Tio Fulano pra chutar o balde.


Ela era dona de um fabuloso par de olhos verdes, duas verdadeiras tochas cor de esmeralda. Loira, cabelo liso, bem liso, pele bem branquinha, lábios cor-de-rosa. Como se não lhe bastasse ter uma beleza difícil de encontrar em qualquer esquina de Salvador, ela era atenciosa, simpática, bem-humorada. E tinha um sorriso fascinante que, não raro, me levava a um quadro de taquicardia aguda. (Desculpem o fim de raciocínio não muito romântico, mas é a descrição de paixão de um hipocondríaco).

Faffy, uma grande amiga, apresentou-me Renata na porta do Colégio Módulo, onde as duas estudavam. Eu tinha 20 anos, a garota por quem meu coração subitamente bateu mais forte tinha apenas 16. Naquele dia, havia outros colegas delas na rodinha de conversa e então trocamos poucas palavras de início. Era uma daquelas situações onde você não consegue prestar atenção em nada que outra pessoa do grupo diz. Seja porque seu cérebro está ocupado demais tentando achar um assunto para puxar com quem lhe interessa ou porque nada alheio a ela desperta a atenção de seus ouvidos.

De lá, fomos comer alguma coisa em uma loja de conveniência próxima ao colégio. Convidei as duas, Faffy e Renata, para irem comigo no carro. Recebi de minha paquera um doce e carinhoso “não”. Com seu sorriso desarmador, ela disse que preferia ir a pé já que era bem pertinho. Foi uma resposta que tinha tudo para soar antipática, mas Renata era extremamente jeitosa, educada. E, cá pra nós, ter negado a carona foi apenas mais um indício de que ela era uma garota diferente de muitas outras.

Estávamos em pleno posto de gasolina comentando as aventuras virtuais de Faffy, a adolescente hacker que uma vez foi até rastreada pela polícia. Rimos bastante, o clima descontraiu ainda mais e então me senti à vontade para tentar estreitar o contato:

- Você tem ICQ, Renata?

Eu sempre fui um cara péssimo de paquera presencial. Mas meu desempenho aumentava consideravelmente quando o ambiente era virtual. Fui rato de VP da Telebahia (vídeo-papo), mIRC, ICQ e, há algum tempo atrás, MSN. Enquanto meus amigos iam para os ensaios do Gera Samba no Clube Espanhol, eu paquerava pela internet. Era muito mais prático e eficiente. Fora que eu não bebia e, nestas festas, nunca entrava no clima. Aí é meio brabo você ir pra um negócio desses só ficar ouvindo Compadre Washington gritar “Tchannn!! Tchannnnnnn!!” e ainda não morder ninguém. (Impressionante, é só falar do mestre que meu vocabulário torna-se irresistivelmente pobre e cafajeste).

Bom, vou voltar a Renata. Por algum motivo, falar dela é mais agradável que falar de Compadre Washington.

Trocamos números de ICQ e, chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi adicioná-la à minha lista. A partir daí, passamos a conversar com uma freqüência quase que diária. Era impressionante, nunca faltava assunto. Falávamos de tudo e quando eu percebia, horas haviam se passado. Só tinha um problema nisso tudo: eu não conseguia avaliar se existia reciprocidade no sentimento ou se ela me via como um bom amigo.

Na hora das maiores dúvidas existenciais, nos momentos em que a vida jogava em meu colo seus grandes mistérios, era ele a quem eu recorria: Tio Fulano. Tio Fulano, como muitos já sabem, é um superlativo de praticidade, um sujeito que não costuma perder tempo diante de interrogações, quaisquer que sejam elas. Exclamativo, costuma ouvir minhas questões e lamentos com certa impaciência, mas sempre os ouve. E essa inquietação na hora da escuta existe por um motivo simples: ele quer dar a solução logo, sem demora. Através de um gesto típico que inclui a palma da sua mão levantada em minha direção e os olhos fechados, ele sempre encerra precocemente meu raciocínio dizendo: - Posso falar?!

Após outra conversa virtual com Renata que me deixou com mais dúvidas do que conclusões, resolvi apelar ao paladino dos conselhos. Cheguei na casa de Tio Fulano e, após ouvir pacientemente a uma dezena de piadas pornográficas, abri meu coração:

- Meu tio, acho que estou gostando de uma garota.

- Que bom, “meu tio”! Não tem nada melhor do que se apaixonar... – disse ele com entusiasmo. E em seguida perguntou – e ela também está gostando de você?

- Esse é o problema, meu tio. Não sei dizer. – respondi com certo pesar na voz.

Como quem pergunta a coisa mais óbvia do mundo, ele me argüiu com uma leve indignação:

- E por que você não se declara?!

- Meu tio, não é simples assim. Ela pode acabar se afastando de mim. – dei a típica explicação dos medrosos apaixonados.

- Acabar se afastando o quê, rapaz, tá maluco? Mulher gosta de homem com atitude. Chegue pra ela amanhã e diga que você está afim dela! Mas não demore não, tem que ser amanhã! – disse Tio Fulano, incisivo, gesticulando, gesticulando muito.

- Mas meu tio...

- Mas, nada! Amanhã você liga pra ela e depois vem aqui me contar. – Tio Fulano interrompeu-me sumariamente.

Só um louco contraria uma ordem expressa de Tio Fulano. E louco eu não sou. Assenti silenciosamente com a cabeça e pedi a ele que me deixasse utilizar seu computador. Ao conectar-me no ICQ, quem estava on-line? Renata.

- Meu tio, olha a coincidência, ela está no ICQ. – comentei, empolgado.

- ... combine logo seu encontro amanhã... – disse Tio Fulano, impaciente.

Conversei alguns minutos com a garota que fazia o tempo voar e, por conta de um enorme copo de suco que meu tio havia me servido, fui obrigado a levantar e ir ao banheiro fazer xixi. Coisa de 2 minutos. O suficiente para, no retorno, flagrar Tio Fulano sentando tranqüilamente à frente do computador. Fiquei desesperado, protestei de todos os jeitos. Ainda o vi terminar de escrever na tela de Renata, ao som espaçado de quem cata milho no teclado:

[caps lock]

Q-U-E-R-O N-A-M-O-R-A-R C-O-M V-O-C-Ê. E A-Í?

[enter]

Não dava para acreditar que ele tinha feito aquilo. “QUERO NAMORAR COM VOCÊ. E AÍ?”. Eu preparando terreno com todo o cuidado do mundo e vem ele e se declara – aliás, me declara – desse jeito. Não havia dúvidas, meu trabalho inteiro tinha ido por água abaixo.

- Meu tio, você é louco?? Agora é que essa menina não quer nada comigo. – disse eu, inconsolável.

- Relaxe, “Meu tio”. Ela vai se amarrar. – respondeu ele com direito a gíria e uma confiança que sabe Deus de onde tirou.

Nada de resposta de Renata. Eu olhava fixamente para a janelinha branca do ICQ de meu amor platônico. Nada!

- Viu, meu tio? Viu? – disse eu, emputecido.

Tio Fulano inspirou lentamente e, calado, fez um sinal de “está tudo sob controle”.

O suspense aumentava e Renata não se manifestava. Após um longo - quase eterno - instante, ela respondeu:

"Peu, você deve ter entendido errado... desculpe, mas somos apenas bons amigos... "

- Viu, meu tio? Viu? – bradei fazendo o clássico gesto de uma mão aberta batendo sobre a outra mão fechada.

Sem perder a serenidade, olhos semi-cerrados, gestos lentos, Tio Fulano respondeu:

- Você confia em seu tio? Ela está só fazendo charme. Vá por mim: a menina já está no papo...

Por que é que Deus havia me dado um tio louco? Era só o que eu conseguia pensar. Aliás, tinha outra coisa que eu me perguntava: por que raios eu resolvi contar isso a Tio Fulano? Conselheiro, tudo bem, ele realmente tinha esse dom. Mas cupido? Isso, definitivamente, era incompatível com a sua forma rápida de resolver as coisas. Por conta desse seu ato tão habilidoso, eu me meti numa sinuca de bico: se eu dissesse depois a Renata que havia sido meu tio no ICQ ao invés de mim, seria ridículo e ainda teria soado como desculpa esfarrapada de perdedor. Por outro lado, se eu assumisse a autoria daquela declaração desastrada depois de tanto cuidado ao conduzir a paquera, no mínimo, sairia da história como maluco.

No dia seguinte, entrei no ICQ. Renata estava lá. Eu não falei com ela, ela não falou comigo. Mais um dia se passou e então voltamos a nos falar, ainda friamente e sem a intimidade conquistada com tantas horas de conversa e perdida em uma única frase. Uma semana depois, estávamos namorando. Um mês depois, trocamos o primeiro “eu te amo”.

Moral da história: se um dia você tiver a honra de ouvir de Tio Fulano um “confie em mim, 'meu tio'”, confie. De algum jeito, ele sabe o que diz.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Um dia você ainda pagará pela minha cadeirinha de balanço. Um dia...


O meu reinado absoluto na casa 7 do Condomínio Pedra da Marca durou apenas 2 anos. 1 ano, 11 meses e 19 dias, para ser mais exato. Eu era o quinto filho, a raspa de tacho, nascido após um longo intervalo de 14 anos. Entre meus irmãos, havia uma grande disputa para ver quem me dava banho, quem escovava meus dentes, quem trocava minhas fraldas, quem me levava ao parque. Fui eu o responsável por trazer de volta a alegria àquela casa, arrefecida pelo crescimento dos outros 4 rebentos. Fui eu o responsável!

Então, sem mais nem menos, em uma manhã qualquer de agosto, minha supremacia chegou ao fim. Perdi a coroa. Da noite para o dia, não havia mais nenhum holofote sobre minha pequena pessoa. Os bilus-bilus, lilos-lilos e tchucos-tchucos já não eram mais pra mim. Eu ainda não tinha muita noção das coisas da vida, mas aquilo me parecia uma grande e terrível injustiça: Roberta, filha de meu irmão mais velho e primeira neta de meus pais, fez o magnífico favor de nascer.

Ela era irritavelmente fofinha, bonitinha, engraçadinha, espertinha e muitos outros inhas com os quais os adultos não cansavam de adjetivá-la. Juntava um monte de gente com cara de boba dizendo “ohhh” em volta do berço. Pessoas e mais pessoas orbitavam aquele ser minúsculo. Ei, eu continuo fofo e sei fazer coisas engraçadas para vocês rirem... - pensava eu. Mas não adiantava, meu tempo havia passado, as cortinas se fecharam para mim. E ela só sabia chorar, fazer xixi, cocô e todo mundo achava lindo.

E, falando em xixi e cocô, dizer que ela roubou meu trono não é metáfora. Quando minha rival cresceu mais um pouco, passaram pra ela o meu troninho que ficava no chão e eu era obrigado a resolver minha vida naquela colossal e desajeitada latrina, uma verdadeira prova de alpinismo e equilíbrio. Por conta disso, comecei a ter crises de prisão de ventre. Eu precisava reconquistar a atenção de todos de algum jeito. Só percebi que esta não era uma boa estratégia quando tentaram solucionar o problema com supusitórios. Fiquei curado dos episódios como que por encanto. Roberta mal havia declarado guerra a mim e já estava ganhando a sua primeira batalha.
Para meu desespero, não demorou muito e Dudu se separou da esposa e então minha querida sobrinha foi morar lá em casa. Como se já não fosse de bom tamanho as longas tardes e manhãs compartilhadas com a nova majestade, também tive que passar a dividir tudo com ela: babá, troninho, brinquedos, quarto, cachorro e – o pior de tudo – a atenção de meus pais.

À medida que crescíamos, crescia também a rivalidade entre nós. Fora que Roberta ainda muito cedo demonstrou um raro talento para a pirraça. Os resultados mais corriqueiros de suas provocações eram trocas de beliscões, tapas, unhadas, puxões de cabelo, muito chororô e castigos. Quantas vezes fiquei encarcerado em meu próprio quarto com tufos de cabelos entre os dedos? E, sob os olhos de julgo de meus pais, eu era sempre o algoz e ela, pequena e inocente, a vítima.

Como já disse por aqui, desde a tenra infância sonhava em ser médico. Mais precisamente cirurgião. Um dia, movido por esta vocação, convidei Roberta para ser minha enfermeira em um centro cirúrgico imaginário. E por um motivo simples: era a única forma dela concordar em ceder suas bonecas como pacientes.

Consegui luvas cirúrgicas, touca e máscara. O resto eram tesouras, facas, chaves de fenda e afins. Iniciamos os procedimentos e, concentrado, eu ia realizando incisões nas barrigas cheias de espumas e algodões das bonecas. Roberta, ao meu lado, colaborava passando-me os instrumentos que eu solicitava. Na verdade, acho que não era bem cirurgia, estava mais para eutanásia. Rapidamente, terminávamos com a vida e utilidade das pacientes. Quando se deu conta disso, a dona dos brinquedos abriu o berreiro, me denunciou e quase eu termino de castigo mais uma vez. Sorte que os supremos juízes aquele dia estavam de bom humor e consideraram como atenuante o fato dela ter sido conivente com a chacina.

É importante salientar que eu sempre fui uma criança tranqüila. Minha mãe dizia que em minha fase de recém-nascido, costumava ir ao meu berço ver se eu estava vivo pois nem chorar de fome eu chorava. Nem a fralda molhada me incomodava. E, apesar das turbulências que Roberta causava em minha vida, segui com esta mesma personalidade serena, quase iluminada. Minhas diversões eram basicamente revistinhas da Turma da Mônica e uns joguinhos, primitivos vídeo-games portáteis. O mundo podia acabar e eu estava sempre ali, numa boa, lendo ou jogando.

Buscando se vingar do genocídio das bonecas, Roberta resolveu pegar três dos meus joguinhos eletrônicos, os prediletos, e os atirou no vaso sanitário. Para garantir o fim das provas, ou mesmo certificar-se de que o dano seria permanente, acionou a descarga sucessivas vezes. Flagrei o fim daquela terrível cena, jamais irei esquecer: ela na ponta dos pés fazendo grande esforço para manter a descarga apertada e olhar fixo em meus brinquedos bailando naquele grande redemoinho. Com lágrimas travadas nos olhos e gosto de sangue na boca, parti como uma besta-fera pra cima dela. Prevendo Roberta sua morte iminente, disparou em direção ao quarto de meus pais gritando por socorro, um verdadeiro escândalo. De estalo, um plano para eliminar os meus problemas surgiu em minha cabeça e eu desisti da perseguição.

Eu tinha uma pequena cadeira de balanço que era o lugar onde eu mais costumava ficar. Ela era de vime e madeira, tinha uma confortável almofada com uma ilustração de um cachorro com a língua de fora. Como um moço-velho, eu vivia sentado nela, jogando e me balançando.

Pois o plano era simples: subir no telhado da casa com a cadeira e jogá-la lá de cima na cabeça de Roberta. Se tudo desse certo eu me sentiria plenamente vingado e, provavelmente, não sobraria mais sobrinha para contar a história. Eu já conseguia me enxergar de novo com a coroa na cabeça. E ela brilhava.

Assim, dei prosseguimento ao plano. Primeiro, amarrei um pedaço de corda à cadeira. Depois, subi no muro. Em seguida, icei minha arma até mim e segui equilibrando-a até o telhado. Lá, quebrei uma meia dúzia de telhas e me sentei com a cadeira ao meu lado. Busquei o ponto mais alto da casa para o estrago ser maior. Ali, num lugar em que eu jamais havia chegado, diante de uma vista maravilhosa, era só aguardar a vítima.

Com uma paciência que não é comum às crianças, aguardei uma tarde inteira. Pela raiva cultivada dentro de mim, acredito que eu seria capaz de esperar quantos dias fossem necessários para Roberta passar por ali. Após horas e horas, perto do pôr-do-sol – para o seu fim ser ainda mais poético -, minha inimiga passou pelo “X” imaginário no chão. Rapidamente fiquei de pé, peguei a cadeira, a ergui para que ela ganhasse ainda mais altura e lancei-a com uma força que só o ódio concede a alguém. Creio que a mão de Deus tenha puxado Roberta alguns centímetros para o lado. A cadeira se espatifou no chão. Sem entender o que havia acontecido, porém imaginando quem era o responsável por aquilo, mais uma vez ela saiu correndo. E, tão destruído quanto aquela minha inseparável companheira de leituras e jogos, ficou meu coração. Quanto remorso. Eu havia perdido meus brinquedos preferidos, minha cadeira de balanço, minha merecida vingança e Roberta ainda estava lá, intacta. De coroa, manto e cetro.

De cima daquele telhado, de onde ninguém podia me ver, chorei como talvez jamais tenha chorado um dia. Mais até do que quando minha pior e melhor companhia foi passar as férias de verão com a mãe em Recife e então eu descobri precocemente o que era padecer de saudade.

* Esse post é para Ró, com carinho e um beliscão. Para não perder o costume.

domingo, novembro 30, 2008

A Casa Mal-Assombrada. (Como diria Jack "o Estripador": vamos por partes).


Essa vida é mesmo cheia de coincidências. Imagine que em 1998 fomos eu, Daniel e Tio Fulano para a Flórida. Lá, ao pegar o elevador do hotel, vimos uma família correndo pelo lobby e acenando para nós como se pedissem para os aguardarmos. Assim o fizemos. Ao aproximarem-se, surpresa geral: os apressados eram Tia Lídia, Tio Renato e Camila - pai, mãe e filha, moradores do mesmo prédio que nós três.

Pense bem: qual a probabilidade de dois grupos que moram no mesmo lugar se encontrarem na mesma época, no mesmo país, no mesmo estado e no mesmo hotel entre os milhares que existem em Orlando? Enfim, foi aquele espanto geral. Um grato espanto, na verdade. Era o início de uma viagem divertidíssima, cheia de boas risadas, quase sempre causadas por Tio Fulano e suas histórias e piadas impublicáveis.

Sim, são realmente impublicáveis, mas vou pedir licença à censora do Blog, Sandra, e contar algumas. Crianças, não leiam.

A gente estava andando pelo parque e Daniel, o chato do Parque das Árvores, começou a se queixar: - tá calor, tô com fome, tô cansado, vamos só em mais um brinquedo.

- Daniel, você é um pobre tatu. - retrucou Tio Fulano com sua habitual falta de paciência.

Daniel, típico mal-humorado de poucas palavras, ignorou a observação. Mas, Tia Lídia, curiosa, perguntou:

- O que é um pobre tatu, Fulano?

- Um pobre tatu, Lídia, só tem o casco e o c*. O casco anda todo rachado e no c* tem um p** enfiado. – respondeu Tio Fulano com tranqüilidade e certa didática.

Confesso que fiquei apreensivo, afinal, Tia Lídia é uma pessoa um tanto quanto conservadora. Mas ela sorriu contida. Aliás, até Daniel, o pobre tatu, deu risada.

E a viagem prosseguiu. Assim como as tiradas de meu Tio.

Uma outra vez, explicando o que ele considerava ter sido alguma injustiça praticada contra ele, nos veio com essa durante o jantar:

- ... e aí o cara queria me vender pelo dobro do preço. Não aceitei, ele queria que eu assinasse um contrato bililica. – disse Tio Fulano, inconformado.

Advogado experiente e procurador do estado, Tio Renato perguntou intrigado:

- O que é um contrato bililica, Fulano?

- Eu entraria com o c*, ele entraria com a pi**. Não assinei, é claro. – respondeu meu desbocado tio, muito naturalmente.

Então, uma noite, estávamos todos voltando para o hotel na van alugada quando vimos, no meio do nada, uma enorme mansão com um amplo estacionamento na frente. A arquitetura exageradamente sombria, junto com o enorme letreiro iluminado onde líamos “The Haunted House” (A Casa Mal-Assombrada), nos revelou ser um brinquedo, mais uma atração daquela cidade repleta de entretenimento. Eu, Daniel e Camila, os três adolescentes do carro, enchemos a paciência de todos para irmos conferir.

Estacionamos o carro e, ainda do lado de fora, já ouvíamos sons de tiros, serras-elétricas, lamentos, gritaria. Fruto de algumas caixas de som escondidas pelo jardim da casa, tudo para deixar os visitantes no clima. Aproximando-nos da porta, ainda ouvi uma trovoada forte. Se não fosse o céu limpo e estrelado, teria certeza de que iria chover. Tenho que tirar o chapéu: além de invasão a países alheios, os americanos também são craques em promover diversão.

Ao entrar na casa, parecia de fato com um lar qualquer: porta-retratos, relógio antigo de parede, cabide para pendurar casaco, uma mesinha com um jarro de flores e uma escadaria que provavelmente dava nos quartos. Porém, a decoração carregada de madeira escura e o ambiente todo à meia-luz nos remetia diretamente a um filme de terror. Propositalmente, a temperatura era baixíssima, experimentamos um frio cortante.

De repente, apareceu um mordomo. Um tipo clássico de mordomo. Extremamente polido e monossilábico, com seu inglês britânico ao invés de americano, nos pediu que o seguisse e virou de costas. Neste instante, iniciou-se uma discussão entre nós:

- Eu não vou na frente! – antecipou-se Daniel.

- Eu também não! – completou Camila.

- Eu vou no meio! – me defendi.

Os adultos também ficaram no maior jogo de empurra até que o mordomo virou-se para nós e falou numa rápida fusão tônica entre polidez britânica e barraco latino-americano:

- I said... FOLLOW ME!

- Eu disse… SIGAM-ME!

Achamos melhor obedecer. Na ordem em que estávamos, seguimos em fila atrás daquele sujeito alto, pálido e vestido num elegante fraque negro. Graças a uma rápida manobra, consegui me posicionar no meio de todos, evitando as extremidades. Caminhando pelo corredor, o não muito simpático senhor nos advertiu sem olhar para trás:

- Não toquem nos atores que eles não tocarão em vocês.

Não sei se eu entendi certo, mas, se por acaso a gente resolvesse bater no monstro, ele bateria na gente de volta. Mas, tudo bem, aquele dia eu estava calmo, tinha tomado meus remédios controlados e não iria espancar ninguém.

Tão repentino quanto o aparecimento do mordomo, foi o seu sumiço. Nos vimos sozinhos naquele corredor escuro e cheio de quadros nas paredes. Os passos de Tio Renato, o primeiro da fila, eram curtos, milimétricos, quase não existiam. Tia Lídia reclamou:

- Vai, Renato! Qualquer coisa a gente corre de volta...

Blam! Um forte barulho denunciou o fechamento da porta atrás de nós. Era o fim do plano B de Tia Lídia. Após algumas dezenas de passos de formiga de Tio Renato, ainda no corredor, começamos a ouvir uma voz masculina como se estivesse resmungando. Ouvíamos também um som de líquido sendo remexido. Pensei logo no pior: tem alguém sendo estripado. Ao chegarmos na sala, não é que eu estava certo? No meio do que parecia ser uma sala de televisão, havia uma maca com um corpo aberto e um louco vestido de cirurgião cheio de tripas nas mãos. Ao ver-nos, ficou irado, começou a gritar conosco e então meteu a mão no tórax do pobre-coitado, arrancou o coração e jogou com força em nossa direção. O órgão bateu na grade que nos separava daquela cena e um líquido espirrou na gente. Só fomos perceber que era água ao invés de sangue quando já estávamos de volta ao corredor, desta vez, a passos muito mais rápidos do que os de Tio Renato.

Surgiu em nossa frente um jovem vestido de branco. Não era assustador. Na verdade, ele é quem parecia assustado. Pediu para que a gente o seguisse, como se fosse nos mostrar a saída daquele lugar. O jovem disparou a correr e, com um salto, atravessou o espelho que havia na parede. Ao chegarmos perto do objeto, só víamos nosso próprio reflexo. Então, mais um susto: o espelho acendeu e vimos o rapaz lá dentro apontando para a direção que devíamos seguir pelo corredor.

Durante nossas caminhadas, sons estranhos sempre nos acompanhavam. Mas, à medida que fomos nos aproximando do próximo ambiente, um som ritmado de pancadas ia aumentando. O que será que nos aguarda? Este era o pensamento corrente de todos naquela casa.

Ao entrarmos no cômodo, que surpresa desagradável! Estávamos no quarto da menina do Exorcista. Ela estava deitada, seus braços amarrados por dois lençóis à cabeceira da cama. Mas a garota não cansava de tentar se libertar: levantava meio corpo, se debatia inteira, convulsionava, trincava os dentes e então jogava as costas com força contra o colchão. Era este o som macabro que ouvíamos ainda do lado de fora.

Mais uma vez, a porta atrás da gente se fechou. O único caminho que tínhamos era contornarmos a cama da possuída e sairmos por um portal do outro lado da cabeceira. Ficamos um bom tempo parados ao lado da cama, olhando fixamente para aquela menina e seu rosto transfigurado. Seus movimentos obedeciam uma seqüência lógica, o que levantou uma discussão:

- É um robô. – disse Camila.
- Não, é uma pessoa, olha o detalhe da pele. – disse Tio Fulano.
- Não, é um robô sim, repare no movimento sempre igual. – disse Daniel.
- É pessoa!
- É robô.
- É pessoa!
- É robô.
- Parem de discutir. Se é robô ou se é pessoa, o fato é que teremos que passar por ela de qualquer jeito. Vamos. - Tia Lídia pôs fim à celeuma.

Como o quarto era pequeno, a distância entre as paredes e a cama devia ter em torno de meio metro. Os seis foram se esgueirando pela parede, evitando a lateral da cama. Doze olhos fixos na garota. Viramos a quina e estávamos todos de frente para a endiabrada quando, num solavanco mais forte, soltou das amarras um de seus braços. Tio Fulano infelizmente estava certo: era pessoa. Enfurecida, aos berros, ela não sabia se esticava o outro braço para nos alcançar ou se soltava o último lençol. Em meio à sua dúvida e nosso pleno terror, corremos pela outra lateral da cama e saímos dali. Após termos nos certificado de que ela não nos seguia, diminuímos o passo.

Mal deu tempo de respirar e começamos a ouvir ao longe um som de moto-serra acelerando. O ao longe tornou-se perto rapidinho: era Jason, de Sexta-Feira 13. Do pouco que consegui olhar, era um sujeito robusto, com sua típica roupa de lenhador e máscara de jogador de hockey. Disparamos mais uma vez. Corríamos com o mesmo vigor das vítimas dos filmes de terror que ele estrelava. A ordem da fila era a seguinte: Tio Renato na frente, depois Tia Lídia, Camila, eu, Daniel, Tio Fulano e Jason. Mesmo tendo ainda duas pessoas entre mim e o assassino, o som da moto-serra dava a entender que minha orelha seria decepada em instantes. O sujeito era bom de corrida.

Todos concentrados em fugir e eis que, misturado ao barulho infernal daquele motor em alta rotação, ouvimos os gritos de Tio Fulano com sua voz de trovão:

- Socorro! Socorro, me ajudem! Esse cara aqui atrás quer comer meu c*!

O misto de corrida com gargalhada não deu certo. Não tinha como dar. Camila logo perdeu o fôlego, tropeçou e caiu na minha frente. Tropeçando nela, eu também caí. Na seqüência, Daniel. Em seguida, Tio Fulano. E, por fim, Jason e sua moto-serra. Quase o maníaco fazia vítimas, realmente. Mas por sufocamento.

Jason pegou seu trambolho e desapareceu. Deve ter se assustado com o nosso grupo. Brasileiro sempre chega pra bagunçar, é incrível. Principalmente se tiver um Tio Fulano no meio. E como bom brasileiro que gosta de tirar vantagens, eu ainda pensei em processar o estabelecimento e ficar rico: como é que dizem que os monstros não iriam tocar na gente e o sujeito simplesmente se joga em cima de nós?

No caminho de volta para o hotel, a resenha não parava. Relembrávamos dos sustos e ríamos muito. Entre re-memórias de perseguições de um monstro e outro, Tia Lídia surpreendeu a todos dirigindo-se a Tio Fulano:

- É, Fulano... dessa vez, por pouco você não vira um pobre tatu.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Por que não gosto de dormir em outra casa que não a minha.


Quando eu tinha lá pelos meus 8 anos, sempre pedia à minha mãe que me deixasse convidar um amigo para passar o final de semana lá em casa. É aquela coisa: filho temporão, bem mais novo que meus 4 irmãos, àquela altura, todos casados ou morando fora. Sem contar que na minha rua não morava uma criança sequer. Portanto, eu não tinha companhia para brincar. (É de partir o coração, eu sei, mas era a realidade).

Mas, não sei por que, eu nunca aceitava um convite para passar o final de semana na casa de um amigo. Quando isso acontecia, eu tentava persuadi-lo a fazer o contrário e normalmente conseguia. Confesso que eu era uma criança cheia de manias e vontades, desses meninos que merecem uns cascudos de vez em quando e que jamais os têm.

Foi então que Cláudio, um amigo do Colégio São Paulo, me chamou para passar o fim de semana com ele (nota: o texto está ficando estranho, dúbio, mas lembre da inocência que acompanhava a nossa pouca idade). No primeiro momento, tentei convencê-lo a ir para a minha casa. Sem sucesso: ele havia ganhado um Phantom System, o mais moderno vídeo-game daquele momento e jamais sairia de perto do brinquedo.

- Traga o Phantom pra cá! – insisti.

- Não dá. Felipe também está viciado no jogo e meus pais não vão deixar ele ir. – respondeu Cláudio, jogando um balde de água fria na minha tentativa.

Felipe era o irmão mais novo de Cláudio. Infelizmente, vi que desta vez não tinha jeito. E o pior: eu também estava louco pra jogar Phantom System. Inclusive tinham me prometido um destes para o Natal, esperei com a ansiedade de uma criança-cheia-de-manias-e-vontades-e-que-merecem-cascudos e, assim como os cascudos, jamais ganhei o vídeo-game. Não foi por falta de merecimento.

Arrumei uma sacola com umas duas mudas de roupa, escova de dentes, meias, três cuecas pra garantir e constatei que um par de tênis bastava. Ato este que até então era inédito. Para você ter uma noção de como tudo isso era novidade pra mim, durante toda a infância jamais cheguei a dormir uma só noite na casa de minha avó.

- Mãe, estou pronto. Me leve. – disse eu, confiante, metaforizando, dando duplo sentido ao “estou pronto”.

Cheguei na casa de Cláudio e, no primeiro momento, minha atenção estava 100% focada nos jogos do fantástico Phantom System. Ah, que gráficos! Eu podia passar a vida jogando aquilo. Não tinha fome, não tinha sede, não tinha vontade de fazer nem xixi, nem cocô. Por mim, envelhecia diante daquela televisão e seus pixels coloridos e sons futuristas. Depois de muitas batalhas, corridas de Fórmula 1, tiros trocados, conquistas espaciais e lutas com ninjas, chegou o fatídico momento: a hora de dormir.

A mãe de Cláudio me deu uma toalha de banho, gentilmente cedeu a cama de meu amigo pra mim, puxou a bicama e acomodou o desalojado nela. Depois, cobriu com cuidados de mãe Felipe, seu filho mais novo. Era a hora. Um boa noite, a escuridão e um silêncio profundo. O que eu estava fazendo ali?! Demoraria muito para amanhecer, precisava dar um jeito de conseguir dormir. Maldita idéia, maldito vício de vídeo-game. Relaxe, vai dar tudo certo, eu procurava me acalmar.

Pra piorar substancialmente a situação, Cláudio havia me dito que Felipe era sonâmbulo. Antes mesmo de conhecer seu irmãozinho, meu amigo já tinha contado diversas histórias de seu distúrbio em conversas no colégio. E como sou muito curioso, me aprofundava nas perguntas: é verdade que não se pode acordar um sonâmbulo? Ele fica com os olhos fechados ou abertos? Ele tropeça nas coisas? Quanto tempo dura isso? Depois ele lembra de tudo? Dá medo?

- Acho que aquele Alimbinha me deu dor de barriga. Vou no banheiro. – Cláudio interrompeu o silêncio e meus pensamentos de desespero.

Quando o ouvi trancar a porta do sanitário, me dei conta que tinha acabado de ficar sozinho com o sonâmbulo. Um arrepio percorreu toda minha espinha. Os poucos pêlos que tinha nos braços ficaram em pé. Coberto pelo lençol até o pescoço, tomei coragem para virar o rosto e olhar Felipe. Ele dormia tranqüilamente. Apesar desta constatação ter me acalmado por um instante, a diarréia de Cláudio sem dúvidas estava sendo mais sofrível pra mim do que pra ele. Nunca quis tanto ouvir o barulho de uma descarga.

Continuei olhando atentamente para o irmão de meu amigo. Foi então que a paz do semblante de Felipe deu lugar a feições carregadas de ódio. Para o meu mais genuíno pânico, o rapazinho sentou-se na cama, abriu os olhos e me encarou em silêncio. À esta altura, eu apertava com tanta força o lençol que, se ele ainda existir, tenho certeza de que minhas unhas ainda estão lá. Barulho de descarga, por favor, barulho de descarga, eu pensava.

O ódio nos olhos de Felipe começaram a dar lugar a uma ira aterrorizante. E o alvo daquele olhar era eu, somente eu. Não era possível que aquilo estava acontecendo comigo. O garoto então rangeu os dentes e falou devagar, com uma voz que lembrava à da menina do Exorcista:

- Saia daqui....

Eu me tremia, a cama tremia, meus olhos queriam saltar das órbitas, ainda bem que eu tinha levado três cuecas. Após uma pausa, ainda com o olhar fixo em mim, Felipe repetiu, porém, aos gritos:

- SAIA DAQUI!!!

Do salto que dei da cama, não me lembro mais. Mas imagino que eu já deva ter caído fora do quarto, no corredor. Para onde o nariz apontou, corri como um louco. Quando percebi, estava dentro do quarto dos pais de Cláudio. Na velocidade que vim, pulei com tudo na cama do casal, bem no meio dos dois. Eles acordaram com o que eu calculo ter sido um bom susto.

- O que está havendo, menino?? – perguntou a mãe de Cláudio.

- É Felipe, tia. É Felipe... – repetia enquanto, desta vez, apertava o lençol de sua cama.

Ela foi até o quarto onde aquele filme de terror estava se passando. Eu, definitivamente, não queria mais voltar lá, mas o pai dos meninos me expulsou da cama de casal de maneira cordial. Ao entrar no quarto me esgueirando pela parede, ainda troquei olhares com Felipe. A mãe alisava o cabelo daquele projeto de demônio.

- Dorme, meu filho, dorme... – disse a mãe com uma voz doce, contrastando com os sons guturais que o fedelho produzia.

Curiosamente, diante dos afagos, Felipe pendeu o corpo para o lado, fechou de novo os olhos e sua face relaxou dando lugar a uma expressão angelical. Neste momento, Cláudio resolveu sair do banheiro. Eu que tivesse esperado ele terminar de colocar as tripas pra fora.

- O que foi? – perguntou meu amigo ao ver a mãe ajeitando Felipe na cama e eu acuado no canto do quarto.

- Seu irmão ficou sonâmbulo e Pedro se assustou. – disse a mãe, utilizando-se de grande eufemismo.

As coisas se normalizaram: o menino dormiu, Cláudio parecia ter se visto livre do que lhe fazia mal e, quando a mãe nos deu novamente um boa noite com a mão no interruptor de luz, fiquei em dúvida entre duas frases para responder:

- Tia, liga pra minha mãe, quero ir pra casa.

Ou:

- Tia, posso dormir com você?

Não tive coragem de falar nem uma, nem outra. Passei a noite vigiando Felipe e só fui dormir quando ele acordou de manhã me dando bom dia antes de ligar novamente o vídeo-game para jogar.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Não pára, não pára.


Em publicidade existe uma técnica de criação chamada “brainstorm”. Sem querer subestimar os conhecimentos em inglês de ninguém, é algo que podemos traduzir como tempestade cerebral. Mesmo odiando estrangeirismos, confesso que seria estranho chamar os colegas para fazer uma tempestade cerebral. Enfim, “brainstorm” nada mais é do que uma reunião entre dois ou mais criativos com o objetivo de despejarem um turbilhão de idéias sem qualquer tipo de censura e onde um pode ir complementando o conceito que o outro criou.

Eu estava com um briefing em mãos para criar defensas de rua para o Motel Scala. Defensas são aquelas placas que ficam nas calçadas, muitas vezes próximas de sinaleiras e, geralmente, instaladas nos arredores dos estabelecimentos que elas anunciam. Trata-se de uma boa ferramenta de localização.

Resolvi então fazer um brainstorm com Renato, diretor de arte da agência na época e Danilo, meu sócio. Só que, dessa vez, fizemos diferente: trocamos nossas idéias pelo MSN. Um erro.

Depois de muitos conceitos que não foram aproveitados, encontramos um caminho criativo que consideramos interessante. Imaginamos ser possível fazer um paralelo entre coisas que são ditas em, digamos assim, momentos íntimos e frases indicativas da localização do motel.

Você vai entender. Transcrevo abaixo o diálogo virtual:

Pedro diz:
Vamos lá moreno... o que é que as pessoas dizem quando estão transando?
Renato diz:
Ai, ai, ai, ai... que delícia...
Pedro diz:
hahahahahaha por favor, dê prefência a diálogos que tenham a ver com indicação de localização.
Renato diz:
hahaha ok, ok...
Renato diz:
Deixa eu pensar.
Pedro diz:
Algo assim... colocamos a placa um pouco antes da virada da rua com uma seta e o título: “Dá uma viradinha.”
Renato diz:
Certo... antes do ladeirão que desce para a cidade-baixa: seta pra baixo e título “Desce um pouquinho”
Pedro diz:
Ok, massa. Marca esse aí. O que mais?

E assim íamos criando, escrevendo um monte de frases de duplo sentido. No meio delas, algumas linhas meramente pornográficas, sem função alguma. E é isso que é brainstorm: um monte de bobagem sendo dita e algumas poucas coisas sendo aproveitadas.

Continuamos:

Renato diz:
Só mais um pouco. Você está quase lá.
Pedro diz:
Continue. Não pare, não pare.
Renato diz:
Mais rápido, mais rápido.

Nem Ney Matogrosso e Freddie Mercury conseguiriam manter uma conversa desse naipe. Copiei o trecho acima na íntegra e resolvi colar na janela do MSN de Danilo para que ele desse a sua opinião e também acrescentasse alguma frase pornô-publicitária. Mas, o inesperado aconteceu. Colei o diálogo na janela de Domingos, um amigo que até então nunca havia duvidado de minha masculinidade. Ficou assim:

Renato diz:
Só mais um pouco. Você está quase lá.
Pedro diz:
Continue. Não pare, não pare.
Renato diz:
Mais rápido, mais rápido.

(pausa para pensar no que dizer)

Pedro diz:
Mingote, não é nada disso que você tá pensando. Eu tô criando com Renato aqui umas peças para o Motel Scala...
Domingos diz:
Eu não tô pensando nada não... não precisa se justificar
Pedro diz:
Show de bola, então
Domingos diz:
Mas na boa... vá fazer sexo virtual com seu amigo em outra janela, ok?

Essas defensas do motel estão coladas na rua até hoje. Devem ter pra lá de dois anos e já recebemos o pedido de criação do cliente para serem substituídas.

Não sei se consegui convencer Mingo da minha heterossexualidade, mas aproveito o espaço para reforçar: Mingote, eu não sou viado. Renato não sei, mas eu não sou viado.

sexta-feira, novembro 07, 2008

"Doe uma laranja, lá lá lá lá lá, mas se for bonzinho doe duas"


Aos 11 anos de idade, fiz minha primeira campanha de sucesso. Uma campanha agressiva, de resultado, bem sucedida em recall, share of mind, market share e outros estrangeirismos publicitários que convergem em uma única tradução: deu certo. É com satisfação que lhes apresento a vencedora e polêmica campanha da laranja.

Infância é assim: brincamos de esconde-esconde, pega-pega, polícia e ladrão, baleado, garrafão, jogamos vídeo-game, futebol, papel higiênico molhado nos carros que passam na rua e, quando não resta mais nada pra fazer - após fazermos tudo -, chamamos de tédio. Foi justamente num momento como este, de ócio criativo, que a idéia da campanha tomou corpo.

Estávamos eu e Daniel na casa de Juninho, os três completamente de pernas pro ar. Um deitado no chão olhando pro teto, outro fitando a TV sem prestar a menor atenção no programa que estava passando e o outro (certamente não era eu, por conta da minha educação britânica) tirando catotas do nariz e lançando-as contra a parede através de petelecos.

- Deu fome... – disse Daniel, interrompendo o longo silêncio.

- É, também estou com fome. – concordei.

- Vamos ver o que tem na cozinha. – disse o dono da casa enquanto saía lentamente de sua inércia.

Juninho explorou primeiro a geladeira. Com a porta do eletrodoméstico aberta, passeava lentamente os olhos nas prateleiras, uma a uma. Pegou um queijo e disse para si mesmo:

- Não tem pão.

Devolveu o queijo, deu outra olhada e, com as mãos vazias, fechou a porta. Abriu o congelador logo acima. Nada de sorvete ou qualquer sobremesa, apenas cubas de gelo. Para nosso azar, aproximava-se o dia do mercado do mês em sua casa. Ou seja: parcas, quase nulas, as opções de lanches. Ainda tentou a despensa. Arroz, feijão, milho em conserva, palmito, caldo Knorr, sabão em barra, detergente. Nada!

- Tem laranja... – disse Juninho apontando desanimado para a fruteira em cima da mesa de almoço.

Laranja? Só lembro de ter chupado laranja quando era pequeno, nas festas juninas da escolinha. Laranja só em suco e olhe lá, eu era movido a Coca-Cola. Daniel fez uma última tentativa:

- Não tem um biscoito aí não?

- Não. Tem laranja... – reforçou Juninho.

Era o jeito. Cada um pegou uma fruta. Após as lavarmos, o dono da casa gentilmente nos cedeu uma faca. Sem prática alguma com o instrumento cortante, levamos uma década para conseguir tirar toda a casca. Demora que só fez aumentar a fome. Juninho como sempre, o mais precoce, conseguiu deixar a laranja só na casca interna, aquela parte branca. Dividiu-a em duas bandas com um corte preciso, prenúncio de sua carreira bem sucedida de cirurgião. Ao levar aquela polpa amarela e brilhante à boca, Juninho fez uma cara de satisfação como se estivesse comendo uma barra inteirinha de Toblerone. Àquela altura, eu e Daniel tínhamos nas mãos mais cascas do que fruta. Na tentativa de chegar na parte interessante, dávamos inábeis talhos que consumiam nossa preciosa merenda.

Conseguimos. Juninho tinha razão. O silêncio dos três na cozinha revelava a delícia que é chupar uma laranja. Aliás, não era bem silêncio, era um barulho irritante, como se fosse um beijo de carnaval. Sluuurp, glup, shliii, esses sons, mais ou menos. Se não fosse pela nossa pouca idade e alguém visse a avidez com que sorvíamos aquele sumo, diriam que a gente tinha fumado maconha e aquilo era larica.

Terminada a meleira geral em cima da mesa, instantaneamente, cada um pegou mais uma fruta. Dessa vez, eu e Daniel ignoramos a casca e só dividimos as bandas com a faca. A partir da terceira rodada, descobrimos a espetacular maneira de cortar a laranja em cruz. Desse jeito, assava muito menos a boca.

Quarta rodada, quinta, e acabaram as laranjas da casa. A fome não havia passado. E o pior: aquele vazio no estômago tinha se transformado em desejo por laranja. Não queríamos sanduíche de queijo, nem biscoito recheado São Luiz, nem Nescau, nem sorvete, nem mini-pizza, nem geléia de mocotó. Nem mesmo Toblerone servia. Só laranja.

Fomos até minha casa e nos deparamos com sete laranjas no cesto. As dividimos irmanamente. Duas pra cada, a sétima cortada em cruz, um gomo pra cada e o último deles no zerinho ou um. Comemos, sujamos tudo mais uma vez e partimos para a casa de Daniel em busca de mais laranjas. Incrível, aquilo era muito bom, mas não enchia a barriga.

No elevador, encontramos Fernando e Léo. Contamos a eles qual era a nova sensação do prédio e pedimos a colaboração dos dois já que o estoque de laranjas de nossas casas tinha ido para o espaço. A recepção da idéia não foi das melhores.

- Chupar laranja? Se ainda fosse para jogar na casa de Dr. Encrenca... – disse Fernando, referindo-se a um vizinho chato.

- Por mim vocês ficam com todas que acharem lá em casa. – disse Léo, desdenhando de nossa mania repentina.

A indiferença dos dois durou pouco. Logo eles já estavam nos ajudando a finalizar as cítricas frutas de suas próprias casas com mais gula que nós, os pioneiros. Então, um grande problema ameaçou tirar nossa tranqüilidade: já não havia mais fontes de laranjas. Após um pequeno início de tumulto, verdadeira síndrome de abstinência, as coisas foram começando a clarear.

- Por que não vamos de apartamento em apartamento pedindo laranjas? – Daniel deu seu lampejo de solução.

- Claro que não. Sou lá mendigo pra ficar indo de porta em porta pedindo comida? – exasperou-se Fernando, o orgulhoso da turma.

- Podemos fazer melhor: vamos criar a campanha da laranja. – disse eu, triunfante, pai-coruja da própria idéia.

Meus amigos lançaram em mim um olhar de peixe morto. A experiência mostrava que quando eu tinha estalos assim, costumava sobrar para alguém ou para todos. Acalmei o grupo apresentando o planejamento da campanha:

- Pegamos o toca-fitas de Daniel e gravamos uma mensagem pedindo doações de laranjas. Depois, colocamos o aparelho na frente da porta do apartamento junto com uma cesta vazia, apertamos play, tocamos a campainha e nos escondemos na escada.

Devo ter sido persuasivo. Por algum milagre eles toparam no ato. Fomos até a casa de Daniel e fizemos a gravação. O texto foi meu, a locução de Juninho e a trilha, um coro quase beneditino, do resto do grupo. Não repare, mas o resultado foi mais ou menos assim:

- (coro ao fundo. Locução com voz impostada em tom sério) Atualmente, a fome é uma das principais causas de morte no mundo inteiro. E as crianças do Parque das Árvores estão com fome. Por favor, doe laranjas para combater esse mal. Basta depositá-las no cesto que se encontra ao lado do aparelho de som. Muito obrigado.

Como se já não bastasse a locução, entrava um jingle de gosto duvidoso:

- Doe uma laranja, lá lá lá lá lá, mas se for bonzinho doe duas.

Nem rima tinha.

Existe uma máxima na publicidade que diz que propaganda pra dar resultado tem que ser ou muito boa, ou muito ruim. Adivinha qual era o caso da nossa? Só sei que a campanha deu certo: no terceiro ou quarto apartamento já estávamos com o cesto cheio de laranjas.

Ainda celebrávamos a grande quantidade de frutas recolhidas quando sofremos um infortúnio. Deixamos o som na frente de um dos apartamentos e, como de costume, nos escondemos na escada. De repente, no meio da locução, o som foi interrompido e então ouvimos a porta bater. Voltamos para olhar e só encontramos a cesta. Haviam roubado o aparelho de Daniel.

Tocamos várias vezes a campainha. Enquanto batia na porta sem parar, Daniel gritava “devolve meu som, devolve meu som!”. Depois de alguns minutos, já saturado da confusão na entrada de sua casa, Alexandre, o revoltado adolescente de 16 anos responsável pelo furto, abriu a porta e colocou o som diante de nossos pés através de movimentos bruscos.

- Doação de laranjas?! Vocês são idiotas, é? – Perguntou irritado e em seguida bateu a porta com força na cara da gente.

Após tantas histórias nossas que, no mínimo, desafiaram o bom senso e jamais obedeceram qualquer lógica, percebo que a áspera pergunta de Alexandre ainda ressoa em minha cabeça. Mas, confesso: ainda não encontrei resposta para ela.